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Por que é importante entender o escândalo de assédio a ginastas nos EUA

Médico é acusado de abusar de cerca de 140 garotas; vítimas dizem que caso teve pouca repercussão porque envolve mulheres

 

Desde terça-feira (16), ginastas americanas têm comparecido a um tribunal no Estado de Michigan para dizer o que centenas de mulheres pelo mundo vêm repetindo nos últimos meses: “me too”, ou “eu também”.

Até esta sexta-feira (19), espera-se que quase 90 mulheres deem seus testemunhos contra o médico Larry Nassar, acusado de abusar sexulmente de cerca de 140 garotas. É quase o mesmo número de vítimas que as dos casos de Harvey Weinstein, Bill Cosby e Jerry Sandusky somadas, de acordo com o Huff Post.

“Meninas não são meninas para sempre. Elas crescem e viram mulheres fortes que voltam para acabar com o seu mundo.”

Kyle Stephens

primeira testemunha a depor

Entre as vítimas estão campeãs olímpicas como Simone Biles e Gabby Douglas. Lassar foi o médico da equipe de ginástica artística dos EUA e da Universidade do Estado de Michigan por cerca de duas décadas - nessa última, cuidava não apenas de ginastas, mas também de outras atletas, como dançarinas e patinadoras.  

Devido ao número de vítimas, o caso é considerado o maior escândalo conhecido da história do esporte. Algumas testemunhas dizem que as abusos não tiveram a repercussão devida - elas afirmam que, se envolvesse homens, o caso teria mais destaque.

As denúncias também são importantes porque lançam luz sobre o papel de instituições em casos de assédio sexual. A universidade e o USA Gymnastics, que funciona como a federação de ginástica, também são acusados em alguns processos.

A cronologia das acusações contra Nassar

Larry Nassar, de 54 anos, é acusado de usar sua condição de médico para abusar de pacientes por décadas. De acordo com a acusação, ele dizia que faria exames e inseria o dedo na vagina e no ânus das pacientes. Algumas vítimas disseram que ele se masturbou em frente delas e as tocou com seus genitais.

A primeira acusação pública contra Nassar foi feita em setembro de 2016, um ano antes da popularização da hashtag #MeToo. À época, ele já não trabalhava mais com a equipe de ginástica dos EUA, e foi demitido da universidade.

“Sinto saudade dela todos os dias. Tudo começou com ele.”

Donna Markham

mãe de Chelsea Markham, vítima que cometeu suicídio

Em dezembro de 2016, Nassar foi preso pela posse de 37 mil imagens de pornografia infantil. Em julho de 2017, ele se declarou culpado pelo crime e, em dezembro, foi condenado a 60 anos de prisão nos processos a respeito do arquivo de fotos.

Durante julgamento em novembro de 2017, ele também se declarou culpado em dez acusações de assédio sexual. Agora, as vítimas estão dando depoimentos sobre os abusos e o impacto que eles causaram em suas vidas. A vítima mais velha a ser ouvida tinha quase 40 anos. A mais nova, 15.

“Você [Nassar] usou a posição de confiança que tinha da forma mais vil possível, para abusar de crianças.”

Rosemarie Aquilina

Juíza

Os depoimentos serão usado pela juíza para estabelecer a pena que ele deve cumprir - o anúncio é esperado para esta sexta-feira, mas pode ser feito apenas no sábado (20). A pena mínima para ele é de 25 anos de prisão, mas a Procuradoria pediu que ele fosse sentenciado a, no mínimo, 40 anos, e no máximo 125.

Em novembro, Nassar afirmou que estava “terrivelmente arrependido” pelo que fez e disse esperar que as vítimas e a comunidade pudessem superar o trauma.

“Ao vir aqui falar publicamente, não estou falando só por mim. Falo por todas as meninas e mulheres do passado, presente e futuro que foram ou serão afetadas por abuso sexual.”

Kate Mahon

vítima

Atletas olímpicas

O caso ganhou repercussão quando atletas olímpicas que disputaram Jogos Olímpicos declaram que elas também haviam sido vítimas de abuso. Parte delas falou sobre a situação usando a hashtag #MeToo. Uma das primeiras campeãs olímpicas a se pronunciar usando a hashtag foi McKayla Maroney, em outubro.

Dentre as cinco integrantes do time campeão nos Jogos Olímpicos do Rio, três alegaram terem sido vítimas de abusos: Aly Raisman, Gabby Douglas e Simone Biles, considerada a melhor atleta da atualidade, que fez seu relato na última segunda-feira (15). McKayla Maroney e Jordyn Wieber, medalha de ouro por equipes em Londres, e Jamie Dantzscher, medalha de bronze em Sydney, também estão entra as vítimas.

“Por muito tempo, me perguntei: fui muito ingênua? Foi minha culpa? Não, não foi minha culpa. Não, eu não vou e não devo carregar a culpa que pertence a Larry Nassar, a equipe de ginástica dos EUA e outros”, escreveu Biles em suas redes sociais. 

 

Visibilidade e sexismo

Mesmo com a declaração de medalhistas de um dos esportes mais assistidos durante as Olimpíadas, algumas vítimas e comentaristas afirmam que o caso não atingiu a repercussão que merece. Eles afirmaram que a falta de interesse está relacionada a sexismo.

“Acho que isso está ligado à importância que damos a atletas homens x atletas mulheres. Isso é um caso de ginastas, dançarinas e patinadoras, não jogadores de futebol ou basquete. Honestamente, acho que é sexismo. Não tem outra explicação para que tantas mulheres tenham feito denúncias e isso não tenha virado manchete”, afirmou uma das vítimas, Morgan McCaul, ao site HuffPost.

“Não sinto que, se eu fosse uma atleta olímpica, isso seria diferente. Se eu fosse um jogador de futebol ou basquete da universidade, acho que o público e a universidade, como instituição, iriam ligar mais.”

Jessica Smith

vítima de abuso

O colunista do jornal britânico the Guardian Bryan Armen Graham fez o mesmo questionamento. “Por que o problema de visibilidade? [...] A razão mais inquietante é que todo abuso contra mulher é normalizado em nossa sociedade. O escândalo de Nassar cabe no nosso entendimento de um esporte como ginástica feminina. Em algum nível, esperamos que mulheres sejam vítimas, então não nos surpreendemos quando elas são”, escreve.

O papel das instituições

O caso de Nassar também lança luz sobre o papel das instituições em assédios sexuais. Em dezembro, foi noticiado que McKayla Maroney abriu um processo contra a federação de ginástica, dizendo que foi paga para assinar um acordo de confidencialidade e não falar nada sobre o caso Nassar. Segundo o jornal The Washington Post, ela teria ganhado US$ 1,25 milhão. Seu advogado afirma que ela aceitou o dinheiro porque estava sofrendo com o trauma e precisava pagar pelo tratamento.

“Isso não acontece só em Hollywood. Acontece em todo lugar. Em qualquer lugar em que haja uma posição de poder, há potencial para abuso. Eu tinha um sonho de ir para a Olimpíada, e as coisas pelas quais tive de passar para chegar lá foram desnecessárias e nojentas.”

McKayla Maroney

atleta olímpica

Na quarta-feira (17), a ginasta Aly Raisman disse, em entrevista ao canal ESPN, que a federação de ginástica pediu que ela ficasse quieta após ter sofrido abuso.

“Quando alguém em um cargo importante te diz para ficar quieta, logo depois de você sofrer um abuso, isso é uma ameaça, principalmente quando a primeira preocupação deles deveria ser garantir que eu estou bem, buscar informações comigo para ver se outras atletas também estão sofrendo abusos”, afirmou Aly.

Outra atleta, Maggie Nichols, disse que informou à federação em 2015 sobre os abusos que sofreu e afirma que, mesmo assim, nada foi feito.

De acordo com a CNN, o advogado John Manly, que representa 107 vítimas, disse que Nassar teve apoio de três instituições: a federação de ginástica dos EUA, o Comitê Olímpico dos EUA e a Universidade Estadual de Michigan. Todas, segundo ele, “falharam terrivelmente” em proteger as vítimas. Ele afirma ainda que a federação tentou encobrir o escândalo.

A federação afirma que informou ao FBI sobre as acusações e que a acusação de que tentou encobrir o escândalo antes da Olimpíada do Rio não tem fundamento.

A Universidade do Estado de Michigan - que teve funcionários acusados de saber e ignorar as acusações desde 1997 - afirma que não sabia dos abusos antes de o caso ser noticiado na imprensa.

O Comitê Olímpico também afirma que só ficou sabendo das acusações em 2015, quando foi informado pela federação. “Ficamos de coração partido com o abuso, orgulhosos das corajosas vítimas que denunciaram e agradecidos por nosso sistema de justiça criminal ter garantido que Nassar nunca machuque outra jovem novamente.”

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