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Os 3 últimos anos foram os mais quentes já registrados. O que isso indica

Dados divulgados nesta quinta-feira (18) pela Organização Meteorológica Mundial fortalecem tese de que mudança climática é provocada por ação humana

     

    Os três últimos anos foram os mais quentes já registrados na história, de acordo com dados divulgados nesta quinta-feira (18) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), da ONU.

    Os dados fortalecem a posição de cientistas que argumentam que o aumento das temperaturas globais está sendo causado pela ação humana. A divulgação gerou diversas críticas a céticos da mudança climática, como o presidente americano Donald Trump.

    O que diz o relatório

    A análise, feita a partir de uma compilação de dados das principais agências meteorológicas do mundo, mostra que 2016 foi o ano mais quente já registrado, com temperatura média 1,2ºC acima da média registrada na era pré-industrial, escala usada como referência. Naquele ano, houve o fenômeno El Niño, que tende a fazer subir as temperaturas globais.

    Quando se desconsidera o El Niño, 2017 passa a deter o recorde de ano mais quente da história. Em 2017, as temperaturas ficaram 1,1ºC acima da média pré-industrial. Em 2015 (também afetado pelo El Niño), a média foi semelhante.

    Os dados apontam ainda uma tendência de longo prazo de temperaturas altas, o que, segundo o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, é mais importante que o ranking individual dos anos.

    “Dezessete dos dezoito anos mais quentes da história foram neste século, e o grau de aquecimento nos últimos três anos foi excepcional. O calor no Ártico também foi particularmente acentuado e isso terá consequências profundas e de longo prazo no nível dos oceanos e nos padrões de clima em outras partes do mundo” disse. A exceção é o ano de 1998, quando os efeitos do El Niño foram particularmente fortes.

    A análise foi feita com dados da Administração Oceânica e Atmosférica dos EUA, do Instituto para Estudos Espaciais da Nasa, do Centro Hadley do Escritório de Meteorologia do Reino Unido, e da Universidade de East Anglia, também no Reino Unido. Foram usadas ainda informações do Centro Europeu para Previsão de Médio Alcance e da Agência Meteorológica do Japão.

    O que isso indica

    A maior parte dos cientistas acredita que a mudança climática é causada pelo aumento na concentração atmosférica dos gases do efeito estufa, como dióxido de carbono (CO2), desde que o homem começou a queimar combustíveis fósseis em larga escala, após a década de 1890.

    O fato de 2017 ter sido tão quente quanto 2015 e 2016, mesmo sem a interferência do El Niño, indica que as alterações causadas pelo homem no clima estão competindo com aquelas provocadas por fenômenos naturais.

    “É extraordinário que as temperaturas em 2017 tenham sido tão altas, mesmo sem o El Niño. Na verdade, estamos entrando nas condições da La Niña, que traz mais frio”, disse Peter Stott, diretor do serviços de meteorologia britânico, à rede BBC.

     

     “O ano passado foi consideravelmente mais quente que 1998, quando tivemos um El Niño muito forte. Isso mostra claramente que a ação humana, principalmente a emissão de CO2, está fazendo com que a maior influência natural no clima pareça menor.”

    A divulgação dos dados gerou críticas àqueles que negam que haja influência humana no aumento das temperaturas globais. “Enquanto os céticos continuam fechando os olhos para a mudança climática, o aumento das temperaturas segue sem pausas”, disse o professor Michael Mann, da Universidade Estadual da Pensilvânia, ao jornal britânico The Guardian. “E os impactos desse aquecimento - incêndios florestais sem precedentes, mega tempestades e enchentes - agora são óbvios, para todo mundo ver. Esse tema nunca foi tão urgente.”

    Trump sugeriu, em dezembro, que o recorde de frio nos EUA enfraquecia o argumento daqueles que defendem que o clima está mudando. A cientista Sarah Myhre disse que a afirmação era “extremamente burra”. A mudança climática está ligada não apenas ao aumento de temperaturas, mas a diversos eventos climáticos.

    “As temperaturas são uma pequena parte da história. O calor em 2017 foi acompanhado de eventos climáticos extremos em muitos países. Os EUA tiveram o ano mais caro em termos de clima e desastres climáticos, enquanto outros países viram seu desenvolvimento ser atrasado ou até revertido por ciclones tropicais, enchentes e secas”, disse Taalas.

    Trump anunciou em 2017 a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, em que a comunidade internacional se comprometia a limitar o aquecimento global a 2ºC acima da média pré-industrial. Ele argumenta que o acordo prejudicaria a geração de energia no país.

    No início da semana, um rascunho de documento feito pelo IPCC, o painel da ONU que analisa a mudança climática, vazou para o imprensa. O documento, que não tem relação com o relatório da OMM, afirma que, em 2040, as temperaturas globais devem atingir o patamar de 1,5ºC acima do nível pré-industrial. O Acordo de Paris estabelece que os países deveriam fazer esforços para limitar o aumento da temperatura a esse nível.

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