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O que são meteoritos e com que frequência eles caem na Terra

Meteoritos como o que caiu nos Estados Unidos, assustando a população local, são mais comuns e causam menos problemas do que se pode imaginar

    Uma bola de fogo rasga o céu próximo à cidade de Detroit, nos Estados Unidos. Em seguida, um impacto faz o chão tremer na região, provocando medo nos locais. O que poderia ser uma cena de mais um filme sobre o fim do mundo aconteceu na noite desta terça-feira (16). A explicação para o fenômeno veio no dia seguinte, através de um órgão do governo americano, confirmando se tratar de um meteorito.

    O impacto causado foi calculado em 2 na escala Richter e não deixou feridos, nem causou qualquer tipo de dano nas proximidades. Os moradores, espantados com o brilho intenso liberado pelo objeto, gravaram a cena em vídeo. O registro dessa câmera a bordo de um carro mostra sua passagem e a explosão do impacto.

    O que são e de onde vêm

    Para entender meteoritos, é preciso dar um passo para trás e lembrar que há mais objetos em constante movimento no sistema solar do que o Sol, a Lua ou demais planetas além da Terra. São os chamados “corpos menores”, o que inclui, por exemplo, asteroides e meteoroides.

    Asteroides são grandes blocos rochosos, formado de minérios e metais, que rodeiam o Sol – a maioria entre as órbitas de Júpiter e Marte no, não por acaso, chamado “cinturão de asteroides”. Quando um asteroide se choca com outro, os fragmentos que se espalham como resultado do choque são chamados meteoroides.

    Como estamos todos no mesmo sistema solar, não é difícil de imaginar que esses meteoroides trombem com alguma frequência nesse objeto imenso que é o planeta Terra – a Nasa, a agência espacial americana, tem o registro de mais de 15 mil NEOs, ou seja, objetos como asteroides, cometas e meteoroides circulando próximos à Terra. Antes mesmo de isso acontecer, tão logo um meteoroide adentre a atmosfera terrestre, ele automaticamente muda de nome e passa a se chamar meteoro.

    Quando o meteoro, que já vinha em grande velocidade, se aproxima da Terra, que também está o tempo todo se movimentando em grande velocidade (cerca de 30 km/s), o resultado é extremo.

    “Esses corpos podem se chocar de frente, e aí as velocidades se somam, ou um alcança o outro, como um carro batendo na traseira do outro em uma rodovia. Por isso a velocidade de impacto pode variar de 11 a 70 km por segundo”, explica ao Nexo a professora e pesquisadora no Museu Nacional, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Maria Elizabeth Zucolotto, uma das maiores especialistas em meteoritos no Brasil.

    Muitos deles não aguentam a resistência do ar e, pelo atrito, entram em combustão e se desintegram, deixando um rastro luminoso. Daí a razão de meteoros serem vulgarmente chamados de “estrelas cadentes”.

    Eventualmente, um meteoro é grande o suficiente para resistir a essa desafiante entrada e atinge finalmente o solo na Terra. Quando isso acontece, ele é chamado de meteorito.

    A grande maioria dos meteoritos (99,8%, de acordo com a Nasa) são formados por pedra e ferro e vem de asteroides. Desses, os de tipo HED são mais valiosos, por serem originais de um asteroide chamado Vesta. Os outros 0,2% são fragmentos de planetas, como Marte, ou da Lua.

    Mais comuns do que você pensa

    De acordo com estimativas da Nasa, todos os anos caem na Terra cerca de 48,5 toneladas de material cósmico (entre meteoros, meteoritos ou apenas poeira). A frequência com que caem, no entanto, é algo muito mais complicado de se cravar.

    Isso porque poucos caem em lugares habitados ou são vistos. Ainda assim, pelas contas da Nasa, o número de meteoritos encontrados no mundo todo passa de 50 mil. 

    “Cair, cai. Difícil é as pessoas virem e divulgar. Antes era ainda mais difícil porque ninguém sabia o que era”, diz a professora Zucolotto. “Mas achar um meteorito continua sendo pior do que procurar agulha em palheiro. Em geral a gente até oferece recompensa por um porque senão a gente passa a vida toda procurando sem resultado.”

    No Brasil, a pesquisadora atua como uma espécie de “caçadora de meteoritos”. Quando um deles é visto e o caso vira notícia ou o Museu Nacional é notificado, a especialista corre para o local para ser a primeira técnica a colocar as mãos no objeto.

    Em 2017, dois meteoritos foram registrados no país. Um em maio, na Bahia; o outro em junho, no Pará. “Eu quase não acreditei. A gente ainda estava estudando um quando caiu outro”, lembra.

    Bendegó e Angrito

    O maior desses objetos já registrados no Brasil é o chamado meteorito de Bendegó, encontrado no sertão baiano ainda no século 18. Atualmente preservado no Museu Nacional, o pedregulho pesa 5,36 toneladas e mede pouco mais de 2 por 1,5 metros.

    O mais célebre, porém, de acordo com Zucolotto, é um meteorito chamado Angrito. Ele foi assim batizado por ter sido encontrado no mar de Angra dos Reis, em 1869. “Até coisa de 20 anos atrás, ele era o único de um tipo, quase tão antigo quanto o próprio sistema solar, o mais antigo de que se tem conhecimento”, explica a professora. Dos pedaços recuperados do objeto do litoral carioca, um foi doado para o Museu Nacional. Os demais estão desaparecidos e podem valer até R$ 3,5 milhões cada.

    Perigo improvável

    Apesar de a visão de um meteorito ser algo bem assustador, as chances de um cair na cabeça de qualquer pessoa são, segundo a professora Zucolotto, muito poucas. 

    “É extremamente raro. Diferente de uma bala perdida, o objeto cai verticalmente e só tem uma chance de acertar algo ou alguém. Há registros de telhados, carros e, no Brasil, até vacas. Mas são exceções”, diz.

    Embora sejam estatisticamente inofensivos, há, claro, casos mais graves, como o que atingiu uma região próxima à uma cidade russa em fevereiro de 2013, quebrando vidraças e deixando mais de 1 mil feridos. Os danos causados, no entanto, se deram pela efeito causado pela sua passagem extremamente rápida – calcula-se que seus fragmentos tenham alcançado 19 km por segundo – e não pelo seu impacto no solo.

    Como identificar e a quem avisar

    Foto: Ian Waldie/Reuters
    Meteorito de 13 cm leiloado nos Estados Unidos por US$ 17 mil em 1998
    Meteorito de 13 cm leiloado nos Estados Unidos por US$ 17 mil em 1998

    Quem vir ou deparar com um possível meteorito, a recomendação é de notificar o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. No site dedicado ao tema, há uma série de passos para que seja feita a identificação prévia do objeto.

    De acordo com a professora Maria Elizabeth Zucolotto, trata-se de pedras mais pesadas do que as rochas de mesmo tamanho, não possuem formato regular e apresentam marcas (“como se alguém as tivesse apertado com os dedos”). A especialista recomenda ainda lixar parte da rocha e observar se há partículas de brilho metálico no interior “da cor de um martelo”.

    Em caso de dúvida, a professora indica que fotos do objeto sejam enviadas para meteoritos@mn.ufrj.br. A coleta e o estudo de meteoritos, explica Zucolotto, tem grande valor científico. “Muitos deles são 'primitivos' e trazem muita informação sobre o começo da formação do Sistema Solar”, exemplifica.

     

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