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A relação entre o cinema africano e os processos de independência política

Professor de história e teoria do cinema da UFBA falou ao ‘Nexo’ sobre as origens históricas e políticas dessas cinematografias

     

    Chamada de “Decreto Laval” (em homenagem ao primeiro-ministro Pierre Laval), uma lei aprovada na França em 1934 só permitia filmagens em território colonial francês mediante uma autorização ministerial da metrópole. Na prática, a determinação impossibilitava um africano de fazer cinema em seu continente, ao menos em colônias francófonas, como Guiné e Senegal.

    Por essas razões jurídicas, ou ainda por outras, políticas e materiais, o desenvolvimento dos cinemas africanos tem, em geral, relação direta com os processos de descolonização do continente, ocorridos sobretudo na segunda metade do século 20.

    Marcelo Ribeiro, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), elaborou um mapa em que sinalizou as datas de independência de nações africanas. Seu objetivo era o de familiarizar seus alunos de “Cinema internacional: cinemas africanos”, disciplina que ministra, à geografia do continente, ao mesmo tempo em que pudessem visualizar a cronologia das independências e sua correspondência com a criação da tradição cinematográfica de cada país.

     

    Ribeiro falou ao Nexo sobre a relação entre o cinema e a superação do colonialismo nesses países, por meio da construção de narrativas sobre si próprios. Menciona também, pontualmente, alguns diretores e filmes como ponto de partida para um mergulho histórico ou cinéfilo nesse universo.  

    Cinema e identidade na África independente

    Os projetos de desenvolvimento dos cinemas nacionais africanos se relacionam, principalmente no caso das colônias francesas e portuguesas, à “vontade de alguns Estados recém-independentes de se apropriarem do meio cinematográfico para a construção de uma identidade nacional, de discursos sobre essa identidade”, disse o professor.

    Ribeiro explica que isso não ocorreu apenas em uma dimensão nacional, mas transnacional, envolvendo vários vetores de articulação. O pan-africanismo, um projeto de articulação política entre essas nações, contou portanto com a participação do cinema: a criação da Federação Pan-africana de Cineastas, na década de 1960, estava imbuída desse horizonte continental.

    Entre os efeitos dessa correlação entre o cinema e o período pós-colonial estão preocupações temáticas que atravessam a produção de muitas nações africanas nesse período: a abordagem das lutas pela independência e o questionamento do colonialismo são recorrentes.

    Há ainda, de acordo com Ribeiro, um “olhar para dentro”: o interesse, o registro e a reinvenção de tradições africanas, de elementos culturais considerados autênticos e importantes para a reconstrução dessas nações após a independência.

    “Essa relação entre o cinema e as independências políticas não significa que ele tenha se desenvolvido plenamente, logo após a independência. O cinema é parte de uma luta pela construção desses projetos de identidade nacionais e transnacionais, em que há interesse pela ‘descolonização da mente’, conceito de [escritor queniano] Ngugi Wa Thiong’O”, disse Ribeiro. “O que a independência realiza em termos políticos formais, o cinema vai estar engajado em tentar produzir no contexto mental, das representações.”

    Fogem à regra

    Egito e África do Sul, antigas colônias britânicas, são exceções a essa relação entre o desenvolvimento de uma tradição cinematográfica e a descolonização. No caso do primeiro, o surgimento dessa tradição é anterior à independência, que se concretizou totalmente em 1936.

    Já no segundo caso, o apartheid, regime sul-africano que segregou os grupos raciais do país e cerceou direitos de todos, com exceção da minoria branca entre 1948 e 1991, foi responsável por retardar a construção de um cinema independente. “[O apartheid] define a existência, na África do Sul já independente, de um cinema basicamente colonialista, ainda racista. É só com o fim do apartheid que isso vai se transformar de uma maneira mais ampla”, disse Ribeiro.

    Diretores e filmes para se iniciar na pesquisa

    O curta “África sobre o Sena” (1955)

    Feito na França pelos senegaleses Paulin Vieyra e Mamadou Sarr, trata-se de um dos filmes considerados inaugurais do cinema africano. O curta documental foi produzido ainda sob o Decreto Laval, antes da independência senegalesa, em 1960. Trata do desenraizamento e da solidão dos africanos em Paris.

    A obra do cineasta Ousmane Sembène

    Sembène é um grande cineasta do Senegal e da África Ocidental. “Na obra, ele demonstra preocupação muito nítida, de maneira recorrente, com questões sociais e com a historia da colonização”, disse o professor. Ribeiro menciona um filme inicial da trajetória do cineasta, “A Garota Negra” (1966), que aborda a relação entre uma senegalesa e os patrões franceses para quem trabalha. Por meio desse enredo, trata e critica a situação colonial, em um momento quase imediatamente posterior à independência. “Xala” (1975), por sua vez, já apresenta uma crítica à elite africana que assume o controle do país logo após o fim da colonização francesa.

    O longa-metragem “Ó, Sol” (1967)

    Dirigido pelo mauritano Med Hondo, aborda “de maneira frontal toda a herança do colonialismo e a luta pela descolonização”. Como em “A Garota Negra”, o enredo também se baseia na experiência de um cidadão da Mauritânia, ex-colônia da França, no país europeu.

    A obra de Flora Gomes

    A trajetória do cineasta pioneiro da Guiné-Bissau também se iniciou sob o signo da independência, embora seus  filmes mais conhecidos, como a comédia "Nha Fala" (2002), sejam posteriores. Seu primeiro longa, "Mortu Nega" (1988), narra a busca de uma mulher por seu marido, um membro da resistência, durante a guerra de independência do país.

     

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