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Quais as 2 versões para a morte do venezuelano Óscar Pérez

Desertor que pegou em armas para derrubar o governo Maduro morre em cerco policial, sob aprovação de governistas e críticas de opositores

     

    A morte violenta do piloto venezuelano Óscar Pérez, nesta segunda-feira (15), em El Junquito, a 37 quilômetros da capital, Caracas, fez com que governistas e opositores trocassem acusações mútuas, aprofundando ainda mais as divergências que há anos impedem o diálogo político entre os dois pólos radicalizados na Venezuela.

    Pérez foi um dos nove mortos na operação que teve início às 4h30 e se prolongou por nove horas, com a participação de 150 membros das forças especiais da PNB (Polícia Nacional Bolivariana). O cerco ao piloto foi marcado por cenas de guerra, com a presença de franco-atiradores e de agentes munidos de lançadores de granadas, do lado de fora, enquanto, do lado de dentro, o grupo fiel a Pérez, portando fuzis e outros equipamentos militares, alternava resistência e tentativas frustradas de negociação e de rendição.

    A operação militar foi seguida, no campo político, por um ultimato dado à oposição pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, logo no dia seguinte, 16 de janeiro. “É a última oportunidade”, disse ele, se referindo à mesa de diálogo que terá nova sessão nesta quinta-feira (18), na República Dominicana.

    Governo e oposição disputam o poder de maneira violenta há quase 30 anos na Venezuela, com ambos os lados se alternando em tentativas de golpe militar, protestos e ataques mútuos. Os últimos 19 anos dessa disputa estão marcados pela hegemonia do grupo político ligado, primeiro, ao ex-presidente Hugo Chávez, que governou de 1999 a 2013, e, mais recentemente, ao atual presidente, Nicolás Maduro, classificado por diversos governos da região como “ditador”.

    Morte ao vivo

     

    No episódio mais recente e dramático dessa disputa, durante o cerco em El Junquito, o próprio piloto Óscar Pérez – que havia sido membro do Cicpc (Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas), cujas funções são comparáveis às da Polícia Civil no Brasil – fez uma série de 15 pequenas postagens em vídeo em sua conta no Instagram.

    Nas imagens, é possível vê-lo, primeiro, apelando à “resistência dos venezuelanos” contra o governo, enquanto seus companheiros circulam ao fundo, portando fuzis e vestindo capacetes e coletes à prova de bala, mostrando disposição para resistir.

    Nos vídeos que se seguem, Pérez aparece se dizendo “cercado” e apelando à negociação, até, por fim, já com o rosto coberto de sangue, dizer que as forças do governo não pretendem negociar e estão empenhadas em “assassinar” os revoltosos.

    Ao fundo, é possível ouvir disparos. Pérez diz nas imagens que estava acompanhado por civis, incluindo mulheres e crianças, mas elas não aparecem nos vídeos em momento algum.

    Num dos vídeos, ele dá a entender que está disposto a resistir até a morte, como quando diz, se dirigindo aos filhos: ��Espero vê-los algum dia”. Ou quando afirma: “Estamos cercados. Agora só vocês têm o poder”, se dirigindo aos opositores que o assistem.

    Porém, quando aumenta o fogo das forças do governo, ele, já ferido, grita: “Estamos negociando. Há civis aqui. Não permitiremos que matem essas pessoas inocentes.” E, por fim, declara, olhando para câmera: “Não querem que nos entreguemos. Eles querem nos assassinar. Acabam de nos dizer’.”

    A versão do governo

    Para o governo Maduro, Pérez é líder de um “perigoso grupo terrorista”, responsável por “roubar um helicóptero oficial e de perpetrar crimes atrozes, metralhando e lançando artefatos explosivos contra o Tribunal Supremo de Justiça e contra o Ministério do Interior, onde, naquele momento se realizava cerimônia comemorativa do Dia do Jornalista, em 27 de junho de 2017”.

    Ele também é apontado como responsável pelo “ataque contra o destacamento da Guarda Nacional em San Pedro de los Altos, no Estado de Miranda, em 18 de dezembro de 2017, de onde foram subtraídas armas de guerra”.

    Durante o cerco desta segunda-feira (15) o grupo de Pérez matou dois policiais e deixou outros cinco feridos, segundo a PNB, enquanto a negociação para a rendição se desenrolava.

    A versão da oposição

    Para os opositores do governo, a operação foi na verdade uma execução transmitida ao vivo pelas redes sociais. Muitos duvidam da informação do governo a respeito dos ataques com tiros e granadas contra a sede do Tribunal Supremo, em 2017, atribuído a Pérez.

    “Que o mundo inteiro veja como as forças a mando de Maduro executam ao vivo e a cores o agente da Cicpc e outros venezuelanos", disse Antonio Ledezma, um dos nomes fortes da oposição, que hoje vive no exílio.

    Pérez nunca foi ator político com expressão eleitoral e vinculação partidária. O piloto, que também foi ator amador em filmes de ação, representava uma corrente extrema que dizia recorrer às armas para derrubar a ditadura, cumprindo a obrigação constitucional de proteger o povo e a democracia.

    Organização de direitos humanos protesta

    Para além da disputa política mais imediata, especialistas em direitos humanos vêm apontando a obrigação de o Estado venezuelano esclarecer devidamente os fatos.

    Existe a suspeita de que Pérez tenha sido simplesmente executado, em vez de ter sido capturado e preso quando isso era possível.

    Ainda durante a operação, enquanto Pérez postava vídeos do cerco no Instagram, a ONG Provea (Programa Venezuelano de Educação e Direitos Humanos) publicou a seguinte mensagem no Twitter: “O governo é responsável pela vida e pela integridade do piloto Óscar Pérez, que manifestou intenção de se entregar às autoridades. O Ministério Público tem a responsabilidade de zelar para que o procedimento policial ocorra sem danos à vida e à integridade do piloto e de seus acompanhantes.”

    Caso fique comprovado que Pérez foi morto depois de rendido, os agentes, assim como o Estado venezuelano, podem enfrentar processos na Justiça local e internacional. Mesmo nas situações mais extremas, de guerra, são expressamente proibidas as execuções de combatentes rendidos ou capturados, quando não demonstram mais disposição para manter o enfrentamento armado.

     

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