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Por que as tartarugas macho australianas estão desaparecendo

Pesquisa revela que 99% dos animais são fêmeas em algumas praias; sexo é determinado por temperatura da areia

 

Há anos, pesquisadores que trabalham com tartarugas marinhas se preocupam com o possível efeito do aumento global de temperaturas para a sobrevivência dos animais. Agora, um estudo feito na Austrália sugere que as consequências da mudança climática para as tartarugas são mais graves do que se imaginava.

Assim como ocorre com outras espécies de répteis, o sexo das tartarugas marinhas é determinado pela temperatura da areia em que os ovos são colocados. A temperatura que produz a mesma quantidade de machos e fêmeas varia de acordo com a espécie, mas normalmente é apontada como girando em torno de 29°C. Acima dessa temperatura, nascem mais fêmeas. Abaixo, mais machos. Com o aumento das temperaturas globais, teme-se que haja um excesso de população feminina, o que causa um desequilíbrio e ameaça à reprodução das tartarugas marinhas, que já correm risco de extinção por fatores como pesca, poluição, trânsito de veículos em praias de desova e destruição de seu habitat de desova.  

Um estudo publicado no Current Biology no dia 8 de janeiro mostrou que o desequilíbrio está ocorrendo, e em largas proporções. A pesquisa verificou que, entre a população de tartarugas-verdes do norte da Grande Barreira de Corais, 99% das tartarugas que nasceram nos últimos vinte anos eram fêmeas.

Como a pesquisa foi feita

Os pesquisadores já suspeitavam que o número de fêmeas entre as tartarugas superasse o de machos, pois houve aumento na temperatura do ar e dos oceanos. Porém, não é tão fácil determinar se uma tartaruga jovem é macho ou fêmea somente olhando para ela. A diferença mais marcante, o tamanho do rabo, só é perceptível na maturidade. Por isso, a nova pesquisa usou diferentes métodos, incluindo amostras de sangue e análise genética, para descobrir o sexo de 411 animais. Ao determinar também a idade das tartarugas, foi possível observar que o padrão nos nascimentos mudou nos últimos 20 anos.

 

Nas praias do norte da Grande Barreira de Corais, 99% das tartarugas mais novas eram fêmeas. Entre as mais velhas, esse percentual era de 87%. No sul, mais frio, a proporção de fêmeas também era mais alta, mas havia um equilíbrio maior (entre 64% e 69% eram fêmeas, dependendo da idade).

“Imediatamente dissemos: Meu Deus! Era muito pior do que pensávamos”, afirmou um dos autores do estudo, Camryn Allen, à revista National Geographic. “Isso é algo extremo, com letra maiúscula e ponto de exclamação. Estamos falando de um punhado de machos para centenas de fêmeas. Ficamos chocados.” 

Os pesquisadores também usaram estimativas de temperatura da água e do ar para calcular a temperatura da areia. Eles concluíram, que, nas praias do norte, a temperatura da areia ficava acima dos 29°C, na maior parte do tempo, desde o início da década de 1990. Por isso, relacionam o aumento no número de nascimento de fêmeas à mudança climática.

“Os resultados sugerem que o aumento na temperatura da areia afeta a proporção de sexos na população de forma que virtualmente nenhum macho está sendo produzido nesses ninhos.”

Texto do artigo

Com a previsão de que a temperatura global aumente 2,6°C até 2100, os pesquisadores afirmam que há risco para as espécies. No norte da Grande Barreira de Corais, é possível que toda a população se torne feminina.

Por que o resultado é importante

A pesquisa mostra que, nos últimos 20 anos, quase todas as tartarugas que nasceram no norte da Grande Barreira de Corais australianas eram fêmeas. A área é um dos locais de reprodução mais importantes para as tartarugas-verdes no mundo, onde cerca de 200 mil delas vão para a desova.

Os pesquisadores dizem, no artigo, que a maioria das tartarugas se reproduz durante a parte mais quente do ano, o que pode sinalizar que houve, no passado, uma adaptação para produzir um pouco mais de fêmeas e aumentar a capacidade de reprodução da espécie (já que um macho pode se reproduzir com mais de uma fêmea). O texto diz que espécies cujo sexo é determinado pela temperatura da areia existem há milhões de anos e conseguiram lidar com mudanças climáticas, mas que essa adaptação é lenta.

“Com a previsão de que a temperatura aumente vários graus em apenas algumas gerações de tartarugas, muitas populações de tartarugas-marinhas, como as do norte do Grande Recife de Corais, terão pouco espaço para se adaptar a uma mudança climática rápida”, escrevem.

Os pesquisadores afirmam que, entre outras medidas, é importante agora tentar encontrar formas de diminuir as temperaturas nos locais onde as tartarugas colocam seus ninhos, para “evitar um colapso – ou até extinção – da população”.

A situação no Brasil

No Brasil, também há pesquisas tentando entender os efeitos da mudança climáticas na determinação do sexo das tartarugas marinhas. Neca Marcovaldi, coordenadora de conservação e pesquisa do projeto Tamar, disse que ainda não há evidências de que, no Brasil, o aumento da temperatura esteja alterando o sexo das tartarugas. “Não quer dizer que o que acontece na Austrália esteja acontecendo aqui”, disse ao Nexo.

Sabe-se que, nas praias do Nordeste, mais quentes, nascem mais tartarugas fêmeas. Na Bahia, por exemplo, 96% dos filhotes da espécie tartaruga-de-pente são fêmeas. Nas praias mais frias do Rio de Janeiro e Espírito Santo, a proporção entre os sexos é mais equilibrada.

O fato de ainda não terem sido detectadas alterações não significa que a mudança climática não seja uma preocupação. Neca afirma que, em outros momento de extremos climáticos - as tartarugas marinhas estão no planeta desde a época dos dinossauros - a ocupação das praias era diferente. Hoje, se elas precisarem desovar em praias mais frias para se adaptar à mudança climática, podem encontrar locais ocupados e, por isso, inadequados para a desova.

Além disso, afirma, não é só a mudança da temperatura da areia que preocupa. Uma alteração na temperatura da água pode causar, por exemplo, alteração no regime de correntes, o que afetaria as tartarugas marinhas. Pode haver, ainda, modificação nas condições das áreas de alimentação dos animais, entre outras consequências. “Temos que observar várias influências da mudança climática para tentar minimizar as consequências por meio do manejo. Em terra esse processo é mais controlado, mas as tartarugas passam 95% de seu tempo de vida no mar, onde não temos acesso”, conclui Neca.

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