Ir direto ao conteúdo

‘J'accuse’: o que há por trás da manchete mais famosa da história

Carta aberta do escritor Émile Zola tentava sensibilizar governo francês para erros e injustiça das acusações contra o capitão do exército Alfred Dreyfus

No início de 1895, o capitão Alfred Dreyfus, acusado de trair a pátria ao vender segredos do exército francês para os alemães, foi oficialmente destituído de sua patente por crime de traição à pátria. Sua insígnia e botões foram arrancados do uniforme, sua espada quebrada diante de um pelotão na Escola Militar. Pouco tempo depois, o ex-militar embarcava em um navio rumo à inóspita colônia penal da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa.

O caso figura como um dos episódios mais infames da história francesa. Dreyfus era judeu e sua condenação tinha um forte elemento de preconceito, por parte dos oficiais que o acusaram, mas também da imprensa sensacionalista que apoiou as denúncias sem questioná-las e de uma população enraivecida que chegou a entoar coros de “morte aos judeus” e promoveu distúrbios em cerca de 20 cidades do país.

Foi também pela imprensa que começou o combate à campanha difamatória. Tendo o escritor Émile Zola como um de seus líderes, o questionamento do processo uniu acadêmicos, escritores e artistas pela inocência de Dreyfus. A campanha culminou com a carta escrita por Zola para o então presidente da república Felix Faure, publicada em 13 de janeiro de 1898 com o título: “J’accuse” (eu acuso).

Com circulação costumeira de 30 mil cópias, foram rodados 300 mil exemplares do L’Aurore no dia do “J’accuse”

Jornalistas e escritores anti-Dreyfus apelidaram, com intenção pejorativa, os que defendiam o militar como “intelectuais”, no primeiro uso conhecido do termo. A aliança “anti-Dreyfus” incluía conservadores, monarquistas, religiosos, nacionalistas e antissemitas, com o apoio escancarado inicial dos tabloides populares, mas que depois se estenderia a grande parte da imprensa.

Em 1899, diante do acúmulo de novas provas, um novo julgamento foi realizado. Dreyfus foi novamente considerado culpado. Entretanto, a sentença foi comutada devido a circunstâncias atenuantes. Dreyfus acaba recebendo perdão presidencial, mas apenas em 1906 foi declarado inocente. Reabilitado, o oficial retornou ao Exército, participando como combatente na Primeira Guerra Mundial. Faleceu em 1935.

O que diz o artigo de Émile Zola

Inicialmente cético, o escritor se convenceu da inocência de Dreyfus graças às provas reunidas pelo irmão do militar, Mathieu Dreyfus, e sua esposa, Lucie. Zola escreveu três artigos no jornal Le Figaro defendendo o capitão, mas sua colaboração acabou cortada depois que a publicação começou a perder assinantes.

Para dar continuidade a sua missão, Zola investiu em panfletos de rua, uma mídia popular na época. O célebre texto de defesa teria aparecido inicialmente em um destes panfletos.

George Clemenceau, futuro primeiro-ministro da França, e na época redator-chefe do jornal L’Aurore, decidiu então publicar o artigo de Zola na primeira página. Valeu-se de um recurso gráfico incomum para a época: a manchete atravessou toda a parte de cima da página, tomando o espaço de seis colunas. Com circulação costumeira de 30 mil cópias, foram rodados 300 mil exemplares do L’Aurore no dia do “J’accuse”.

O artigo tem 4 mil palavras (quase 25 mil caracteres). Com tom enfático, Zola apela para que Faure aja em um caso “em que a vergonha está estampada no rosto da França, e a história registrará que foi sob a sua presidência que tamanho crime social foi cometido”.

No texto, o escritor descreve em detalhes as artimanhas de oficiais que tinham como objetivo incriminar Dreyfus, a negligência das instâncias superiores, erros judiciais e a falta de provas consistentes para condenar o militar.

Ao final, em uma sequência de parágrafos que se iniciam com a frase “J’accuse…” (eu acuso), o escritor coloca no banco dos réus oficiais de alta patente, especialistas em grafologia, o Ministério da Guerra e o Conselho da Guerra.

“Fazendo essas acusações, não ignoro me enquadrar nos artigos 30 e 31 da lei de imprensa de 29 de julho de 1881, que pune os delitos de difamação. E é voluntariamente que eu me exponho”, conclui Zola. Com o artigo, a maré da opinião pública começou a virar.

O escritor foi processado por difamação e condenado em fevereiro de 1898. Era parte do plano dos ativistas pró-Dreyfus, que queriam ver as evidências em favor do militar discutidas em instâncias judiciais. Zola fugiu para a Inglaterra, onde ficou até junho de 1899.

Desde então, o uso da frase “j'accuse” foi replicado em documentos, pronunciamentos e artigos ao longo do século 20, aparecendo em ocasiões que vão de julgamentos de criminosos de guerra nazistas a um livro que denuncia corrupção no governo da ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!