Ir direto ao conteúdo

Por que os Black Eyed Peas voltaram politizados e ativistas

Grupo estourou nos anos 2000 com temática leve e festeira; discurso e músicas novas miram injustiças sociais e racismo

    Temas
     

    No ano de 2009, os versos abaixo eram inescapáveis:

    I gotta feelin'/That tonight's gonna be a good night/That tonight's gonna be a good night/That tonight's gonna be a good good night
    (Eu tenho uma sensação de/Que hoje será uma boa noite/Que hoje será uma boa noite/Que hoje será uma boa boa noite) (em tradução livre)

    Oito anos depois, os autores do hit festeiro, o trio americano Black Eyed Peas, retornam com tudo diferente: estado de espírito, sonoridade e versos como “na minha vizinhança, os professores mal conseguem soletrar/Comparados a eles, agentes de prisão ganham bem”.

    Os versos estão em “Street livin’” (vivendo na rua, em tradução livre), que saiu como single e clipe em 8 de janeiro de 2018. A música é pontuada por um melancólico trompete, sampleado da música “Pouca duração”, d’Os Catedráticos, conjunto brasileiro de bossa nova e jazz instrumental da década de 1960 (entre seus membros estavam nomes como Eumir Deodato, Wilson das Neves e Luiz Marinho).

    A letra denuncia o racismo da polícia e do sistema judicial como instrumentos que perpetuam a desigualdade entre brancos e negros nos Estados Unidos. “Como vamos sair desta armadilha?”, pergunta a música, quase no final.

    O clipe da faixa termina com as frases “take action now” (entre em ação agora, em tradução livre) e “stay woke” (permaneça acordado, em tradução livre). No contexto do ativismo afro-americano, tem o sentido de ficar alerta com relação às questões sociais e raciais. Sua utilização se disseminou na esteira do movimento Black Lives Matter, campanha contra a violência dirigida aos negros.

    O retorno dos Black Eyed Peas havia começado em meados do ano passado, com a história em quadrinhos “Masters of the sun: the zombie chronicles”, lançada pela Marvel. A publicação foi feita para ser lida com aplicativo de realidade aumentada no celular. Uma versão em filme de realidade virtual da história será lançada no festival de cinema Sundance este ano. Com referências aos primórdios do hip hop, o projeto traz rappers pioneiros, como Rakim, Queen Latifah e KRS-One, fazendo as vozes dos personagens.

    Outra era, outros temas

    Quando “I gotta feeling” saiu, no fim da primeira década do século, Barack Obama, primeiro negro a ser eleito presidente dos Estados Unidos, iniciava seu primeiro mandato.

    Em uma entrevista de 2009, o vocalista e líder do Black Eyed Peas, will.i.am, explicava que seu álbum “The E.N.D.”, que continha “I gotta feeling” e outros hits como “Boom boom pow”, fazia referência “ao fim da ideia de que a América nunca vai evoluir em relação a seus preconceitos”. “Estamos celebrando uma nova era”, resumiu.

     

    Nessa época, o grupo enxergava o otimismo e diversão como estratégias para combater os problemas. Em entrevista de 2009 para a revista Marie Claire, will.i.am explicou que “os tempos são muito difíceis para muita gente, então você quer dar escape a elas e fazer com que se sintam bem com relação à vida”.

    O novo lançamento adapta a temática do grupo para tempos em que tópicos como racismo, desigualdade e violência policial estão em evidência no debate público, e o presidente em exercício, Donald Trump, chama países africanos de “buracos de merda” e recebe apoio de grupos supremacistas brancos.

    “Atletas têm se posicionado mais que músicos”, declarou will.i.am ao jornal Los Angeles Times, em janeiro de 2018. “Precisamos começar a nos posicionar também.” A nova música foi apresentada num evento em uma galeria de Los Angeles chamada Into Action, onde congregaram, segundo o LA Times, “ativistas de tendência esquerdista” e palestrantes como o ex-conselheiro ambiental do governo Obama, Van Jones.

    Já preparado para as acusações de oportunismo, will.i.am lembrou ao jornal que o grupo não chegou agora na militância. “Nosso primeiro grande hit foi ‘Where is the love?’, em que falamos sobre as coisas reais. Da brutalidade do nosso sistema educacional à reforma do sistema prisional, estivemos atuando na comunidade”, explicou ao jornal de Los Angeles.

     

    Outro membro do grupo, o rapper Taboo, lembrou que membros do grupo se engajaram em batalhas pessoais e sociais nos anos em que ficaram afastados dos holofotes. “Desde eu vencer o câncer e ir para Standing Rock [reserva indígena que lutou contra um oleoduto em 2017] até o trabalho do Ap nas Filipinas”, declarou. Ele se referia ao trabalho social que apl.de.ap, outro integrante do Black Eyed Peas, realizou no país asiático onde nasceu.

    Música e ativismo

    Na época de “I gotta feeling”, single produzido pelo DJ francês David Guetta, as paradas de sucesso dos Estados Unidos estavam dominadas por hits de pop eletrônico, muitos deles interpretados por artistas de rap e R&B reinventados, como Snoop Dogg, Rihanna, Usher e Kelly Rowland (ex-integrante do grupo Destiny’s Child, de onde também saiu Beyoncé).

    Em anos recentes, a sonoridade e a temática hedonista caíram em desuso, ao mesmo tempo em que muitos artistas negros vêm assumindo discursos críticos e politizados. Em 2016, Beyoncé se apresentou no intervalo do Superbowl com o single “Formation”, em que exaltava o orgulho negro e criticava a violência policial contra jovens negros nos EUA. No Grammy do mesmo ano, a apresentação do rapper Kendrick Lamar chamou a atenção para o alto índice de encarceramento de negros nos EUA.

    Em maio, a revista Atlantic escreveu que os primeiros 100 dias da gestão Trump haviam presenciado um “boom em música politizada” nos Estados Unidos. Entre os vários exemplos de canções de protesto à nova administração, são citados trabalhos de artistas de hip hop como A Tribe Called Quest, Run the Jewels e YG & Nipsey Hussle, com a explícita “FDT (Fuck Donald Trump)” (com mais de 18,6 milhões de visualizações no YouTube, em janeiro de 2018).

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!