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Por que a China é chamada de ‘lixeira do mundo’. E como ela pretende mudar isso

País asiático responsável pela compra de grande parte de resíduos passíveis de reciclagem do mundo passou a impôr limites à prática

Foto: Stringer/Reuters
Chinesa trabalha em centro de reciclagem na cidade de Huaibei
Chinesa trabalha em centro de reciclagem na cidade de Huaibei

Desde o início de 2018, uma regra imposta pela China quanto ao envio de lixo reciclável ao país passou a valer. Apontando a necessidade de proteger o meio ambiente em seu território, além da saúde da sua população, o gigante asiático passou a proibir a entrada no país de 24 tipos de resíduos sólidos de materiais recicláveis, de plástico a ferro, apontados como “sujos” ou “até perigosos”.

A medida anunciada em julho à OMC (Organização Mundial do Comércio) visava livrar o país asiático do, como eles chamam, “lixo estrangeiro”.

Desde os anos 1980, a China é referência entre os demais países do globo quando estes precisam dar uma solução de descarte para todo o lixo reciclável e eletrônico produzido ou importado. A fama – que rendeu à China a alcunha de “lixeira do mundo” –, desde então, só cresceu e permitiu ao país usar o material reciclado para alimentar sua própria indústria ou melhorar a balança comercial, exportando a matéria-prima.

Dados de 2014 da Iswa (Associação Internacional de Resíduos Sólidos) colocavam a China como a maior importadora individual de plástico para reciclagem, respondendo por 56% desse mercado. Em 2016, a China comprou US$ 18 bilhões em resíduos sólidos de outros países do mundo.

Mas receber boa parte do lixo do mundo, separá-lo – identificando o que dele é realmente aproveitável – e transformá-lo, de novo, em matéria-prima para a produção de novos itens de consumo, é menos glamuroso do que parece. Apesar de ser um negócio bilionário, o governo chinês parece ter entendido que seus danosos “efeitos colaterais” não valem o esforço.

Isso porque o processo ao qual o material é submetido muitas vezes é manual – sobretudo o de triagem – e feito sob situações precárias, afetando tanto a vida e a saúde de milhares de chineses que tiram sua renda do lixo, quanto a do meio ambiente local, como rios e pastos. O premiado documentário “Plastic China”, de 2016, retratou parte dos problemas sociais, ambientais e de saúde pública que a reciclagem, especificamente a de plástico, engloba. 

‘Basta’ chinês

Segundo o jornal The New York Times, a luta regulatória chinesa contra o “lixo estrangeiro” vem desde 2013, quando portos na China e em Hong Kong passaram a inspecionar navios carregados de resíduo para reciclagem e exigir condições mínimas de limpeza e triagem prévia.

Com às barreiras impostas, especialistas indicam que países que costumavam depender da China para dar destino aos resíduos produzidos por eles podem tanto passar a investir em infraestrutura adequada para receber o material descartado ou apenas procurar novos países – como Tailândia, Camboja, Vietnã, Malásia, Índia e Paquistão – para continuarem dando vazão ao problema.

Foto: Tyrone Siu/Reuters
Jovem busca itens aproveitáveis de pilha de lixo eletrônico na cidade de Guiyu, em 2015
Jovem busca itens aproveitáveis de pilha de lixo eletrônico na cidade de Guiyu, em 2015

E esses novos “depósitos” de lixo já estão dando as caras. Em outubro passado, o jornalista Adam Minter – autor do livro-reportagem “Junkyard Planet” (2013) sobre a indústria chinesa de reciclagem – descreveu em sua coluna na Bloomberg os efeitos da medida no Japão, um dos maiores dependentes da exportação de resíduos para a China. “Com o apoio governamental de longo prazo à pesquisa, algumas das maiores empresas do Japão estão se mexendo para implantar tecnologias no país e no exterior que substituirão alguns dos sistemas poluentes e de baixo custo de reciclagem usados há tempos pela China”, diz.

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