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Qual o impacto das fake news sobre o eleitor dos EUA, segundo este estudo

Três cientistas políticos pesquisaram os hábitos de leitura de 2.525 americanos durante a campanha que deu vitória a Donald Trump

     

    Donald Trump foi eleito presidente dos EUA em novembro de 2016. Catorze meses depois, a campanha que deu a vitória ao republicano ainda é motivo de estudos e pesquisas, mais precisamente sobre as suspeitas de que fake news (notícias falsas) influenciaram o debate em favor de Trump durante a disputa norte-americana.

    Para três cientistas políticos dos EUA, a resposta a essas suspeitas é  que notícias falsas de fato ocuparam algum espaço no debate eleitoral, mas não há evidências de que tiveram impacto a ponto de interferir no voto do eleitor, beneficiando Trump ou prejudicando a adversária Hillary Clinton.

    Brendan Nyhan (Dartmouth College), Andrew Guess (Princeton University) e Jason Reifler (University of Exeter) observaram os hábitos de consumo de notícias de milhares de eleitores, cuja análise resultou no artigo “Exposição seletiva à desinformação: evidência do consumo de notícias falsas durante a campanha presidencial de 2016 nos EUA” (em tradução livre), publicado em janeiro de 2018.

    Os autores partiram da premissa de que o potencial de disseminação e alcance das fake news é grande, mas que pouco se sabe sobre seu  real consumo e influência.

    Análises desse tipo ganham importância em contextos eleitorais. No Brasil, a Justiça Eleitoral vem estudando formas de combater as fake news na campanha que se aproxima. A Polícia Federal também participará das iniciativas.

    Acadêmicos e advogados das áreas de tecnologia e do direito eleitoral alertam para os riscos de, sob o pretexto de combater notícias falsas,  a livre circulação de ideias e a liberdade de expressão sejam prejudicadas. Há ainda o risco do uso político desse tipo de controle ou mediação por parte de candidatos que se sentirem prejudicados pela divulgação de informações incômodas, mas não necessariamente falsas.

    Navegação como base para pesquisa

    Os pesquisadores usaram uma ferramenta para registrar os sites visitados por eleitores americanos entre 7 de outubro e 14 de novembro de 2016 (durante a campanha e uma semana depois da votação), o tempo de permanência nas páginas e como essas pessoas chegavam a sites que publicavam notícias falsas.

    A equipe considerou como fonte de fake news sites que publicaram ao menos duas histórias comprovadamente falsas. Os autores usaram como fundamento um estudo dos economistas Matthew Gentzkow (Stanford University) and Hunt Allcott (New York University), que catalogaram notícias identificadas como falsas por sites de checagem de fatos e dados (fact-checking), nos três meses anteriores à eleição presidencial.

    A pesquisa

    Histórico de navegação

    Eles analisaram os dados de tráfego da web de 2.525 americanos acima de 18 anos, que autorizaram ter sua navegação monitorada, de forma anônima. A margem de erro dos resultados é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. Além do acompanhamento da navegação, os pesquisadores submeteram os eleitores a um questionário para identificar sua preferência eleitoral.

    Amostragem

    Segundo o artigo, foram selecionados eleitores que formassem um perfil capaz de retratar a população dos EUA. Os estudiosos também procuraram identificar três comportamentos: a inclinação ideológica dos conteúdos consumidos (do mais liberal ao mais conservador); a leitura de portais de notícia e as práticas em relação ao Facebook (analisando a frequência com que visitavam a rede social).

    Alta disseminação e o perfil do leitor de fake news

    A partir dos resultados, os cientistas políticos observaram que um número considerável de eleitores, 27%, leu pelo menos uma notícia falsa no período analisado. Nesse universo, os pesquisadores identificaram que os usuários simpatizantes de Trump eram mais propensos a visitar sites identificados como disseminadores de fake news.

    Os pesquisadores afirmam ainda que leitores de notícias falsas têm bom conhecimento de assuntos relacionados à política. Portanto, afirmam os autores, é impreciso associar o consumo desse tipo de informação a uma suposta ignorância sobre política.

    O que é possível afirmar é que as fake news têm mais aderência entre eleitores com posicionamento políticos mais extremados.

    “Realizamos uma divisão entre os eleitores com base em pontuações em uma escala (...), que mede a capacidade de responder corretamente a oito questões sobre política, eleições e instituições (por exemplo, a duração do mandato para senador dos EUA?)(...) O consumo de notícias falsas não diminui entre os apoiantes de Clinton ou Trump que são mais informados sobre política”

    Brendan Nyhan, Andrew Guess e Jason Reifler

    cientistas políticos, autores do artigo “Selective Exposure to Misinformation”

    O que o estudo identificou

    Consumo

    A maioria das visitas a sites de fake news (65%) vinha de um mesmo grupo, composto por 10% dos eleitores identificados como mais conservadores – de acordo com o resultado da pré-entrevista com perguntas sobre sua inclinação ideológica.

    65 milhões

    número estimado de eleitores dos EUA (equivalente a 27% do eleitorado) que leram ao menos um texto em sites de fake news durante a campanha eleitoral de 2016

    Representatividade

    Na análise geral dos hábitos de leitura, as notícias falsas representaram 2,6% de todos os textos lidos em sites noticiosos (incluindo os veículos tradicionais). De acordo com os dados coletados, a maioria dos textos era “esmagadoramente pró-Trump”, diz o artigo. Entre as cerca de 5,45 fake news lidas, em média, durante o período analisado, 5 foram catalogadas como favoráveis ao republicano.

    Comportamento dos apoiadores

    Os eleitores pró-Trump eram três vezes mais propensos a visitar sites de fake news (em especial páginas simpatizantes ao então candidato) do que aqueles que se declaravam pró-Hillary. Eleitores acima de 60 anos de idade também eram mais inclinados a visitar esse tipo de página.

    Complemento

    Eleitores que tiveram contato com notícias falsas são também consumidores de notícias on-line em geral. Mas entre os sites de fake news, a preferência era por páginas que favoreciam o candidato apoiado. Esse hábito, segundo os autores, indica que em alguns casos o consumo de fake news seja um complemento, e não um substituto, às demais notícias.

    Redes sociais

    O estudo apontou uma relação direta entre o uso de Facebook e as visitas a sites de fake news. Os eleitores foram categorizados de acordo com seu perfil de uso da rede social (baixo, médio e alto). O acesso àqueles sites foram mais numerosos entre eleitores que tinham atividade mais intensa no Facebook. O hábito era mais frequente entre os apoiadores de Trump (62,4%) do que entre os simpatizantes de Hillary (28,2%).

    Reação às fake news

    A pesquisa indicou ainda que 25,3% da pessoas do grupo estudado leram ao menos um texto elaborado por sites de checagem, dedicados a verificar a veracidade das informações publicadas por sites noticiosos. Entre os consumidores mais assíduos de fake news, 48% disseram-se “muito” ou “um pouco favorável” a esse tipo de jornalismo. A aprovação foi menor (24%) entre os apoiadores de Trump. Para os autores, esses números sugerem que o consumo de checagens acaba concentrado justamente entre os leitores que não leem fake news.

    “Mais importante ainda é que nenhum dos entrevistados que leu um ou mais artigos de notícias falsas [e identificadas como falsas por checadores] viu a checagem que desacreditava aquela informação”

    trecho do artigo “Selective Exposure to Misinformation”

    Resultado não anula atenção às fake news

    No decorrer da pesquisa, os autores não identificaram se os eleitores que liam fake news acreditavam ou não nos conteúdos nem qual os efeitos do contato com essas informações sobre as crenças com relação aos candidatos.

    Os pesquisadores concluíram que somente uma pequena parcela dos eleitores (10%) foram de fato mais expostos às fake news, o que não permite afirmar que elas influenciaram de forma efetiva o resultado das eleições americanas.

    Por outro lado, os autores lembram que não se pode desconsiderar o potencial de disseminação dessas notícias e os danos que elas podem causar à qualidade do debate político. Alguns resultados servem de alerta: (1.) o fato de o consumo de fake news ser mais disseminado entre usuários assíduos de redes sociais e (2.) de ser maior entre os eleitores de posicionamentos mais extremos.

    Os dois pontos enfatizam  o perigo da exposição seletiva a informações erradas. Nesse sentido, reforçam a urgência do debate sobre características inerentes às redes sociais, as “bolhas” (em que os usuários ficam mais sujeitos a ter contato só com aquilo que querem/concordam) e as “câmaras de eco” (efeito provocado pela repetição massiva, induzindo a aceitação de uma informação ainda que seja incorreta).

    “Esses pequenos grupos [de leitores de fake news] podem, assim, impulsionar alegações fabricadas de suas ‘câmaras de eco’ para uma visibilidade generalizada, potencialmente intensificando a polarização e o efeito negativo para candidatos opostos”

    trecho do artigo “Selective Exposure to Misinformation”

    Algumas ponderações ao artigo

    A pesquisa realizada por Nyhan, Guess e Reifler tem como diferencial em relação a outros estudos sobre fake news a análise do comportamento em tempo real de uma parte do eleitorado. Ainda assim, a metodologia deixou de lado outros hábitos de leitura que poderiam ser importantes para medir a influência real desse tipo de notícias.

    Os próprios autores do estudo ponderam que a pesquisa examinou somente o consumo de fake news a partir da visita aos sites por meio de notebooks ou desktops. Não foram verificados, portanto, o consumo dessas notícias por meio de smartphones, por exemplo, nem diretamente nas redes sociais. Circunstâncias que, sugerem os próprios pesquisadores, merecem ser temas de estudos futuros.

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