O que é o centro. E quem ocupa esse espaço na política brasileira

‘Nexo’ perguntou a dois cientistas políticos a definição formal e a aplicação real do termo no contexto das eleições presidenciais de 2018

     

    Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PSC-RJ) lideram as intenções de voto para as eleições presidenciais de outubro de 2018 no Brasil. O debate eleitoral, porém, não está focado em nenhum dos dois. Imprensa, políticos e acadêmicos se perguntam quem será a “alternativa de centro”.

    “O meu temor é que não se consiga organizar o centro”, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornal O Estado de S. Paulo, em 2 de janeiro de 2018. “Há o perigo de um demagogo” vencer, afirmou o tucano. “Mas acredito que dá tempo de organizar o centro.”

    Dois meses antes, em novembro de 2017, a revista Veja havia estampado a seguinte frase na capa: “Com Lula e Bolsonaro liderando as pesquisas, ganha fôlego a busca por nomes de centro”. Entre as fotos de Lula e de Bolsonaro, aparecia o desenho de um contorno de uma silhueta pontilhada, em referência ao desconhecido “candidato de centro”. Passados dois meses, na edição de janeiro de 2018, a publicação voltou ao assunto, assim: “A nove meses das eleições presidenciais, o centro continua à procura de um candidato”.

    Alguns nomes são associados com maior frequência a esse setor: o do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (cogitado por Fernando Henrique e por partidos governistas), o do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) (“Se estou sendo cogitado como uma alternativa, é porque há uma avenida aberta", disse o próprio Maia), o do apresentador da Globo Luciano Huck (sobre quem o presidente nacional do PPS, Roberto Freire, já disse estar “de portas abertas”, por exemplo) e o do atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (que se filiou ao PSD e vem participando, por exemplo, de encontros com evangélicos) – todos eles com desempenho fraco nas pesquisas de intenção de voto.

    Para entender o que é exatamente o centro, do ponto de vista da teoria política, e como essa definição se aplica hoje ao cenário brasileiro, o Nexo fez três perguntas a dois especialistas com opiniões diferentes:

    Existe uma definição teórica do que seja ‘o centro’ na ciência política?

    José Álvaro Moisés Não existe uma definição estritamente teórica. Mas existe uma definição intuitiva. Por exemplo, Norberto Bobbio, filósofo político italiano, definiu esquerda e direita, sendo a esquerda um segmento voltado para a igualdade social, econômica e política; e a direita, como os que estão em grande parte preocupados com a segurança, mas, muitas vezes, com a manutenção do status quo também. Em relação a essas duas referências, o centro seria constituído por aquelas forças políticas moderadas, capazes de incorporar num certo nível uma preocupação com a igualdade, que é típica da esquerda, como políticas de distribuição de renda, com a importância da educação, e, ao mesmo tempo, preservar uma preocupação que é mais das forças conservadoras de direita, que é assegurar as condições de liberdade.

    A direita pensa a liberdade em termos de segurança, às vezes até de maneira autoritária e repressiva. A ideia é que o centro é capaz de assegurar as condições de segurança sem adotar mecanismos de repressão. Portanto, valorizando as instituições que são responsáveis pela segurança pública, como é o caso da polícia, e fortalecendo serviços de inteligência etc, para assegurar a segurança dos cidadãos sem entretanto recorrer a mecanismos de repressão. Então, de alguma maneira, o centro se define em referência a essas duas posições que são consideradas mais extremas, à esquerda e à direita.

    Pedro Fassoni Não existe consenso entre os cientistas políticos a respeito disso. Há, no entanto, dados, como os do Norberto Bobbio, sobre esquerda e direita, mas não uma definição muito clara em relação ao que seja o centro. A direita está mais identificada com as forças do mercado, com a ideia do Estado mínimo, da privatização de empresas, da desregulamentação do mercado de trabalho; enquanto a esquerda defende programas sociais, políticas distributivas, tributação progressiva, medidas compensatórias. Então o centro ficaria entre esses dois extremos, concordando com os aspectos de uma tendência e de outra.

    Mas, mesmo em relação à esquerda e à direita, existem muitas subdivisões, como centro-esquerda, esquerda tradicional e a extrema esquerda; e assim também à direita. Na Grã-Bretanha, por exemplo, o centro é representado pelo Partido Liberal, mas isso é totalmente diferente de alguns setores do PMDB aqui no Brasil. Ou então podemos ver o caso do Partido Democrata, nos EUA, que tem tendências de centro e de centro esquerda.

    Quem é de centro hoje no Brasil, na prática? Quais políticos, partidos e candidaturas? Isso mudou com o passar dos anos?

    José Álvaro Moisés Visivelmente, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), é um político de centro, da mesma maneira que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que agora começa a aparecer como um possível candidato à Presidência da República, também é um político de centro. Não são estritamente de direita. E nenhum dos dois é evidentemente de esquerda. São políticos que tendem à uma perspectiva de cooperação política e de uma certa moderação.

    A grande questão que está colocada para os políticos de centro é se, além da posição de moderação e, num certo sentido, de equilíbrio nas funções do Estado – sem muita intervenção, mas também sem ausência do Estado – eles serão capazes de dialogar com um enorme número de pessoas na sociedade brasileira que anda descrente e desconfiada em relação às instituições. Isso vai exigir que eles sejam capazes de trabalhar o imaginário de uma parte significativa da sociedade que está rejeitando a política. A pergunta é, portanto: o centro será capaz de mostrar que pode abrir a possibilidade de maior participação da sociedade, de maneira que ela possa redefinir a confiança nos políticos? Isso ainda não está claro. Não sei se os nomes que eu mencionei são capazes de resolver.

    Pedro Fassoni É preciso levar em consideração que nesse momento de polarização política, ideológica e partidária, o centro está cada vez menor no Brasil. Muitas tendências e partidos políticos que ocupavam o centro deram uma guinada à direita.

    É esse o caso, por exemplo, do PSDB, que surgiu como uma dissidência do PMDB ainda nos trabalhos da Constituinte de 1988, como um partido que se reivindicava social-democrata, mas que, aos poucos, foi se aliando com partidos mais de direita e adotando políticas que contrariavam seu estatuto. Então foi um partido que deu uma guinada, assim como o próprio PMDB. De forma geral, muitas pessoas que lutaram contra a ditadura militar acabaram apoiando mais recentemente o governo do presidente Michel Temer e o impeachment da [ex-presidente] Dilma [Rousseff], que eu caracterizo como um golpe parlamentar; acabaram rasgando a própria Constituição Federal. Mas é possível, sim, encontrar tendências de centro, como o Partido Liberal – não o atual, mas aquele representado pelo ex-presidente da República José Alencar [vice de Lula de 2003 a 2011], que representava uma tendência de centro.

    O Alckmin, por exemplo, é na verdade uma pessoa bem posicionada à direita. Ele tem a tendência privatista, de apoio ao grande capital, até mesmo em relação aos temas de direitos humanos, fechamento de escola para construir presídios, isso tudo tem pouco a ver com a esquerda tradicional, embora ele esteja ligado a um setor do PSDB que se diz “esquerda pra valer”. Agora, o Bolsonaro está na extrema direita. Ele defende abertamente a tortura, o golpe de 1964, chegou a falar do fechamento do Congresso, é um crítico feroz das organizações de direitos humanos. Ele é representante de uma direita autoritária e fascista, enquanto a direita representada pelo Alckmin se atém às regras do jogo, ainda que, nos aspectos sócio-econômicos, defenda políticas identificadas com as forças do mercado.

    Ao longo do tempo, vemos nas redes e nas ruas pessoas de direita e de esquerda se manifestando. Mas existem manifestações de pessoas de centro? Quem são elas?

    José Álvaro Moisés Minha convicção – que tem como base as pesquisas sobre cultura política, que eu tenho realizado no país – é de que as posições definidas como esquerda, direita e centro não são claras para o cidadão. As pessoas tendem a se referenciar em relação a figuras políticas e a partidos. Olham para o PT como um partido que tende a olhar para o social mais do que os outros partidos, por exemplo. Tendem a olhar para o PSDB como um partido que é mais sério, do ponto de vista do papel do Estado, de o Estado não intervir excessivamente, mas também de não estar ausente. Mas, se você perguntar ao entrevistado, ele não sabe bem o que é direita e esquerda. Quando você pergunta isso, aproximadamente 70% não sabe bem o que é isso. Só um terço, 30%, é capaz de dizer.

    Pedro Fassoni Não. É muito difícil encontrar alguém que se defina de centro. Há estudos, como os do professor André Singer, do Departamento de Ciência Política da USP, que mostram, por exemplo, que aproximadamente 20% da população se considera de centro. Esquerda e direita, somados, representam cerca de 60%. Isso é uma tendência histórica, dos últimos 25, 30 anos. O fato de as pessoas classificarem a si mesmas como de uma ou de outra tendência não significa que elas sejam.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão da entrevista com o professor Pedro Fassoni fazia referência a um estudo creditado por ele a André Filho. O correto é André Singer. A informação foi corrigida às 12h29 do dia 15 de janeiro de 2018.

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