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Como forças britânicas agem para recrutar mulheres, gays e muçulmanos

Campanha inova para atrair novos públicos para o serviço militar, mas desperta críticas de veteranos combatentes e de organizações civis

     

    As Forças Armadas do Reino Unido iniciaram o ano de 2018 com uma campanha de recrutamento que, pela primeira vez, fala diretamente com mulheres, gays e seguidores da religião islâmica. A intenção é aumentar a presença de pessoas com esses perfis no serviço militar do país.

    A estratégia de comunicação é agressiva, tanto na abrangência quanto na mensagem. Ela é composta de peças de perfil publicitário difundidas em rádios, TVs e principalmente na internet. As mensagens são diretas e prometem realização pessoal e profissional nas Forças Armadas, associando ao serviço militar características típicas de executivos de grandes empresas, como a liberdade de empreender, de liderar e de ser reconhecido “unicamente por seu desempenho”.

     

    Além disso, o material tenta mostrar a esses novos públicos que as Forças Armadas não são tão duras quanto parecem. Algumas das peças trazem perguntas retóricas, como: “E se eu me emocionar muito?” ou “Eu tenho de ser um super-herói?”

    R$ 6,9 milhões

    Foi o custo da campanha publicitária, convertido na moeda brasileira

    A imprensa britânica vem criticando o que vê como um oportunismo da campanha. Alguns militares da reserva também criticaram publicamente a novidade.

    O debate estabelecido no Reino Unido atualmente envolve uma coleção de críticas e de elogios que têm como base os seguintes argumentos:

    Polêmica militar

    Inclusão e diversidade

    O Exército britânico tem atualmente 78.407 militares. A meta é chegar a 2020 com 82 mil. Os defensores da campanha publicitária dizem que a melhor maneira de crescer é abrindo a instituição a novos públicos. “Nosso entorno já não é tão composto pelos homens jovens brancos, com idade entre 16 e 25 anos. Nossa sociedade mudou. Essa campanha é uma forma de reconhecer que nós não dispomos de um Exército tão numeroso quanto o necessário neste momento, que a demografia de nosso país mudou e que nós devemos atender a uma comunidade mais ampla”, disse Nick Carter, chefe das Forças britânicas.

    Oportunismo e ilusão

    Os críticos da campanha dizem que o apelo ao “politicamente correto” não passa de oportunismo. “É preciso pôr no Exército pessoas que queiram combater. As pessoas normalmente interessadas pelo Exército não estão preocupadas em saber se elas serão compreendidas ou se elas poderão expressar suas emoções. O que mais interessa a essas pessoas é a forma como elas vão enfrentar o combate, elas seriam atraídas pelas imagens de combate, pois essa é a razão pela qual elas se alistam nas Forças Armadas”, disse Richard Kemp, antigo comandante das tropas britânicas no Afeganistão.

    Desafios da modernização

    “Esse não é o tipo de material de recrutamento que as pessoas provavelmente esperariam do Exército britânico”, disse o jornalista especialista em cobertura de Defesa na BBC, Jonathan Beale. Para ele, a estratégia de “projetar uma imagem mais moderna” não pode se chocar com “o ‘ethos’ principal, que é do combate”.

    O debate também trouxe à tona outro fato delicado no Reino Unido: o recrutamento voluntário aos 16 anos. “É positivo que as Forças Armadas estejam pensando em como ser mais inclusivas e em como mostrar a seus soldados que a saúde emocional é uma prioridade. Porém, nossas pesquisas demonstram que recrutas jovens têm maior risco de sofrer de stress pós-traumático e de cometer suicídio”, disse ao jornal The Guardian a representante da organização Medact Reem Abu-Hayyeh, que trabalha com saúde pública no Reino Unido.

     

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