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Quem foi Mary Shelley. E cinco obras da criadora de ‘Frankenstein’

Autora escreveu o romance quando ainda era adolescente, desafiada pelo poeta Lord Byron. Este mês, a história completa 200 anos

     

    Foi depois de um encontro com o marido, Percy Shelley, e o poeta Lord Byron, em 1816, que a britânica Mary Shelley começou a dar forma ao romance gótico “Frankenstein, ou O Prometeu Moderno”. Na época com 18 anos, Mary fazia parte do grupo desafiado por Byron a escrever narrativas sobre fantasmas, durante uma viagem à Suíça.

    Quase dois anos depois, a provocação resultou no livro sobre o cientista Victor Frankenstein e sua estranha criatura, ainda publicado sob autoria anônima. Foi só na segunda edição, de 1823, que Mary Shelley assinou seu primeiro romance.

    Em 2018, o mundo celebra o bicentenário de uma das obras precursoras da ficção científica. No Reino Unido, moedas de £ 2 ganharam uma edição especial para a data.

    São 200 anos de incontáveis edições e releituras, e no mínimo mais uma adaptação deve chegar em breve: em 2017, mais de um século depois da primeira versão cinematográfica – que é de 1910, quando o protagonista ainda nem tinha seus característicos parafusos no corpo e a pele esverdeada –, a Universal anunciou nova produção inspirada em “Frankenstein”, ainda sem data de lançamento.

    Apesar do impacto que teria no mundo todo, a história do Prometeu moderno não teve uma recepção amigável no início. O livro recebeu duras críticas à época do lançamento, inclusive pelo fato de ter sido escrito por uma mulher.

    Romancista, dramaturga, editora

    “Frankenstein” foi o primeiro trabalho da inglesa, que depois seguiu uma carreira extensa como romancista. Também escreveu biografias, peças de teatro, relatos de viagem e trabalhou na primeira edição póstuma de poemas de seu marido, Percy Shelley.

    A romancista teve uma trajetória atravessada por muitas passagens trágicas e períodos de reclusão, que ressoam em sua obra. Segundo a acadêmica e crítica literária Anne Barton, as ficções de Mary Shelley após “Frankenstein” tem uma natureza bastante autorreflexiva. São frequentes temas como suicídio, morte e má relação entre familiares, questões enfrentadas pela autora na vida pessoal.

    Mary Shelley nasceu em Londres, em 1797, em uma família inglesa atípica. Sua mãe, a filósofa Mary Wollstonecraft, é autora da obra “Reivindicação dos Direitos da Mulher”, em que denuncia as restrições impostas a meninas no acesso à educação formal. O livro é reconhecido como um dos documentos que serviram de base para o desenvolvimento do movimento feminista.

    Mary não conviveu com a mãe, que morreu dias depois de seu nascimento, e foi criada pelo pai, o filósofo político William Godwin. A autora não chegou a frequentar a escola, mas cresceu em um ambiente extremamente intelectualizado, por onde circulavam figuras como os escritores Henry Hazlitt, Charles Lamb e Samuel Coleridge.

    Sua relação com o marido, o poeta Percy Shelley, também foi marcada por luto e tragédia. Eles se casaram em 1816, após o suicídio da primeira esposa do autor. Mary Shelley sofreu abortos durante o casamento, e um dos filhos do casal morreu quando ainda era um bebê.

    Percy Shelley morreu aos 29 anos, vítima de um naufrágio, quando os dois moravam na Itália, em 1822.

    Depois de perder o marido, a escritora voltou para a Inglaterra para dedicar-se à literatura, e passou por diversos períodos isolamento até a morte, em 1851.

    5 obras depois de ‘Frankenstein’

    ‘Mathilda’, 1959

     

    É o primeiro romance escrito por Mary Shelley depois de seu grande sucesso, mas só foi publicado postumamente, mais de 100 anos depois. Em 1820, Shelley enviou da Itália o manuscrito ao pai, o escritor William Godwin, que engavetou a obra em função da temática, um amor incestuoso.

    No enredo, a mãe da protagonista morre no parto, e a criança cresce afastada do pai. Em um reencontro, 16 anos depois, ele se apaixona pela filha ao reconhecer nela traços da esposa.

    ‘The Last Man’, 1826

     

    Um dos trabalhos mais conhecidos de Mary Shelley, o livro é uma ficção distópica que vislumbra o século 21. A autora retrata os últimos momentos da história da humanidade, fortemente ameaçada por uma praga. Aos poucos, o mundo vai sendo destruído e poucas pessoas sobram. Entre elas, os personagens Lorde Raymond e Conde Adrian, que têm características muito similares às dos poetas Lorde Byron e Percy Shelley.

    ‘Valperga’, 1823

     

    Publicado no mesmo ano da segunda edição de “Frankenstein”, o romance histórico é ambientado na Itália do século 15. O protagonista da ficção é  o príncipe de Luca Castruccio Castracani, que comandou o exército Gibelino na batalha contra os Guelfos, na Itália.

    Uma das inspirações da autora foi o inglês Walter Scott, figura expoente do romance histórico. Segundo o jornal The Guardian, Mary Shelley lia uma de suas obras durante a criação de “Valperga”.

    ‘Lodore’, 1835

    Diferentemente do que acontece na maioria de seus romances, em “Lodore”, a escritora se debruça sobre o universo de três mulheres.

    No livro, o patriarca Lord Lodore morre após um duelo e deixa para os parentes pendências familiares. Shelley explora a complexidade da filha de Lodore, Ethel, criada para ser submissa aos pais, da viúva, Cornelia, uma mulher preocupada com as aparências da sociedade aristocrática, e de Fanny Derham, cuja personalidade forte faz contraponto às outras duas.

    Segundo a crítica literária e biógrafa da autora, Miranda Seymour, a figura de Fanny Derham torna evidente no romance a vontade de Shelley de dar importância a uma trajetória bem sucedida de mulheres oprimidas. Seymour também aponta Lord Lodore como um retrato de Byron, e a relação intensa entre a personagem Ethel e seu pai como um reflexo de Shelley e William Godwin.

    ‘Falkner’, 1837

     

     

    É a última novela publicada pela escritora. Assim como em “Lodore”, o livro explora o universo familiar, numa dimensão mais política do que as ficções anteriores. “Falkner” fala sobretudo das dificuldades de uma relação entre pai e filha. O enredo se desenvolve depois que o personagem Rupert Falkner impede uma criança órfã de cometer suicídio e decide adotá-la.

     

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