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Qual o plano da Kodak para lucrar usando blockchain e defendendo copyright

Empresa que teve seu auge na era de ouro da fotografia analógica agora associa marca a moeda virtual e tecnologia blockchain

    A Kodak, empresa que marcou os anos de ouro da fotografia pré-digital, vem buscando novas formas de se manter de pé desde que se recuperou de um estado de falência em 2013. Para isso, adotou a estratégia de licenciar sua marca para empresas que queiram vender seus produtos — como câmeras digitais e impressoras de fotos — estampando o nome Kodak, visando dar a eles mais valor e visibilidade.

    Em seu movimento mais recente, a Kodak anunciou nesta terça-feira (9) na CES 2018 — a maior feira de tecnologia do mundo, que acontece anualmente em Las Vegas, nos EUA — o lançamento de um sistema associado a blockchain que fará o registro e proteção de uso indevido de fotos chamado KodakOne, a criação de uma nova moeda virtual chamada Kodak Coin, e ainda a construção de uma estação com diversas máquinas mineradoras de bitcoin chamadas Kodak KashMiner.

    Seja por se envolver em uma área distante da sua de origem ou apenas por mencionar o termo “blockchain” — em alta, nos últimos tempos — em seu anúncio, a Kodak chamou atenção de investidores e suas ações voltaram a subir após uma sequência de quedas.

    Blockchain, copyright e altcoin

    A tecnologia blockchain ganhou notoriedade na esteira do sucesso do bitcoin, isso porque é ela que garante a segurança e o bom funcionamento da moeda virtual.

    O blockchain (ou “cadeia de blocos”) é geralmente apresentado como um grande banco de dados descentralizado e seguro. É possível imaginá-lo também como uma grande planilha compartilhada ou ainda um enorme livro de registros aberto, acessível de diferentes computadores (chamados de “nós”).

    Ele funciona registrando dados (ou transações), dando a eles uma identificação própria e agrupando-os em blocos, que por sua vez são interligados, formando então uma cadeia. Esses dados ou transações devem ser aprovados por cada “nó” associado ao blockchain. Assim, qualquer alteração em um desses registros afeta toda a cadeia e é, por isso, facilmente percebida por qualquer pessoa (ou “nó”) que monitore esse sistema.

    O sistema KodakOne é fruto de uma associação entre a Kodak e a empresa britânica Wenn Media Group, uma agência de fotógrafos paparazzi que desenvolveu um sistema baseado em blockchain para registrar a autoria das fotos de seus clientes e garantir que elas não sejam usadas indevidamente. Ele faz isso dando uma identificação a cada uma delas e varrendo a internet em busca de réplicas sendo usadas sem o pagamento de licença. 

    “Onde o uso sem autorização de imagens é detectado, a plataforma KodakOne pode gerenciar de modo eficiente o processo posterior de licença para recompensar seus fotógrafos”, diz a Kodak em seu site. Em outras palavras, cobrar da página que hospeda a fotografia o pagamento pelo seu uso.

    Outras empresas têm feito sucesso com propostas semelhantes. O Spotify comprou, em abril de 2017, uma startup chamada Mediachain mirando no potencial que esse monitoramento de uso indevido teria com músicas. Além dela, uma empresa chamada Ascribe virou notícia ao levantar US$ 2 milhões em investimentos, em 2015, anunciando sua capacidade de monitorar com blockchain o uso indevido de obras de arte na internet.

    Pagamento instantâneo

    Os fotógrafos que optarem por aderir à plataforma não devem esperar seu pagamento em dólares ou qualquer outra moeda física. Isso porque os royalties pelo uso de fotos serão pagos aos profissionais por meio da, ainda a ser criada, moeda virtual chamada de Kodak Coin.

    A empresa justifica a criação de uma moeda virtual alternativa ao bitcoin (ou “altcoin”) apontando vantagens como rapidez e transparência. Isso porque cada fotógrafo poderá fazer o monitoramento de quantos sites estão usando suas imagens. O KodakOne nota esse uso e faz o pagamento aos fotógrafos automaticamente.

    No site da futura moeda, a empresa aposta que ela “se tornará a moeda de escolhas da economia da imagem”. Com a moeda virtualmente em mãos, os fotógrafos poderão vendê-la em troca de dólares ou outra moeda virtual (como bitcoin) ou ainda gastar em uma loja virtual da própria Kodak.

    “Nossa loja [marketplace] garante aos portadores das moedas a chance de comprar, vender ou reservar produtos e serviços como voos, hotéis, modelos, locações e estúdios [de fotos] com suas moedas”, diz o site, acrescentando que será possível usá-las para financiar campanhas de crowdfunding de “startups e serviços”.

    Máquina de caçar moedas

    A Kodak envolveu sua marca ainda de forma mais profunda com o negócio das moedas virtuais. De acordo com a BBC, a empresa se associou a uma outra startup, chamada Spotlite, para lançar a KashMiner, uma máquina bem mais potente que um computador comum e que processa operações matemáticas para a rede blockchain de bitcoins em troca de moedas. São as chamadas mineradoras.

    A Kodak planeja instalar fileiras dessas máquinas em sua sede, na cidade de Rochester, em Nova York, e vender tempo de uso. Os interessados deverão pagar adiantado (US$ 4 mil por 24 meses de mineração) e poderão ficar com metade das moedas obtidas. Um porta-voz da Spotlite disse à BBC que calcula um potencial lucro de US$ 500 por mês com a prática.

    ‘Golpe’ e moedas demais

    A entrada em um mercado radicalmente diferente do seu de origem causou surpresa sobre a Kodak, mas também fez chover críticas à sua proposta de negócio. Críticos familiarizados com moedas virtuais e mineração chegaram a chamar o modelo de negócio envolvendo a máquina mineradora da Kodak de “golpe”.

    “É difícil minimizar o quão brilhante esse golpe é em múltiplos níveis”, disse pelo Twitter o pesquisador especialista em segurança e computação da Universidade de Berkeley, Nicholas Weaver. Em seguida, listou aquilo que, para ele, configura o esquema enganoso. “A: Vende uma mineradora pelo preço de custo. Paga metade. B: Os custos estimados estão insanamente errados. Assume que não há aumento na taxa de mineração, nem gastos com energia. C: Agora a Kodak tem bitcoin na cabeça. O valor das ações dobram!”, disse.

    O especialista também atirou contra a criação da nova moeda virtual. “É absurdamente estúpido. Por que você precisa de uma moeda específica para pagar fotos de agência? Tenho certeza que os fotógrafos preferem receber em dinheiro de verdade.”

    O professor de economia libanês Saifedean Ammous, autor de um recém-lançado livro sobre bitcoin criticou a chamada Kodak Coin. “Empresas no mundo real não fabricam suas próprias moedas por uma razão. Se você quer vender um bem, você usa dinheiro real. Imagine se você tivesse uma moeda separada para a Kodak, para a Microsoft, Apple e para o supermercado”, disse.

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