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Por que o governo aplicará versão diluída da vacina contra febre amarela

Entre fevereiro e março, municípios de São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro serão alvo de uma campanha de vacinação

 

No início de janeiro de 2018, o governo federal anunciou que aplicará a chamada “dose fracionada” da vacina contra febre amarela em 75 municípios dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia entre fevereiro e março.

A campanha buscará atingir 19,7 milhões de pessoas e frear a doença, que vem avançando de forma acelerada desde 2016, naquele que é considerado o maior surto já registrado no país.

As vacinas funcionam ao expor o corpo ao vírus da febre amarela enfraquecido. Esse vírus não é capaz de infectar o corpo humano, mas há uma quantidade grande o suficiente para gerar uma reação do organismo que se torna, desta forma, capaz de gerar anticorpos para combatê-lo caso seja exposto novamente em uma outra situação.

A versão que vem sendo aplicada no país e que é a normalmente recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) possui 0,5ml do soro com o vírus atenuado. Ela garante imunidade para a vida toda na maioria dos casos.

A versão que o governo aplicará em sua campanha a partir de fevereiro possui 0,1ml do mesmo soro. A OMS reconhece que essa vacina garante imunidade por no mínimo um ano, mas há indícios de que esse período pode ser maior.

A medida busca garantir mais vacinas sem produzir uma quantidade maior de soro, um processo que demora e que poderia não ocorrer a tempo de frear a propagação da doença.

Transmitida por mosquitos, a febre amarela pode causar febre alta, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, vômitos e, em sua forma mais grave, insuficiência no fígado, nos rins e hemorragias. Desde 2016 populações humanas de áreas que não costumam ser afetadas, em especial no Sudeste, vêm sendo atingidas, em uma crise sem precedentes.

Segundo dados nacionais do Ministério da Saúde, 777 casos de febre amarela e 261 mortes pela doença foram confirmadas no período de julho de 2016 e junho de 2017.

A crise arrefeceu com o fim da época das chuvas, e foram confirmados entre julho e janeiro de 2018 11 casos em humanos e quatro mortes pela doença, mas há temor de que as contaminações se acelerem com a mudança das condições climáticas -o período de dezembro a maio é aquele em que os surtos costumam ocorrer.

O acompanhamento da Secretaria de Saúde de São Paulo aponta que houve entre o início de 2017 e o início de 2018, 58 casos confirmados e 19 mortes humanas apenas no estado. Essa propagação ainda não configura epidemia, mas é grande o suficiente para se afirmar que há um surto de febre amarela nas regiões afetadas.

Os dados preocupam porque, apesar de a doença ser uma velha conhecida do sistema de saúde brasileiro, ela está se ampliando para regiões populosas que não costumam lidar com ela e que são mais vulneráveis.

O que é especial nesse surto

Na década de 1940, o Brasil teve sucesso em erradicar a febre amarela das cidades, onde a doença tinha maior potencial de prejudicar a população humana. Isso foi feito por meio de campanhas de vacinação e o combate ao mosquito Aedes aegypti, que a transmitia de pessoa para pessoa.

Ela continuou a existir, mas em uma versão silvestre, nas populações de macacos nas florestas brasileiras, em especial na região amazônica. Pessoas continuaram a ser infectadas, mas a transmissão não ocorre nesses casos entre um humano e outro com o intermédio do mosquito Aedes, e sim entre macacos e humanos por meio dos mosquitos Haemagogus e Sabethes, presentes nas florestas.

No geral, as vítimas humanas são aquelas que vão até as matas para pescar, fazer turismo ou extrair madeira, por exemplo, e que se expõem aos mosquitos.

Por isso, há medidas institucionalizadas do governo para vacinar as populações que vivem próximo aos locais mais afetados, assim como aquelas que se deslocam até eles.

Além disso, o governo acompanha as mortes de macacos por febre amarela, uma forma de entender onde surtos de infecção estão ocorrendo e quais populações estão mais ameaçadas.

Um estudo do Instituto Adolfo Lutz citado em janeiro de 2018 pela Revista Fapesp indica que a partir de 2014 o vírus passou a se propagar da Amazônia por meio de corredores de florestas, atravessando o Centro-Oeste, chegando a Minas Gerais e São Paulo e continuando rumo ao Espírito Santo.

A doença passou a atingir regiões de Mata Atlântica no oeste de São Paulo, no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e em partes da Bahia que anteriormente não eram atingidas.

Não está claro o que fez com que o vírus da febre amarela se propagasse, mas é possível que isso tenha ocorrido por meio da migração de macacos impulsionada por mudanças ambientais, ou mesmo pela migração de mosquitos infectados para áreas mais distantes.

Populações humanas e de macacos que não vinham sendo infectadas -o que garante imunidade aos indivíduos que sobrevivem- ou vacinadas estão sendo afetadas. Como há apenas uma parcela reduzida da população imune à doença, esta se propaga mais facilmente e rapidamente.

“É sabido que os surtos de febre amarela entre macacos se repetem a cada oito a dez anos. Mas normalmente isso acontece em regiões em que a vacina da febre amarela é rotineira. Agora, a epidemia está progredindo para áreas onde não se tem vacinação”, afirmou em entrevista ao Nexo Benedito Antônio Lopes da Fonseca, professor de infectologia da Faculdade de Medicina da USP.

O que muda com a vacina fracionada

Coincidentemente, a doença está se propagando por algumas das regiões mais populosas do país, entre elas a região metropolitana de São Paulo. Por exemplo: todos os macacos bugios do Parque Horto Florestal, na zona norte da cidade de São Paulo morreram após contrair o vírus.

Até o momento, todos os indícios apontam que a doença está sendo transmitida desses macacos afetados para os humanos. Mas a proximidade com áreas urbanas densamente povoadas levanta o temor de que a febre amarela passe a se propagar de uma pessoa para outra, por intermédio do mosquito Aedes.

Isso poderia criar uma situação análoga àquela do início do século 20, e colocar muito mais pessoas em risco. Há precedentes recentes nesse sentido: em 2016, Angola e Congo passaram por surtos de febre amarela em cidades.

 

A vacina fracionada é uma forma encontrada pelo governo brasileiro de agir rapidamente e imunizar uma população grande com o estoque de soro já disponível.

A produção de cada dose demora um período de 12 meses, o que tornaria difícil criar rapidamente uma resposta com a dose completa. A mesma medida foi aplicada para imunizar grandes populações de Congo e Angola em 2016.

“A febre amarela urbana e silvestre são transmitidas pelo mesmo vírus. Se houver uma alta densidade de mosquitos Aedes e eles se infectarem, a doença poderá voltar a ser transmitida de humanos para humanos e atingir uma população enorme”, afirmou Ricardo Lourenço, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, em entrevista ao Nexo.

Ele afirma que, além de se vacinar, a população deve tomar medidas contra a propagação do mosquito, em especial evitar o acúmulo de água parada. “Não podemos fazer nada contra os mosquitos da floresta, mas em casa sim”, afirma.

Versão fracionada exige mais vacinações

Ainda não há um consenso científico sobre por quanto tempo a vacina fracionada é capaz de manter o corpo imunizado. A OMS parte do princípio de que a imunização dura pelo menos um ano, o que já é tempo o suficiente para ajudar a frear o surto. Mas há indícios de que esse período é meior.

Em 2009 a Fundação Oswaldo Cruz realizou um estudo com 900 pessoas que foram imunizadas com a dose fracionada. Em 2017, a entidade voltou a contatar 374 delas.

Testes de sangue de 319 participantes foram incluídas em uma análise que apontou a existência de anticorpos contra a doença em 85,3% dos casos, uma proporção similar àquela encontrada em pessoas vacinadas com a dose completa.

Isso foi encarado como indício de que a imunização com a dose fracionada é capaz de garantir imunidade comparável à concedida pela dose completa, por pelo menos oito anos.

É possível que esse período seja ainda maior, mas, com base no que se sabe até o momento, as pessoas que a utilizarem serão orientadas pelo governo na campanha de fevereiro e março a realizar uma nova vacinação após oito anos.

 

Segundo o Ministério da Saúde, o público considerado mais vulnerável receberá a vacina com a dose completa. Isso inclui crianças de nove meses a até dois anos, pacientes com questões clínicas especiais (que vivem com HIV, ou que estão no final do tratamento de quimioterapia, por exemplo) e gestantes.

Pessoas com o sistema imunológico debilitado ou com reação alégica grave à proteína do ovo devem, no entanto, evitar a vacina. Viajantes internacionais também receberão a dose completa, que é a internacionalmente reconhecida como eficaz.

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