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Como uma disputa entre religiões explica a caça às bruxas, segundo estes economistas

Economistas afirmam que julgamentos ocorreram com mais frequência onde havia ‘competição’ por fiéis entre os cristãos ligados à autoridade de Roma e protestantes

     

    Entre os anos 900 e 1400, autoridades cristãs ligadas à igreja de Roma (o termo ‘católico’ começa a se fortalecer nesta época) não admitiam a existência de bruxas, apesar de a crença ser difundida entre a população europeia.

    A partir de 1550, porém, as criaturas passam não só a serem tidas como reais, como tem início uma violenta caça às bruxas. Até 1700, mais de 80 mil pessoas foram julgadas por bruxaria na Europa, e metade foi executada. Depois disso, os julgamentos pararam. O que justifica essa mudança de atitude?

    Os economistas Peter Leeson e Jacob Russ, da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, afirmam em artigo publicado no The Economic Journal que a caça às bruxas foi provocada por uma “disputa de mercado” entre a igreja católica e as recém-surgidas igrejas protestantes. Segundo eles, os caçadores de bruxas “faziam propaganda do compromisso e do poder de sua igreja de proteger cidadãos das manifestações mundanas de Satã”.

    A pesquisa, segundo os autores, é importante porque o uso do medo para convencer pessoas se repetiu em outros momentos históricos. Os julgamentos realizados por Joseph Stálin na União Soviética, nos anos 1930, também serviram para mostrar a força do stalinismo e enviar uma mensagem aos cidadãos sobre qual grupo deveriam apoiar. “O fenômeno que documentamos – o uso de julgamentos públicos em alguma dimensão como forma de competição estratégica – vai muito além da caça às bruxas na Europa”, escrevem. Outro episódio lembrado é o das Bruxas de Salem, em Massachusetts (EUA), no século 17.

    Como a pesquisa foi feita

    O período de caça às bruxas na Europa ocorreu durante os movimentos de Reforma, iniciados em 1517 por Martinho Lutero, e Contra-Reforma católica. Nesse momento surgiram as igrejas protestantes, desafiando a então hegemonia da igreja de Roma, e os católicos reagiram. Foi a primeira vez em que os cristãos tiveram uma opção: continuar seguindo a igreja católica ou aderir a outra fé cristã.

    Os economistas analisaram documentos e dados sobre 43 mil julgamentos realizados em 21 países europeus entre 1300 e 1850. Depois, compararam o número de julgamentos com a intensidade dos conflitos religiosos entre 1500 e 1699.

    Os resultados mostram que houve mais julgamentos em locais onde a disputa entre católicos e protestantes era mais intensa. Mais de 75% dos julgamentos ocorreram na Alemanha, Suíça, França, Inglaterra e Holanda, onde as disputas religiosas eram mais intensas. Países como Espanha, Portugal, Itália e Irlanda, onde a fé católica era mais estabelecida, foram palco de apenas 6% dos julgamentos.

    De acordo com o artigo, a caça às bruxas teve início com os católicos que tentavam manter seus devotos. A prática, depois, se estendeu aos protestantes, com o próprio Martinho Lutero e João Calvino tendo aprovado a execução de supostas bruxas.

    “Da mesma forma que candidatos republicanos e democratas focam a atividade de campanha nos estados de maior disputa política para atrair a lealdade de eleitores indecisos, autoridades católicas e protestantes focavam a atividade de caça às bruxas em locais de disputa religiosa durante a Reforma e Contra-Reforma para atrair a lealdade de cristãos indecisos”, diz o artigo.

    Segundo ele, a batalha teve seu pico entre 1555 e 1650. A disputa foi encerrada após os acordos conhecidos como Paz de Westfália, série de tratados que, entre outras coisas, deram fim à chamada Guerra dos Trinta Anos, que opôs católicos e protestantes na Europa. De acordo com o artigo, esses tratados “congelaram” a posição religiosa dos Estados. Ou seja, eles se manteriam com a mesma fé que tinham em 1624, e isso não mudaria mesmo se o príncipe optasse por outra religião. “Depois de 1648, religiosos católicos ou protestantes não podiam mais mudar a denominação religiosa dos territórios europeus, reduzindo muito sua motivação para competir.”

    Os pesquisadores não examinam o motivo de, apesar de o acordo datar de 1648, os julgamentos de bruxas terem continuado até 1700. Eles sugerem, porém, que os devotos poderiam estar acostumados aos julgamentos, e que levou um tempo até que esse costume desaparecesse.

    Outros fatores que podem ter provocado a caça às bruxas

    Leeson e Russ também analisam outros fatores que já foram apresentados como justificativa para a caça às bruxas. Dentre eles estão:

    Mau tempo

    A explicação mais conhecida, segundo os pesquisadores, seria a que alega que temperaturas muito frias pioraram a situação econômica da população e levaram, consequentemente, à busca de bodes expiatórios. Como a crença europeia via as bruxas como capazes de controlar o tempo, elas acabaram levando a culpa.

    Choques negativos de renda

    Uma teoria parecida, mas que não defende o uso de bodes expiatórios. Nesse sentido, pessoas teriam sido mortas por serem consideradas culpadas pela falta de dinheiro da população.

    Governo fraco

    Uma terceira hipótese afirma que governos fracos foram responsáveis pela caça às bruxas. De acordo com essa tese, os Estados em que o governo central era mais fraco tiveram mais julgamentos de bruxas, porque o poder central não conseguia impor a lei. Autoridades locais, então, faziam os julgamentos de acordo com sua vontade.

    Na análise dos pesquisadores, nenhuma dessas três teorias teve impacto mais significativo do que a tese da competição por fiéis (uma competição ‘mercadológica’, é o termo usado).

    O que ficou de fora

    Os pesquisadores não citam, em sua pesquisa, a relação da caça às bruxas com teorias feministas. A única referência feita a isso é uma nota de rodapé, que afirma que uma outra pesquisa afirma que mulheres foram escolhidas preferencialmente como bodes expiatórios devido à misoginia. O artigo só usa a palavra “mulheres” duas vezes, incluindo essa nota de rodapé. 

    Diversas pesquisadoras feministas, no entanto, relacionam a caça às bruxas – cuja vítimas eram em grande parte mulheres – a uma atividade de controle do corpo das mulheres, no período inicial do capitalismo. Uma das mais conhecidas é a pesquisa da historiadora italiana Silvia Federici, professora emérita da Universidade Hofstra, nos Estados Unidos. Ela argumenta que, até então, mulheres tinham autonomia econômica e sobre seus corpos: muitas eram lavradoras, pedreiras, parteiras e curandeiras.

    A caça às bruxas, segundo ela, “constituiu um ponto decisivo na história das mulheres na Europa, o ‘pecado original’ no processo de degradação social que as mulheres sofreram com a chegada do capitalismo”. Os assassinatos resultaram em perda de liberdade econômica e da autonomia das mulheres, que passaram a exercer prioritariamente atividades domésticas e reprodutivas, que foram ainda mais controladas.

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