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O que é o PSL, partido que Bolsonaro escolheu para se candidatar à Presidência

Após anunciar ida para o PEN, deputado revê estratégia e diz que vai disputar as eleições pelo Partido Social Liberal

     

    Quem visita as redes sociais do PEN (Partido Ecológico Nacional) neste começo de janeiro de 2018 ainda encontra fotos de dirigentes da legenda ao lado do deputado federal Jair Bolsonaro. O pré-candidato à Presidência é filiado ao PSC, mas em agosto de 2017 anunciou que mudaria para o PEN. O partido havia topado bancar a candidatura do deputado ao Planalto nas eleições de outubro e, como parte das negociações, passaria a se chamar Patriota.

    Na sexta-feira (5), no entanto, Bolsonaro apareceu ao lado de outro dirigente partidário, o deputado federal Luciano Bivar, também disposto a abrir espaço para ele, agora pelo PSL (Partido Social Liberal). Ao assinar um tipo de carta-compromisso com a nova sigla, Bolsonaro disse a jornalistas que não tinha segurança de que o PEN-Patriota manteria sua candidatura.

    Em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto para 2018, Bolsonaro vinha desde 2017 buscando legendas interessadas em bancar sua campanha à Presidência. A filiação ao PSL está prevista apenas para março, período da janela partidária, quando parlamentares podem trocar de partido sem que a legenda pela qual o deputado ou senador se elegeu reivindique o mandato.

    No PSL, foi prometido a Bolsonaro que ele terá liberdade para negociações e para compor diretórios, razão do desentendimento com o PEN-Patriota. Em comum, as duas legendas têm a pequena estatura.

    Em busca de mais espaço

    O PSL é presidido por Luciano Bivar, deputado federal e empresário pernambucano, conhecido por ocupar a “bancada da bola”. Ele já presidiu o Sport Clube do Recife em cinco ocasiões.

    Na sua última passagem pelo clube, em 2013, Bivar se envolveu em uma polêmica ao afirmar que haveria um esquema para convocar jogadores para a Seleção Brasileira e que ele próprio pagou uma comissão para que um volante do time fosse chamado para jogar na Copa das Confederações de 2001. O STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) abriu inquérito para apurar a declaração e Bivar acabou punido com uma suspensão.

    Bivar é o fundador do PSL, registrado em 1998. Confirmada a filiação de Bolsonaro, será a segunda campanha presidencial do partido. A primeira foi em 2006, com Bivar na cabeça de chapa – ele teve 0,06% (62.064) votos.

    Desde 2016, a legenda discutia rever e renovar seu programa partidário. O processo envolvia o Livres, grupo liderado pelo empresário Sérgio Bivar, filho de Luciano, que defende a renovação política e a articulação de uma agenda liberal – com participação menor do Estado, apoio a privatizações e defesa das liberdades individuais.

    Mas integrantes do Livres e Sérgio eram contrários à chegada de Bolsonaro. No mesmo dia em que a filiação do deputado foi apresentada, o grupo anunciou rompimento com o PSL.

    “A chegada do deputado Jair Bolsonaro, negociada à revelia dos nossos acordos, é inteiramente incompatível com o projeto do Livres de construir no Brasil uma força partidária moderna, transparente e limpa”

    Livres

    em nota pública divulgada na sexta-feira (5)

    Os planos eram o PSL passar a se chamar Livres, como parte do processo de renovação. Com o rompimento, o grupo ainda avalia o que fazer – se vão apoiar outra legenda ou seguir como movimento político.

    Luciano Bivar afirma que ele e Bolsonaro partilham há tempos das mesmas ideias e que a filiação do deputado representa um “grande ganho” para o PSL. Em termos práticos, o presidente da sigla refere-se à exposição nacional de Bolsonaro,  que representa um projeto, segundo ele, com “reais possibilidades” de vitória e que, por consequência, aumenta a visibilidade da legenda.

    O que pensa o PSL

    No anúncio da parceria, por meio de nota, o partido afirmou que PSL e Bolsonaro têm em comum o “pensamento econômico liberal, sem qualquer viés ideológico”, além da defesa da propriedade privada e da valorização das Forças Armadas e de segurança.

    A proposta mais conhecida do PSL é a adoção do imposto único federal, de autoria de Luciano Bivar, que prega a simplificação do sistema tributário no país. Bolsonaro evitou dizer que levará a bandeira adiante, mas diante de jornalistas disse que não pretende aumentar mais a carga tributária e que os tributos devem ser mais bem distribuídos entre estados e municípios.

    Nos documentos e canais oficiais, o PSL se define como liberal e evita se posicionar à direita ou a èsquerda. O partido diz apoiar uma agenda liberal na economia e a liberdade nos costumes. Parte dessas definições, no entanto, estão bastante atreladas ao Livres, que agora não integra mais a legenda.

    Caso mantenha parte das ideias gestadas até a saída do movimento, o PSL sustenta que um governo “não deve ser babá de adulto” e que o Estado deve atuar somente em temas essenciais, como saúde, educação e segurança.

    “O PSL defende o social-liberalismo, isto é, um liberalismo com preocupação social. (...) Apesar de por muito tempo ter sido associada ao socialismo e à defesa do Estado no Brasil, a palavra Social remete a Sociedade e não significa estatismo”

    PSL

    texto publicado no site oficial da legenda

    Militar da reserva, Bolsonaro é mais conhecido por suas ideias na área da segurança pública (como a autorização do porte de arma para civis) e dos costumes (militarização do ensino público). No passado, o deputado já fez declarações nas quais defendeu a tortura e recentemente foi condenado a pagar indenização por causa de falas homofóbicas.

    Por meio de mensagens em suas redes sociais, o pré-candidato já disse que não tem “apreço por regimes totalitários” e que, na economia, vai manter o chamado “tripé macroeconômico”, base da política econômica do governo Fernando Henrique (1995-2002).

    No Congresso, três deputados

    O PSL faz parte do bloco composto pelo PTB, PROS e PRP, aliado do governo Temer, do MDB. A bancada da legenda na Câmara tem três deputados, entre eles Luciano Bivar. O PSL não tem representantes no Senado.

    Nas votações recentes mais importantes na Câmara, o partido votou pela abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff e pela rejeição das denúncias criminais contra o presidente Michel Temer.

    Bivar se ausentou da sessão que aprovou a reforma trabalhista, em vigor desde novembro de 2017. Os demais deputados, Alfredo Kaefer e Dâmina Pereira, tiveram votos divergentes, um a favor e outro contra as mudanças, respectivamente.

    O tamanho da bancada, além de indicar a pouca relevância do PSL no atual cenário partidário, indica que seus candidatos terão pouco tempo de TV e de recursos dos fundos partidário e eleitoral.

    Esses recursos são calculados com base no número de deputados eleitos, o que deixa o PSL em desvantagem quando comparado com PT e PSDB, duas das três maiores bancadas (a maior é o MDB), e que anunciaram candidaturas próprias – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelo PT, e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pelo PSDB.

    A alternativa para ampliar a exposição na TV e no rádio de uma eventual candidatura de Bolsonaro é buscar aliados, negociar apoios nos Estados e ceder a vaga de vice a outro partido, por exemplo. Temas sobre os quais o deputado e Bivar dizem que vão estudar a partir de agora. “[Com o PSL] Não tem Fundo Partidário, não tem tempo de TV, mas tem o povo”, afirmou Bolsonaro na sexta-feira.

     

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