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2 pontos do discurso de Oprah que resumem os protestos do Globo de Ouro

Premia��ão neste domingo (7) foi marcada por referência a casos de assédio sexual em Hollywood e lembrou a campanha #MeToo e Time’s Up

     

    Em meio ao maior escândalo sexual de Hollywood, a cerimônia de entrega do Globo de Ouro, na noite de domingo (7), foi marcada por protestos contra o assédio e ao abuso de poder em Hollywood. Referências ao caso foram vistas nos vestidos pretos usados pelas mulheres, em broches usados pelos homens com os dizeres “Time's Up” e no discurso dos participantes.

    Dentro do teatro do Beverly Hilton, na Califórnia, não houve outro assunto a disputar as atenções. Em seu discurso de abertura, o apresentador da cerimônia Seth Meyers fez comentários sobre a dificuldade e a estranheza em ser o host do Globo de Ouro em uma temporada como esta. “Aos homens indicados, presentes aqui nesta noite, vai ser a primeira vez em três meses em que ouvir seu nome lido, em alto e bom som, não terá nada de terrível.” 

    Um dos momentos mais marcantes da noite foi o discurso da atriz e apresentadora americana Oprah Winfrey, que recebeu o Prêmio Cecil B. DeMille, concedido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros a figuras notáveis da indústria audiovisual americana. Oprah citou sua confiança na imprensa e lembrou de quando Sidney Poitier, negro, venceu o Oscar pela primeira vez. Oprah foi a primeira mulher negra a receber o prêmio. Além disso, Oprah falou sobre violência contra a mulher. O Nexo selecionou dois pontos do discurso que ajudam a entender a noite:

    “Me too”

    “Eu só espero que Recy Taylor tenha morrido sabendo que sua verdade, como a verdade de tantas outras mulheres que foram atormentadas naqueles anos, e até agora atormentadas, segue adiante. Estava em algum lugar no coração de Rosa Parks [...] e está aqui com todas as mulheres que escolhem dizer 'eu também.'”

    Neste trecho do discurso, Oprah faz referência ao movimento #MeToo (#eutambém), que encorajou usuárias das redes sociais a relatar os assédios que sofreram. A hashtag popularizou-se após o surgimento de denúncias contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein, feitas por profissionais do meio cinematográfico.A iniciativa Me Too, entretanto, surgiu fora das redes como movimento de empoderamento de mulheres vítimas de abuso, em 2006, por iniciativa da ativista Tarana Burke, que trabalhava em comunidades desfavorecidas. A campanha #MeToo, 10 anos depois, espalhou-se para outras áreas, como artes plásticas, política e gastronomia.

    No Globo de Ouro, Oprah falou do movimento ao se referir a Recy Taylor, estuprada por seis homens brancos em 1944, no estado do Alabama. Seu caso foi levado à Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, e ficou sob responsabilidade da ativista Rosa Parks. Parks ficou famosa, cerca de dez anos depois, quando se recusou a ceder seu lugar em um ônibus para um homem branco, dando início ao boicote dos ônibus de Montgomery e se tornando símbolo na luta pelos direitos civis dos negros americanos. Taylor morreu há cerca de dez dias.

    O movimento #MeToo não apareceu apenas no discurso de Oprah; pelo contrário, permeou toda a noite. O anfitrião da cerimônia, Seth Meyers, apresentador do programa Late Night, abriu a noite cumprimentando as damas e “cavalheiros que restaram”, em referência àqueles que foram expostos por denúncias e não estavam na cerimônia, como o ator Kevin Spacey e o comediante Louis C.K.. Quatro minutos depois, Meyer citou Weinstein nominalmente, dizendo que, quando o produtor morresse, seria o único homenageado que seria vaiado.

    “Eu quero que todas as garotas assistindo aqui, agora, saibam que um novo dia está no horizonte! E quando esse novo dia finalmente amanhecer, será por causa de muitas mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui neste auditório, esta noite, e de alguns homens fenomenais, lutando para garantir que se tornem os líderes que nos levam ao tempo em que ninguém nunca mais terá de dizer 'Eu também'”

    Logo após o discurso de Oprah, a atriz Natalie Portman também fez referência ao sexismo em Hollywood, ao apresentar o prêmio de melhor direção. “Aqui estão todos os homens indicados”, afirmou, destacando a ausência de mulheres na lista.

     

    Ao receber o prêmio de melhor atriz em série dramática por “The Handmaid’s Tale”, Elisabeth Moss citou uma frase da obra de Margaret Atwood, autora do livro que deu origem à série: “Vivíamos em um vão entre as histórias”. E acrescentou: “Não vivemos mais nesse espaço. Somos a história impressa, e estamos escrevendo nós mesmas a história”. Melhor atriz na categoria série limitada ou filme feito para TV por “Big Little Lies”, Nicole Kidman também fez referência ao momento em seu discurso. “Acredito, e espero, que possamos evocar a mudança pelas histórias que contamos, e da forma que contamos.”

    Além disso, houve um boicote coletivo à marca Marchesa, que já vestiu celebridades como Sandra Bullock e Blake Lively. Este ano, a grife ficou de fora do tapete vermelho, por pertencer a Georgina Chapman, mulher de Weinstein.

    “Time’s up”

    “Por muito tempo, não ouviam as mulheres, ou não acreditavam nelas quando ousavam falar a verdade sob o poder desses homens. Mas esse tempo acabou.”

    Oprah fecha esse trecho do discurso se referindo ao recém-lançado movimento “Time’s Up” (o tempo acabou). O Time’s Up é uma tentativa de expandir o movimento de combate ao abuso sexual sistêmico para outras indústrias, além da de entretenimento. O movimento tem participação de mais de 300 mulheres de Hollywood, incluindo Reese Witherspoon, Shonda Rhimes, Jennifer Aniston, Natalie Portman e Cate Blanchett.

    A iniciativa pretende pressionar pela criação de leis que penalizem empresas que toleram assédio e que desestimulem o uso de acordos de confidencialidade que silenciam vítimas de abuso. Além disso, pretende lutar pelo aumento do número de mulheres em Hollywood. A ação considerada mais impactante é a ideia de o projeto ter um braço jurídico, que ajudaria vítimas de assédio sexual, mediante auxílio e financiamento, a encontrarem defensores.

    “Eu estou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes o suficiente e empoderadas o suficiente para falar e compartilhar suas histórias pessoais. Cada um de nós nesta sala é celebrado por causa das histórias que contamos, e este ano nós nos tornamos a história.”

    Foi atendendo à pedido do Time’s Up que a maioria das mulheres que passou pelo tapete vermelho do Globo de Ouro vestiu preto, além de alguns homens. Eles também foram vistos com broches com a inscrição “Time’s Up”.

    O protesto, porém, não foi unânime. Algumas pessoas disseram que apenas usar preto não era suficiente. A atriz Rose McGowan, uma das mulheres a acusar Weinstein de assédio, disse que o protesto silencioso era hipócrita.

    “Atrizes como Meryl Streep, que trabalharam felizes para o porco monstruoso, vão usar preto no Globo de Ouro em um protesto silencioso. O SEU SILÊNCIO é O problema. Vocês vão aceitar um prêmio falso sem hesitar e não vão fazer nenhuma mudança real. Eu desprezo a sua hipocrisia. Talvez vocês todos devam usar Marchesa”, escreveu a atriz no Twitter. Segundo o jornal O Globo, o post foi deletado. 

    Em outra iniciativa de protesto encabeçada pelo Time’s Up, algumas mulheres decidiram levar à cerimônia, como suas convidadas, ativistas de diversas áreas. A atriz Meryl Streep esteve acompanhada de Ai-Jen Poo, que defende os direitos das trabalhadoras domésticas. Michelle Williams, vencedora do prêmio de melhor atriz por “Sete Dias com Marilyn”, em 2012, chegou com Tarana Burke, fundadora do movimento #MeToo e diretora da ONG Girls For Gender Equity (Garotas pela Igualdade de Gênero). Também houve críticas a esse ato, com a preocupação de que as ativistas estivessem sendo reduzidas a um papel acessório.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que a hashtag #MeToo havia surgido com as denúncias de Harvey Weinstein, em 2017. Na realidade, como movimento, a iniciativa Me Too é de 10 anos atrás, capitaneada por Tarana Burke, em defesa de mulheres vítimas de abuso em comunidades desfavorecidas. A correção foi feita às 15h50 de 10 de janeiro de 2018.

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