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Quais os argumentos de quem diz que o PIB não mede a riqueza de um país

O cálculo de tudo que um país produz é criticado como forma de avaliar uma nação, mas economistas têm dificuldades de encontrar índices que substituam o Produto Interno Bruto

 

O Produto Interno Bruto é a soma de todos os bens e serviços que um país produz em um determinado período. O Brasil, por exemplo, produziu em 2016 um PIB avaliado em R$ 6,266 trilhões.

Esse valor foi 3,5% menor do que o produzido em 2015, que já tinha sido 3,5% menor que o de 2014. Essas quedas foram os principais indicativos da grave recessão que atingiu o Brasil e ainda tem consequências para a população.

O PIB é também uma maneira de medir a riqueza de uma nação. Os Estados Unidos têm, há décadas, o maior PIB do mundo. A China tem, nos últimos anos, o PIB que cresce mais rapidamente. O Brasil, nesse ranking, mesmo com toda a crise econômica, é a 9ª maior economia do mundo. Em 2012, chegou a ser a sexta maior.

As primeiras tentativas de se medir tudo que um país produz são do século 16, na Inglaterra. Mas na economia moderna, a medição do PIB se popularizou nos Estados Unidos após a crise de 1930.

Desde sua criação, o modelo recebe críticas por não ser capaz de medir as variáveis que afetam realmente a vida das pessoas, como saúde, educação e bem estar. A soma de tudo que um país produz ao longo de um tempo é um dado limitado que diz pouco sobre o ambiente daquele lugar ou o bem estar das pessoas que vivem nele. Mesmo o PIB per capita, que leva em conta a população, não consegue medir como as riquezas são distribuídas.

Para além das críticas sobre suas limitações em avaliar o bem estar da população, o índice vem sendo contestado também como medida de riqueza de uma nação.

Riqueza ou renda

O PIB mede tudo que um país consegue produzir em um ano, mas diz pouco sobre aumentar ou não sua produção no futuro ou o que ele já acumulou com as produções anteriores. Assim, seria a renda de um país, não seus ativos.

Se fosse em uma família, seria a medida dos salários sem levar em conta os bens, a qualificação profissional das pessoas (e consequentemente seu potencial de gerar mais dinheiro), ou mesmo o endividamento da casa.

O economista Partha Dasgupta, professor da Universidade de Cambridge e estudioso do assunto, faz uma diferenciação entre riqueza e renda. O PIB para um país é o equivalente à renda para uma família. A riqueza é o que a família acumulou e, no futuro, como vai investir o que recebe. O grande desafio é usar a renda como um instrumento para a criação de riqueza.

A analogia mostra algumas das limitações do PIB, mas quando se fala de um país o raciocínio é mais complexo. Em um artigo publicado em 2014 pela Agência da ONU para o Meio Ambiente (UNEP), Dasgupta, ao lado de economistas de vários países, tenta comparar a riqueza de 20 países e elenca características importantes ignoradas pelo PIB.

O que o PIB não mede

Capital físico

Todo o tipo de infraestrutura existente em um país. Itens como o maquinário das indústrias, estradas, portos, aeroportos, prédios e redes de telecomunicações.

Capital humano

A força de trabalho. Qual a parcela da população capaz de trabalhar e aumentar a produção de um país, qual a qualificação dessas pessoas. Segundo o Financial Times, cálculos do Banco Mundial em relatório ainda não publicado estimam que o capital humano representa 65% da riqueza global.

Capital natural

O estoque de recursos naturais capazes de fomentar o desenvolvimento de uma economia, não necessariamente com a simples exportação deles.

O próprio Partha, em entrevista à revista The Economist em 2012, admitiu problemas quando se tenta colocar preço em recursos que têm valor, muitas vezes, subjetivos. Ao se determinar que um punhado de um mineral tem valor em dólar, assim como o poder intelectual, entende-se que eles são comercializáveis - quando na verdade nem sempre são.

Em entrevista ao jornal Financial Times, o economista Lawrence Summers apontou dificuldades adicionais de se medir a riqueza de um país levando em consideração as evidências que o PIB não capta. Sobre as riquezas naturais, por exemplo, ele lembra do profundo impacto que mudanças tecnológicas têm na valorização dos recursos naturais.

Nada impede que haja uma revolução que torne, por exemplo, o petróleo um produto pouco eficiente e caro. No caso hipotético dessa transformação tecnológica, a indústria passaria a valorizar o produto que substituir o petróleo. Se esse produto for, por exemplo, a areia de praia, a economia do mundo inteiro sofreria alterações. Assim, é difícil colocar valor no estoque de produtos naturais de um país simplesmente porque é difícil precificar o futuro.

Aumentar o PIB não é necessariamente aumentar a riqueza

Países com muitos recursos naturais, como petróleo por exemplo, impulsionam seu PIB com exportações. Qatar e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, que estão entre os maiores PIBs per capita do mundo, são extremamente dependentes da exportação de petróleo - um recurso finito.

Os recursos naturais são fonte importante de renda, mas a transformação dessa renda vinda do petróleo em riqueza para o país vai depender de como esse dinheiro for investido.

Também em entrevista ao Financial Times, Dasgupta, que chefiou o estudo sobre riqueza das nações para a ONU, disse que, para ele, a palavra mais importante da sigla é “bruto” e deu um exemplo. “Se uma área úmida é drenada para dar lugar a um shopping center, a construção vai contribuir para o PIB, mas a destruição não vai ser registrada.”

Problemas na medição

O processo de contabilidade do PIB também tem dificuldades de medir atividades econômicas que não são formais. Na África, por exemplo, a economia de muitos países estaria sub-representada pelos números oficiais, pouco confiáveis. A dificuldade estaria, principalmente, em medir o valor de serviços.

No Quênia e em Ruanda, um grupo de economistas começou a usar imagens de satélites que mostravam as luzes noturnas das cidades para tentar checar os dados oficiais do PIB.

Na Nigéria, por exemplo, uma mudança na base metodológica em 2014 mostrou que o PIB do país era 89% maior do que o que foi medido em 2013. “É claro que os nigerianos não estão mais ricos agora do que eram no sábado à noite. A maior parte dos 170 milhões de nigerianos vive com menos de um dólar por dia”, escreveu a revista britânica The Economist na época.

Outra atividade que passa à margem da contabilidade oficial é o trabalho doméstico não remunerado. Em alguns países da África, ele chega a representar, segundo estimativas da ONU, mais de 60% da economia. Mas ele é relevante também em países como a Argentina, que deixa de contar 7% do PIB ao ignorar o trabalho doméstico.

Felicidade Interna Bruta

Um dos mais famosos conceitos criados como alternativa ao PIB é o de Felicidade Interna Bruta. Em 1972, o rei do Butão Jigme Singye Wangchuck criou o termo como resposta aos que diziam que a economia ia mal.

Em vez de medir apenas a produção, o índice mede nove quesitos, que vão desde “cultura” até “bem-estar psicológico”. 

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