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Por que a maior fabricante de cigarros do mundo quer, agora, um mundo livre deles

Mudança no mercado leva Philip Morris, dona da marca Marlboro, a anunciar o abandono de cigarros tradicionais e focar em produtos eletrônicos que diz serem 'mais saudáveis'

    A maior fabricante de cigarros do mundo, a Philip Morris, divulgou em seu site e em anúncios que pretende encerrar sua lucrativa produção de cigarros tradicionais, mas sem estipular prazos. Em forma de manifesto, a empresa diz ter adotado a medida como "resolução de ano novo" e pretende agora se dedicar a produtos alternativos, como cigarros eletrônicos e vaporizadores de tabaco.

    Conhecida principalmente pelos cigarros Marlboro, a empresa foi criada em 1902, em Nova York, nos EUA, por membros da família do inglês Philip Morris, dono de uma tabacaria londrina no século 19. No Brasil, ela também é a dona de marcas como L&M e Dallas.

    "A sociedade espera que a gente aja de forma responsável. E estamos fazendo exatamente isso, projetando um futuro sem fumaça", diz a empresa em seu “manifesto”.

    Mundo sem fumaça

    Além de ter feito aquisições de fabricantes de eletrônicos relacionados a tabaco sem combustão – prática que se tornou comum entre as empresas de cigarros tradicionais na última década – , a Philip Morris diz que já investiu mais de US$ 3 bilhões em produtos que forneçam nicotina “sem a prejudicial fumaça dos cigarros”, os quais seriam “menos nocivos, mas ainda prazerosos”, num processo que se iniciou em 2008.

    A empresa diz acreditar que esses eletrônicos um dia substituirão os cigarros por serem “uma opção melhor” para a saúde. “Não existe substituto ao ato de parar de fumar, mas acreditamos que podemos gerar um grande impacto na saúde pública, promovendo alternativas aos cigarros”, diz a fabricante.

    No comunicado, a Philip Morris diz que sua prioridade é fazer com que os milhões de fumantes adotem seus novos produtos, os quais, ela diz, “são destinados apenas a fumantes adultos e não para aqueles que nunca tenham fumado ou são ex-fumantes”.

    Fundação

    Junto com a mudança de foco, a empresa bancou – com US$ 80 milhões anuais pelos próximos 12 anos – a criação da Foundation for a Smoke-Free World (Fundação por um Mundo Sem Fumaça). A organização “independente” e sem fins lucrativos foi criada para “acelerar os esforços globais pela redução dos impactos à saúde e mortes em razão do cigarro, com o objetivo de eliminá-lo definitivamente do mundo”.

    Nicotina sim, fumaça não

    Foto: Issei Kato/Reuters
    Cigarro eletrônico Iqos já é vendido pela Philip Morris em diversos países, como o Japão
    Cigarro eletrônico Iqos já é vendido pela Philip Morris em diversos países, como o Japão

    Vaporizadores, cigarros eletrônicos (cuja aparência se assemelha a de cigarros tradicionais) ou outros tipos de eletrônicos que esquentam o tabaco sem queimá-lo têm sido a aposta da indústria para oferecer uma saída menos prejudicial, sem no entanto perder seu público consumidor.

    Tratam-se de eletrônicos munidos de bateria que, de maneiras diferentes, partindo de tabaco ou nicotina diretamente, permitem que o usuário inale apenas a nicotina por meio de vapor.

    “Muitas pessoas acham que é a nicotina que torna o cigarro prejudicial”, diz a Philip Morris. “O processo de queima que libera os aromas do tabaco e a nicotina [princípio ativo da planta que gera dependência] também produz mais de 6 mil químicos, dos quais 1% foi identificado como causa para doenças associadas ao ato de fumar.”

    Em seu anúncio, a empresa entra no mercado com quatro modelos. Dois deles (chamados Iqos, este já comercializado em diversos países, e Teeps), esquentam o tabaco a 350°C (contra os 600°C dos cigarros tradicionais), liberando um vapor com nicotina que pode ser inalado.

    Os demais usam diretamente a nicotina como matéria-prima. Um, chamado Steem, gera vapor com o princípio ativo, partindo de uma solução da nicotina em forma de sais. A outra, chamada Mesh, produz o vapor por meio de uma solução líquida da nicotina.

    “Estamos dizendo que esses produtos são saudáveis? Não. O que estamos dizendo é que esses produtos são alternativas melhores ao cigarro”, afirma a Philip Morris.

    Em 2015, a indústria de cigarros eletrônicos ou vaporizadores movimentou US$ 8 bilhões no mundo todo, sendo os EUA os donos da maior parte do mercado (43%). Há estimativas de que as vendas desse tipo de produto alternativo ao cigarro cresça ainda cerca de 16%, até 2022.

    OMS contra-ataca

    Em setembro de 2017, a OMS (Organização Mundial da Saúde), ligada à ONU (Organização das Nações Unidas), publicou um duro comunicado sobre a Philip Morris e sua tentativa de promover produtos alternativos ao cigarro tradicional como “mais saudáveis”. Na ocasião, a entidade anunciou sua recusa em se tornar parceira da Foundation for a Smoke-Free World, financiada pela Philip Morris, e convidava toda a comunidade internacional a fazer o mesmo.

    A OMS afirmou que historicamente a Philip Morris se opõe a todas as políticas de saúde que visam ao combate ao cigarro, e citou o caso de uma disputa judicial no Uruguai, com a qual a empresa gastou “aproximadamente US$ 24 milhões para se opor à obrigação de estampar alertas gráficos à saúde e à proibição a embalagens enganosas, em um país com menos de 4 milhões de habitantes”.

    A Organização ainda diz que há muitas perguntas não respondidas sobre a redução de danos relacionada a tabaco, “mas a pesquisa necessária para dar essas respostas não devem ser financiadas por empresas de tabaco”.

    “A indústria do tabaco e seus grupos têm enganado o público sobre os riscos associados a outros produtos de tabaco. Isso inclui a promoção de produtos do chamado ‘tabaco light’ como alternativa a parar de fumar, enquanto eles tinham ciência de que esses produtos não eram menos prejudiciais à saúde. Essa conduta enganosa continua hoje com as empresas, incluindo a PMI [Philip Morris International], fazendo marketing de produtos de tabaco de maneiras que enganosamente sugerem que alguns são menos prejudiciais do que outros.”

    Organização Mundial da Saúde

    Comunicado no dia 28 de setembro de 2017

     

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