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Para que serve o remédio de canabidiol, que o Piauí vai começar a produzir

Estado será o primeiro no país a preparar medicamento derivado da maconha; liberação no Brasil aconteceu em 2015

     

    O governo do Piauí anunciou, no fim de dezembro de 2017, um projeto de fabricação de medicamentos à base de canabidiol no estado. Realizado com as universidades federal (UFPI) e estadual (Uespi) do Piauí e o Ceir (Centro Integrado de Reabilitação), o programa inicialmente contará com R$ 1 milhão do governo local.

    O programa vem pesquisando o canabidiol de forma preliminar desde meados de 2017. A expectativa é de que a produção local tenha seus primeiros resultados por volta de junho de 2018.

    O plano é substituir medicamentos importados já usados na rede pública estadual por versões produzidas localmente. A iniciativa reduziria o custo dos remédios, segundo o governo estadual.

    Hoje, remédios baseados em canabidiol são autorizados no estado em 21 pacientes que apresentam crises epilépticas severas. Até 150 pacientes poderiam ser beneficiados com a fabricação local.

    “O Piauí é o primeiro estado a produzir em nível governamental”, disse ao G1 o neurologista e superintendente executivo do Ceir, Francisco Alencar. “Existe um começo de produção em uma universidade no Rio de Janeiro e outro trabalho de pesquisa na Paraíba, que a gente usou como base para a implantação do trabalho de pesquisa aqui.”

    A maconha usada para extrair o canabidiol será comprada da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), que tem autorização para cultivar a planta para fins científicos.

    Como o canabidiol é usado na medicina

    A planta Cannabis sativa contém 113 substâncias químicas denominadas canabinóides, encontradas principalmente em sua flor.

    Dentre estas substâncias, o canabidiol (CBD) é uma das principais não-psicoativas existentes na maconha, ao lado do canabicromeno e do canabigerol. Ou seja, o canabidiol não dá “barato” quando ingerido, o que o torna adequado para uso em medicamentos. Já o THC (tetrahidrocanabinol) é um canabinóide da maconha com efeitos psicotrópicos.

     

    Há tempos, o uso terapêutico do CBD em um amplo leque de doenças vem sendo pesquisado. Até agora, entretanto, sua ação foi comprovada apenas em casos de epilepsia resistente, esquizofrenia e mal de Parkinson.

    Em novembro, o FDA, agência federal americana que fiscaliza remédios e alimentos, advertiu quatro empresas que comercializam suplementos derivados de maconha com promessas de ajuda na cura do câncer, mal de Alzheimer e outras doenças. De acordo com a agência, não há base científica para este tipo de promessa.

    É comum que entusiastas ou vendedores de maconha medicinal apregoem um amplo espectro de benefícios deste tipo de produto. De acordo com o FDA, algumas empresas se aproveitam de pessoas doentes com “falsas alegações de que suas substâncias podem controlar ou curar o câncer”.

    Até agora, a agência federal não aprovou nenhum produto medicinal baseado em maconha. A postura do FDA entra em conflito com as legislações estaduais: a maconha medicinal é legalizada em 50% dos estados americanos, sendo que em 17 deles, produtos com alta concentração de canabidiol e baixo índice de THC (tetrahidrocanabinol) são permitidos.

    Os passos para a liberação do canabidiol no Brasil

    Decisão judicial

    Em 2014, os pais da menina Anny, de 5 anos, conseguiram autorização para importar um medicamento à base de canabidiol, a primeira no país. Anny tinha convulsões epilépticas graves, causadas pela rara síndrome CDKL5. O juiz Bruno César Bandeira Apolinário, da 3ª Vara Federal de Brasília, liberou o uso do remédio por preservar “o direito fundamental à saúde e à vida”. Anos depois, reportagens mostraram o avanço na condição de Anny depois do tratamento à base de CBD.

    Liberação pela Anvisa

    A agência federal responsável pela vigilância sanitária autorizou a importação de remédios com canabidiol em 2015, motivada pela pressão de famílias como a da menina Anny. Até então, pais que importavam esse tipo de medicamento frequentemente tinham que viajar para fora do seu estado de origem para fazer a liberação alfandegária em aeroportos que recebiam a encomenda. Com a medida, além da importação ficar mais fácil, passou a ser possível a realização de pesquisas com canabidiol.

    Lista de remédios

    Em novembro de 2016, a Anvisa aumentou a lista de produtos baseados em CBD e/ou THC que poderia ser importada por meio de um processo mais simples. No total, 11 produtos passaram a ter importação autorizada para pacientes com receita específica. Cada pedido de importação deve ser avaliado e previamente autorizado pela agência.

    Primeiro a ser vendido

    O fitofármaco Mevatyl foi o primeiro remédio derivado de maconha a ter o registro aprovado pela Anvisa. A previsão é de que ele chegue aos pontos de venda em breve, ao preço estimado de R$ 2.837,40 para uma caixa com três frascos de spray de 10 ml cada. De acordo com a bula, o Mevatyl é indicado para alívio da rigidez muscular associada à esclerose múltipla. Cada 100 ml do remédio contém 2,7 mg de Delta-9-tetrahidrocanabinol e 2,5 mg de canabidiol.

    ESTAVA ERRADO: A peça intitulada "Lista de remédios" dizia que a Anvisa tinha autorizado o registro no país de 11 produtos derivados de CBD ou THC. Ela só autorizou a importação, mediante certas condições. A informação foi corrigida às 18h12, de 10/1/2018.

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