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Como uma polêmica levou a Apple a oferecer bateria de iPhones com desconto

Empresa admitiu em dezembro que atualização de software deixa os celulares mais lentos, mas nega que isso cria necessidade de compra de novos aparelhos

 

A fundação Procon SP está questionando a Apple sobre como consumidores devem proceder para tratar de um problema que leva à diminuição da velocidade de iPhones antigos, após atualizações de software. Essa prática foi descoberta e revelada por usuários nos Estados Unidos em dezembro de 2017, discutida em um tópico no fórum on-line Reddit e depois confirmada pela empresa.

A Apple nega que as atualizações busquem diminuir a vida útil dos celulares, forçando usuários a substituí-los, e afirma que elas na verdade evitam que desligamentos inesperados ocorram no caso dos aparelhos com baterias velhas. Após sofrer críticas, a empresa passou a oferecer a troca de baterias com desconto para os iPhones 6, lançados em 2014, ou posteriores.

Em nota à imprensa, o Procon paulista diz que não foi capaz de entregar uma notificação diretamente aos representantes da Apple no Brasil, mas que um documento foi entregue à recepção do prédio onde fica a sede nacional da empresa, em São Paulo. Isso, afirma a entidade, configura uma notificação oficial.

O Procon pede que a Apple esclareça quais são os prejuízos para os consumidores brasileiros, em quais locais o celular pode ser levado para a substituição da bateria e qual é o prazo para que essa troca ocorra. A empresa tem dez dias para responder à notificação. Questionada pelo Nexo, a Apple enviou uma nota padronizada que não aborda explicitamente os questionamentos feitos pelo Procon.

Denúncias surgiram no Reddit

No início de 2017, a Apple lançou a versão 10.2.1 de seu software iOS. Ela não era obrigatória, e tinha como objetivo remediar um problema dos iPhones dos modelos 6, 6s, 6 Plus, 6s Plus e SE, produtos lançados em 2014.

Quando havia picos de atividade, as telas desses celulares se desligavam inesperadamente, e só voltavam a funcionar quando os aparelhos eram conectados a fontes de energia. Segundo a própria Apple, após a atualização o problema deixou de ocorrer na maior parte dos aparelhos afetados.

No início de dezembro, no entanto, participantes do fórum de discussão on-line Reddit levantaram a suspeita de que a atualização vinha tendo um efeito colateral: os celulares estavam mais lentos. E, quando as baterias eram substituídas por novas, os celulares voltavam à velocidade normal. Isso causou estranhamento porque, apesar de se esperar que a duração da carga de uma bateria diminua com o tempo, não é de se esperar que isso afete a velocidade de processamento do celular.

O desenvolvedor radicado no Canadá John Poole buscou comprovar aquilo que os usuários do Reddit vinham observando, e comparou os dados de mais de 100 mil celulares testados pela empresa em que trabalha, a Geekbench. Ela é especializada em análise de desempenho de hardware.

Poole descobriu que, de fato, os aparelhos que possuíam a atualização 10.2.1 tinham uma velocidade de processamento mais lenta do que a daqueles com as versões anteriores do software. Isso acontecia tanto com os modelos de celular que se desligavam durante picos de atividade quanto com a versão 7 do iPhone, que não apresentava o problema. O desenvolvedor divulgou suas descobertas no site da Geekbench.

Após grande repercussão, a Apple confirmou em nota oficial que a atualização levava à desaceleração dos celulares. Ela afirmou que isso tinha como finalidade evitar picos de uso de energia que poderiam levar aos desligamentos inesperados de celulares com baterias antigas, cuja capacidade de manter a carga tende a diminuir.

A empresa afirmou que “há cerca de um ano, lançamos o iOS 10.2.1 com uma atualização de software que melhora o gerenciamento de energia durante picos de cargas de trabalho para evitar desligamentos inesperados (...) em alguns casos, os usuários podem notar um tempo maior na abertura de apps e outras reduções no desempenho”.

A suspeita de ‘obsolescência programada’ e a bateria com desconto

Em outras palavras, a Apple admitiu, após ser questionada, que vinha desacelerando deliberadamente os celulares dos usuários sem que os tivesse alertado. Isso levantou a suspeita de que a empresa estaria implementando uma forma de “obsolescência programada”, que é o nome dado quando empresas planejam produtos de forma que tenham o desempenho prejudicado e precisem ser trocados com o tempo.

Apesar de ser criticada por entidades de defesa do direito do consumidor, a prática não é definida ou explicitamente vetada por lei no Brasil.

Em sua nota oficial, a Apple também nega que esteja diminuindo de propósito a vida útil de seus produtos. “Nunca fizemos — e nunca faríamos — nada para encurtar intencionalmente a vida útil de qualquer produto Apple, nem para prejudicar a experiência e forçar o usuário a trocar de aparelho”, diz a companhia.

Como forma de lidar com a crise de imagem, a empresa anunciou que está reduzindo de R$ 449 para R$ 149 o preço cobrado pela substituição da bateria para o iPhone fora da validade. Segundo a empresa, as trocas por preços mais baixos serão praticadas no mundo todo até dezembro de 2018, para donos de iPhone 6 ou modelos posteriores “que precisem substituir a bateria”. A Apple também afirmou que lançará uma atualização do iOS com recursos que permitem ao usuário verificar o estado da bateria do iPhone.

Em entrevista ao Nexo, Paulo Miguel, presidente dos Procons do Brasil e diretor executivo do Procon paulista, afirma que não acredita que a atualização de software busca intencionalmente tornar os equipamentos obsoletos. Mas que a empresa precisa ser mais clara sobre o processo de substituição das baterias, e que isso deveria ser feito gratuitamente, “não com desconto para quem for procurar”.

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