Foto: Divulgação/David Rumsey Historical Map Collection

Pesquisadores montaram as 60 páginas do mapa-múndi de Monte
Pesquisadores montaram as 60 páginas do mapa-múndi de Monte
 

Em 1587, o cartógrafo milanês Urbano Monte desenhou um mapa do mundo tão detalhado que não cabia em uma só folha de papel. Precisou de 60 páginas para completar a obra. Monte publicou o projeto como um atlas, mas deixou instruções claras sobre como as páginas deveriam ser unidas para formar um enorme mapa-múndi. Agora, mais de 400 anos depois, especialistas da Universidade de Stanford finalmente montaram o “quebra-cabeça” de Monte.

Mas, ao contrário do que previa o cartógrafo, o planisfério não foi montado folha por folha e fixado a uma painel de madeira, com um alfinete no meio, de forma que pudesse girar em torno do próprio eixo. David Rumsey, diretor da coleção de mapas históricos que leva seu nome em Stanford, preferiu que a montagem fosse feita de forma digital.

Rumsey adquiriu o atlas de um colecionador particular em setembro de 2017. Ele não revela o preço que pagou por questões de segurança. Só existe uma outra cópia manuscrita do mapa no mundo. Seu sobrinho Brandon ficou encarregado de escanear a maioria das páginas e encaixá-las virtualmente. Juntas, as páginas formam um mapa de 3 metros quadrados, o maior planisfério do século 16 de que se tem conhecimento.

Foto: Reprodução/David Rumsey Historical Map Collection

Projeção mostra mapa em formato 3D
Projeção mostra mapa visto pelo Google Earth
 

 

As páginas foram disponibilizadas on-line, assim como o planisfério composto. Ele também pode ser visto alinhado ao globo terrestre do Google Earth, o que permite ver quanto o cartógrafo acertou e quando errou. “Estamos convencidos de que qualquer material que esteja livre dos direitos do autor deve estar na Internet com a maior qualidade possível, à disposição de todo mundo”, disse Salim Mohammed, chefe de conservação da Coleção de Mapas Históricos David Rumsey, ao jornal El País.

O que o mapa mostra

O grande diferencial do mapa de Monte é que ele é projetado a partir do Polo Norte. Com isso, as distorções, que necessariamente ocorrem em mapas que representam o globo terrestre em superfície plana, são mais intensas na Antártida. Para Rumsey, Monte decidiu usar o Polo Norte como referência para tentar fazer uma representação, em superfície bidimensional, que fosse o mais parecida possível com a esfera tridimensional da Terra.

Em seu blog, Rumsey explica que a projeção de Mercator, criada pelo matemático flamengo Gerardo Mercator no século 16 e usada na maioria dos mapas até hoje, se popularizou por conservar a forma dos continentes. Mas a projeção de Monte, centrada no Polo Norte, dava uma noção melhor da relação entre os continentes e os oceanos, e voltou a se popularizar com o advento dos aviões, no século 20. Ela é adotada, por exemplo, no símbolo da ONU (Organização das Nações Unidas).

Criaturas extraordinárias

Assim como outros mapas da época, o de Monte foi feito com base no trabalho de outros cartógrafos, como Gerardo Mercator, Abraham Ortelia e Giovanni Gastoldi. Além disso, o mapa traz informações sobre eclipses, sobre o sol, a direção dos ventos e a duração dos dias pelo mundo.

“O mapa nos lembra por que mapas históricos são tão importantes como fontes primárias: a projeção pelo Polo Norte usa as ideias científicas mais avançadas da época; a arte do desenho e da decoração do mapa representa o design em seu nível mais alto; e a visão do mundo à época nos oferece um recurso histórico com a lista de lugares, a forma dos espaços, e os comentários que aparecem no mapa. Ciência, arte e história em um só documento”, escreve Rumsey.

Apesar de representar alguns locais com formato diferente do original, como a ilha do Japão, Monte acerta em regiões ainda pouco exploradas na época, como a Califórnia, que retrata como uma península e não como uma ilha (conforme diversos cartógrafos do século 16 faziam). O planisfério também traz monstros e criaturas fantásticas, comuns em mapas contemporâneos a esse. As figuras eram usadas para não deixar espaços vazios e quando não se sabia muito sobre determinado local. Há sereias na Antártida, dragões na Oceania e um ave carregando um elefante na Argentina. Há ainda representações históricas de então, como barcos da Marinha do Rei da Espanha, imagens do líderes da época, como o rei Felipe 2º, da Espanha, e o rei de Portugal (que ele não identifica).

O mapa traz também dois autorretratos do próprio Monte, cuja história não é muito conhecida. De acordo com a revista National Geographic, ele veio de uma família rica e bem relacionada de Milão. Como muitos homens educados da época, interessava-se por geografia. “O mundo deles crescia a cada dia, e Monte queria entender tudo isso”, escreve a historiadora Katherine Parker.

 

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