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Como o transplante de microbiota fecal pode revolucionar o tratamento de doenças

Apesar de eficiência no combate a infecções intestinais, procedimento ainda carece de reconhecimento e regulação

     

    O nome e a ideia estão longe de serem atraentes. Mas o transplante de microbiota fecal (FMT) é um tratamento que oferece a possibilidade de cura para infecção intestinal onde outros métodos se provam limitados.

    A medicina chinesa já prescrevia medicação fecal há cerca de 3.000 anos, no mais antigo livro de receitas do país, a “Coleção de 52 receitas”. Em anos recentes, médicos e hospitais nos Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Brasil vêm testando e utilizando a introdução de micro-organismos saudáveis em pessoas doentes por meio da transferência de fezes.

    Sua aplicação principal se dá em casos de contaminação hospitalar causadas pela bactéria Clostridium difficile. Ela surge em indivíduos que passam por tratamento com grande uso de antibióticos, que acabam aniquilando muito da flora ou microbiota intestinal, composta de trilhões de organismos, benéficos ou não.

    Ao devastar a microbiota, a medicação facilita a atuação da bactéria, que infecta meio milhão de americanos a cada ano e provoca 30 mil mortes anuais, também nos Estados Unidos.

    Os doadores são selecionados previamente. Devem ser indivíduos maiores de idade, em geral parentes ou amigos dos pacientes

    De acordo com o site da Biome, ONG que atua para expandir acesso a esse tipo de tratamento nos EUA, a contaminação por Clostridium difficile é uma das infecções hospitalares mais comuns do país.

    O paciente afetado pela bactéria apresenta quadros de diarreia aguda, dores abdominais e náusea. Há relatos de casos extremos em que o paciente vai ao banheiro 15 vezes ao dia, com febre, perda de peso e cãibras e dores no abdome.

    Segundo o gastroenterologista Luiz Gonzaga Vaz Coelho, coordenador do Centro de Transplante de Microbiota Fecal do Hospital das Clínicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), projeto pioneiro no país, esse tipo de infecção afeta 20% dos pacientes internados. Aproximadamente 5% podem apresentar quadros de diarreia. 

    “Tudo começa quando a pessoa usa algum antibiótico para tratar uma doença. Como efeito colateral, o remédio mata uma parte excessiva dos trilhões de bactérias presentes no intestino. Isso permite que uma bactéria patogênica, a Clostridium difficile, reproduza-se, causando dores e diarreias terríveis”, afirmou o médico ao jornal O Tempo.

    Experimentos clínicos em diversos países também sugerem que o transplante de microbiota pode contribuir para o combate a condições como colite ulcerativa, síndrome do intestino irritável, obesidade, mal de Parkinson, esclerose múltipla, ansiedade e depressão. Entretanto, são apenas pesquisas preliminares ou relatos anedotais que carecem de comprovação científica.

    Como funciona

    Para o transplante é preparada uma solução composta por substrato fecal de indivíduos saudáveis e soro fisiológico. Cerca de 300 mil do líquido são lançados no intestino delgado do paciente doente por colonoscopia, via sonda. O procedimento dura cerca de 15 minutos.

    Os doadores são selecionados previamente. Devem ser indivíduos maiores de idade, em geral parentes ou amigos dos pacientes. São realizados exames de sangue, urina e fezes para certificar de que o doador não possui vírus em seu organismo.

    Em dezembro de 2017, o Hospital das Clínicas UFMG se preparava para realizar o primeiro procedimento de FMT, depois de inúmeros testes

    O paciente que recebe o transplante pode ser sedado para evitar que sinta nojo ou náusea durante o procedimento.

    “O transplante de fezes funciona em 90% dos casos, porque o material transferido contém uma microbiota saudável, que, entre 24 horas e 48 horas, cessa a diarreia, recoloniza a região e impede a proliferação da Clostridium difficile”, disse o doutor Vaz Coelho, do HC da UFMG.

    Nos EUA, existem desde 2014 pílulas com matéria fecal que também podem ser tomadas para combater a Clostridium difficile. Um estudo de novembro de 2017 do Journal of the American Medical Association afirmou que a eficiência das pílulas é a mesma do transplante.

    Quem realiza o procedimento

    No Brasil e no exterior, ainda é raro encontrar profissionais e locais habilitados para este tipo de tratamento.

    Em dezembro de 2017, o hospital da UFMG se preparava para realizar o primeiro procedimento de FMT, depois de inúmeros testes. Dois anos antes, o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, publicou um estudo a partir de uma experiência com 12 pacientes. Foram registrados também experimentos em Campinas e São José do Rio Preto, cidades do interior de São Paulo.

    Nos EUA, a FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora de alimentos e remédios, decidiu permitir o tratamento em casos agudos de infecção de C. difficile em 2013. O procedimento permanece sem aprovação pelo órgão, entretanto, e os bancos de fezes não são regulados. Com isso, esse tipo de tratamento não pode ser feito por meio de plano médico.

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