Ir direto ao conteúdo

O aplicativo criado por Edward Snowden para alertar contra invasores

Americano exilado na Rússia busca usar o poder dos celulares para vigiar todo o ambiente ao redor deles

 

Exilado desde 2013 na Rússia, após ter delatado um poderoso esquema global de espionagem do governo americano que envolvia a cooperação de empresas de telecomunicação e atingia a população dos Estados Unidos, Edward Snowden tem motivos para temer ser espionado.

No documentário Citizenfour (2014), em que a jornalista Laura Poitras acompanha Snowden e conta a história do vazamento, o delator toma precauções em diversos momentos, como pedir que jornalistas guardem seus celulares em geladeiras para evitar que áudios ou vídeos sejam gravados e transmitidos para espiões.

Com esse tipo de receio em mente, Snowden é um dos responsáveis por um aplicativo de código aberto que busca proteger de jornalistas investigativos a defensores de direitos humanos. Uma versão beta do programa, chamado Haven, foi lançada no dia 23 de dezembro de 2017. Ele usa os sensores, câmera e microfone do celular para alertar quando alguém entra em um cômodo e chega perto de algo - um laptop, por exemplo - que precisa ser protegido.

O aplicativo precisa de dois celulares para funcionar, e está disponível apenas para Android. Um dos celulares, aquele com Haven instalado, deve ser posicionado próximo ao local ou ao item a ser protegido. Quando os sensores detectam movimentos ou alterações de luz, esse celular passa a tirar fotos, gravar sons e registrar as mudanças de luz e movimentos. Todas essas informações são criptografadas com uso do aplicativo Signal e enviadas para o outro celular, que deve ser o utilizado cotidianamente pelo proprietário.

Ele fica, dessa forma, ciente de ataques cometidos contra seu hardware quando não o está observando, algo em geral difícil de detectar. O aplicativo é de especial interesse para ativistas e jornalistas preocupados com perseguições por agências de inteligência e da polícia, mas também pode ser utilizado por qualquer um que receie que algo de valor especial seja remexido ou roubado, ou mesmo que deseje ser alertado caso alguém entre em algum cômodo de sua casa. O aplicativo aumenta os riscos de que o oponente seja pego no ato.

O aplicativo foi desenvolvido em parceria com o The Guardian Project, um coletivo internacional de desenvolvedores de software, e pela Freedom of the Press Foundation, uma entidade que apoia jornalistas e fontes.

Em um vídeo de divulgação do aplicativo, Snowden avalia que, com equipamentos como acelerômetros e câmeras, por exemplo, celulares têm “o poder de entender tudo o que está acontecendo ao redor deles”. E que isso poderia ser utilizado “para fazer algo bom, algo mais do que simplesmente deixar o Facebook rastrear todo mundo que você ama”. Ao vigiar o ambiente físico, o Haven chega onde firewalls não conseguem chegar.

Segundo uma reportagem do site da revista Wired, focada em tecnologia, o aplicativo foi testado em novembro de 2017 pelo grupo ativista colombiano Movilizatorio, que busca fomentar a participação popular em processos políticos.

A fundadora da entidade, Juliana Uribe Villegas, afirmou que “é muito significativo que eles saibam que há ferramentas que podem usar quando o governo não os estiver protegendo. É ótimo pensar em cibersegurança, mas, em países como o nosso, segurança pessoal ainda está no topo da lista”.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!