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O que é a síndrome do choque tóxico, causada pelo uso de absorventes internos

Modelo americana afirma ter perdido uma das pernas devido à síndrome, considerada extremamente rara

     

    A modelo americana Lauren Wasser, de 29 anos, que há cinco perdeu parte da perna devido à síndrome do choque tóxico, anunciou que provavelmente terá de passar por uma segunda amputação, dessa vez na perna esquerda. Wasser afirma que desenvolveu o problema devido ao uso de absorventes internos.

    A modelo afirma que sentiu sintomas parecidos com os de uma gripe durante seu período menstrual, mas não os relacionou com o uso de absorvente interno. Seu quadro piorou e ela foi encontrada pela polícia caída em seu apartamento. Levada ao hospital, sofreu uma parada cardíaca, foi mantida em coma induzido e diagnosticada com a síndrome do choque tóxico. O problema levou a equipe médica a amputar parte de sua perna direita e alguns dedos do pé esquerdo. Mesmo depois da cirurgia, a modelo afirma que sente muita dor. Por isso, será preciso amputar também a outra perna. 

    Atualmente, Wasser faz campanha para conscientizar as pessoas sobre a síndrome do choque tóxico e exigir mais transparência das empresas que produzem absorventes internos. Ela trabalha pela aprovação de uma lei que deixe mais claro, para os consumidores, o risco de síndrome do choque tóxico associado ao uso de tampões. “A síndrome tem matado e prejudicado mulheres há mais de 30 anos: essa ficha precisa cair. Quantas vidas mais terão de ser tiradas para que algo mude?”, escreveu em um depoimento à revista InStyle

    Foto: Jennifer Rovero /Instagram
    Warren pode perder outra perna
    Warren pode perder outra perna
     

    A modelo também processou a empresa Kimberly-Clark, que produz o absorvente Kotex, marca usada por ela, além da loja onde ela comprou o produto, de acordo com a Vice. No processo, os dois foram acusados de serem “negligentemente, irresponsavelmente, descuidadamente, tortuosamente e ilegalmente responsáveis [pelo ocorrido] de alguma forma”. O jornal The Washington Post questionou Wasser sobre o processo, e ela disse que não poderia comentar. A Kimberly-Clark afirmou que o assunto havia sido resolvido.

    Nos Estados Unidos, o FDA (órgão responsável por liberar o uso de produtos e medicamentos) afirma que todos os produtos aprovados para a venda são considerados seguros. No Brasil, a Anvisa informou ao Nexo que os absorventes internos são isentos de registro e, até o momento, as fabricantes não são obrigadas a informar sobre possível relação entre síndrome do choque tóxico e absorventes internos nas embalagens. A partir de 2018, a Anvisa afirma que algum tipo de alerta deverá ser introduzido.

    Apesar disso, as principais marcas de absorventes internos vendidos no Brasil, Intimus e o.b., trazem a advertência na embalagem. Procurada pela reportagem, a Intimus, da Kimberly-Clark, informou que os componentes do produto são atóxicos, passam por inspeções de qualidade regularmente e seguem os padrões da Anvisa. A marca recomenda a troca do absorvente no máximo em oito horas para evitar a propagação de bactérias. A marca o.b., da Johnson & Johnson, informou que a segurança do produto já foi comprovada por estudos e testes. A recomendação também é de que o produto seja trocado de oito em oito horas.

    O que é síndrome do choque tóxico

    A síndrome do choque tóxico é rara, mas pode levar à morte do paciente. De acordo com o infectologista Jaques Sztajnbok, do Hospital Emilio Ribas, em entrevista ao Nexo, ela pode ser causada pelas bactérias Streptococcus pyogenes e Staphylococcus aureus. A primeira, de acordo com ele, normalmente está associada a algum tipo de infecção no corpo. A segunda costuma ser associada ao uso de absorventes internos. O quadro de síndrome do choque tóxico é semelhante ao de um choque séptico, conhecido como infecção generalizada ou sepse.

    Qual a relação entre absorvente interno e a síndrome

    Segundo três especialistas consultados pelo Nexo, é extremamente raro que o uso de absorventes internos resulte em síndrome do choque tóxico. Há um risco quando o tampão é usado por mais tempo do que o indicado nas instruções de uso, ou quando o produto tem um nível extra de absorvência. O que pode ocorrer, de acordo com Sztajnbok, é que as bactérias presentes no tampão liberem toxinas que são absorvidas pela vagina, levado à infecção.

    José Maria Soares Jr., ginecologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, disse ao Nexo que, em geral, pacientes que desenvolvem a síndrome do choque tóxico têm outras condições de saúde, como diabetes, desnutrição ou doenças imunológicas, ou seja, um quadro clínico mais complexo. Marcia Carneiro, professora da Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), também afirmou ao Nexo que a síndrome é rara e diz que não há contraindicações para o uso do absorvente interno. Barbara Murayama, ginecologista e coordenadora da Clínica da Mulher do Hospital 9 de Julho, em São Paulo, afirmou em entrevista ao Nexo que não é recomendado dormir com absorventes internos. Segundo ela, o ideal é trocar o produto a cada quatro horas. Caso a mulher use o produto corretamente, de acordo com ela, “o risco de contaminação é mínimo”.

    Outros produtos usados por mulheres também podem estar relacionados à síndrome, como diafragma, coletor menstrual e, segundo Murayama, até absorvente externo. De acordo com ela, o mais importante para prevenir riscos é, além da higiene das mãos, seguir as instruções de uso de cada produto.

    Quais são os sintomas

    De acordo com o Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla em inglês), os sintomas podem incluir febre alta, sinais semelhantes à gripe (dor de cabeça, dor muscular, dor de garganta e tosse), enjoo, diarreia e sensação de queimação de sol. Além disso, o branco dos olhos, os lábios e a língua podem ficar mais avermelhados, pode haver tontura e desmaio, dificuldades para respirar e confusão mental.

    Segundo o NHS, é improvável que, ao apresentar esses sintomas, a pessoa tenha síndrome do choque tóxico. Mesmo assim, quando eles aparecem em conjunto, é preciso procurar ajuda médica. Se a pessoa estiver usando absorvente interno, deve retirá-lo imediatamente e avisar ao médico sobre isso. De acordo com Sztajnbok, o que marca a síndrome do choque tóxico é sua evolução muito rápida, levando a um quadro grave que exige hospitalização.

    Qual o tratamento

    O tratamento, feito no hospital, pode envolver uso de antibióticos, oxigênio para ajudar a respirar, uso de fluidos para impedir desidratação, medicamentos para controlar e pressão sanguínea e hemodiálise, se os rins pararem de funcionar. Em casos extremos, é preciso fazer cirurgia para remoção de tecido morto. E, raramente, é preciso amputar o membro afetado.

    Como prevenir a síndrome

    Algumas medidas podem prevenir o risco de desenvolver síndrome do choque tóxico. Entre elas estão escolher absorventes internos com o nível de absorção adequado para seu ciclo (e para o momento do ciclo) e não usar o produto por tempo maior do que o indicado, que pode ser encontrado na bula do produto. Também se aconselha não usar somente absorvente interno durante o ciclo menstrual, alternando com o externo, e lavar bem as mãos antes de inserir o absorvente interno. Não usar dois tampões ao mesmo tempo e, se for necessário dormir com um deles, certificar-se de colocar um absorvente novo antes de deitar e retirá-lo assim que acordar.

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