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As dicas de ‘fact-checking’ do astrônomo Carl Sagan

Em livro de 1996, especialista sugere fontes independentes e desconfiança com relação a ‘autoridades’

     

    O astrônomo americano Carl Sagan foi um incansável divulgador da ciência. Ele se tornou uma figura popular nas décadas de 70 e 80, em especial graças ao livro e à série científica de TV “Cosmos”, que falava sobre o universo e a origem da vida de maneira acessível (a série foi refeita em 2014 com o cientista Neil deGrasse Tyson como apresentador).

    Sagan morreu em 1996, aos 62 anos, deixando um legado de 600 artigos acadêmicos e 20 livros. Seu trabalho, em especial na pesquisa por formas de vida extraterrestres, o qualificou para coordenar a preparação do disco com mensagens e registros da Terra que viajou a bordo da nave Voyager, lançada em 1977.

    Em "O mundo assombrado pelos demônios", publicado nos Estados Unidos em 1995, Sagan procurou rebater o que via como um preocupante aumento na propagação da mistificação e da pseudociência nos meios de comunicação.

    O cientista mal podia imaginar o que estava por vir com a popularização da internet, que teve como um de seus subprodutos a viralização de notícias e informações falsas em escala global.

    Um dos capítulos do livro, intitulado “A bela arte de detectar mentiras”, fornece dicas e orientações para se proteger do conteúdo inventado que, embora concebidas para o contexto científico, podem servir para usos diversos em tempos de “pós-verdade” e “fact-checking”.

    A lista segue abaixo:

    1. Sempre que possível deve haver confirmação independente dos “fatos”.
    2. Encoraje debate fundamentado a respeito das provas por proponentes informados de todos os pontos de vista.
    3. Argumentos vindos de autoridades têm pouco peso — “autoridades” cometeram erros no passado. Elas errarão de novo no futuro. Talvez uma maneira melhor de dizer isso é que na ciência não existem autoridades; no máximo, são especialistas.
    4. Tente mais de uma hipótese. Se há algo a ser explicado, pense em todas as diferentes maneiras em que isso pode ser explicado. Pense então em testes pelos quais você pode sistematicamente refutar cada uma das alternativas. O que restar, ou seja, a hipótese que melhor resistir à contra-argumentação nesta seleção darwiniana entre “hipóteses válidas múltiplas”, terá uma chance maior de ser a resposta certa do que se você simplesmente tivesse aderido à primeira ideia que lhe chamou a atenção.
    5. Tente não se apegar demais a uma hipótese apenas porque ela é sua. Ela é apenas uma estação de passagem na busca pelo conhecimento. Pergunte a si mesmo por que você gosta dessa ideia. Compare-a de maneira justa com as alternativas. Veja se você pode encontrar motivos para rejeitá-la. Se não o fizer, outros o farão.
    6. Quantifique. Se o que quer que você esteja explicando possui alguma medida, alguma quantidade numérica relacionada, você terá muito mais capacidade de discriminar entre hipóteses rivais. O que é vago e qualitativo está aberto a muitas explicações. É claro que há verdades a serem buscadas nas muitas questões qualitativas que somos obrigados a confrontar, mas encontrá-las é muito mais desafiador. 
    7. Se há uma sequência de argumentos, todo elo na corrente precisa funcionar (incluindo a premissa) — e não apenas a maior parte deles.
    8. Navalha de Occam. Esta conveniente regra de ouro exige que, diante de duas hipóteses que explicam igualmente bem os dados, devemos escolher a mais simples.
    9. Sempre pergunte se a hipótese pode ser, pelo menos em princípio, falsa. Proposições que não são testáveis nem passíveis de falsificação não valem muito. Considere a grandiosa ideia de que nosso Universo e tudo nele é apenas uma partícula elementar — digamos, um elétron — em um cosmo muito maior. Mas se nunca conseguiremos adquirir informações de fora do nosso Universo, não seria essa ideia incapaz de se refutar? Você precisa ser capaz de checar as afirmações. Céticos inveterados precisam ter a chance de acompanhar seu raciocínio, duplicar seus experimentos e ver se eles conseguem o mesmo resultado.

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