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Quem foi Nise da Silveira, pioneira no tratamento psiquiátrico no Brasil

Exposição com acervo da psiquiatra alagoana fica em cartaz até final de janeiro no Itaú Cultural, em São Paulo

     

    Em 14 de dezembro, o Ministério da Saúde aprovou mudanças na política de saúde mental brasileira. A principal, segundo o jornal Folha de S. Paulo, é a de que os hospitais psiquiátricos voltarão a fazer parte da rede de atendimento em saúde mental, com o aumento no número de leitos disponíveis e da verba para manter cada um deles. 

    Embora a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e o CFM (Conselho Federal de Medicina) sejam favoráveis às mudanças, por acreditarem que a política atual é falha, na prática a decisão vai contra a Lei da Reforma Psiquiátrica, em vigor desde 2001, que buscava diminuir o número de hospitais psiquiátricos abertos no Brasil. “É a maior ameaça à política de saúde mental desde 1990”, disse Leon Garcia, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. O Conselho Federal de Psicologia também não é favorável à nova regra.

    Trata-se de uma mudança significativa em relação ao posicionamento de boa parte da comunidade médica, que tem em Nise da Silveira (1905-1999) um de seus maiores expoentes. Nise passou boa parte de sua vida tentando modificar o tratamento de pessoas com distúrbios mentais. A abordagem humanista de Nise é tema de uma exposição no Itaú Cultural, em São Paulo, que fica em cartaz até 28 de janeiro de 2018.

    O que é a exposição

    A mostra faz parte da 36ª edição da Ocupação Itaú Cultural, que homenageia artistas e figuras importantes para a história brasileira. No ano de 2017, apenas mulheres foram homenageadas - entre elas, Conceição Evaristo e Inezita Barroso.

    Uma escolha que, de acordo com o coordenador de comunicação do Itaú Cultural, Carlos Costa, foi feita para dar protagonismo a mulheres que não haviam sido priorizadas até então. Desde 2009, quando o Itaú Cultural fundou o programa, 36 homenageados passaram por suas instalações; entre eles, apenas 10 mulheres.

    Duas instituições são responsáveis por gerir seu acervo: o Instituto Municipal Nise da Silveira e o Museu de Imagens do Inconsciente, ambos localizados no Rio de Janeiro. Antes da mostra no Itaú Cultural, o acervo de Nise da Silveira e de seus clientes tinha sido explorado apenas uma vez pelo diretor do Museu de Imagens do Inconsciente do Rio de Janeiro, Luís Carlos Mello, que produziu uma fotobiografia sobre a história da psicoterapeuta.

    Ao todo, o processo de organização e entendimento do acervo durou um ano e meio. Do material encontrado, estão presentes na mostra os textos de estudo e trabalho de Nise da Silveira, chamados de “capins” por ela. Todos os textos originais estão marcados e reescritos pela autora.

    Foto: Acervo Museu de Imagens do Inconsciente
    Desenho de uma mandala por Carlos Pertius, um dos clientes de Nise da Silveira

    A trajetória de Nise

    Nascida em Maceió (AL), Nise da Silveira ficou conhecida por seu trabalho como psicoterapeuta e pela luta antimanicomial. Filha única, Nise se mudou aos 15 anos para Salvador para frequentar a Faculdade de Medicina da Bahia. Na turma de 158 alunos do curso, era a única mulher.

    Na faculdade, Nise viveu o cotidiano universitário com seu primo Mário Magalhães da Silveira, que mais tarde se tornaria seu marido. Em entrevista ao Nexo, a professora de teoria literária da USP, Vilma Arêas, relembra os trejeitos e histórias da psicoterapeuta, de quem foi amiga por muitos anos. “Nise era uma pessoal especial. Delicada, reservada, forte, pequena, magra, intensa e corajosa”, disse.

     

    Em 1926, Nise da Silveira se formou médica. Meses depois, após a morte do pai, mudou-se com o marido para o Rio de Janeiro. Arêas conta que Nise chegou à capital carioca com um pacote para entregar a uma amiga esquizofrênica de sua mãe. Esse evento foi decisivo, conta Arêas, para Nise se interessar pelo trabalho em hospitais psiquiátricos.

    “Essa [mulher] reconheceu uma palavra errada. E Nise tinha aprendido [na faculdade] que pessoas esquizofrênicas perdem a capacidade de amar, a sentimentalidade e a emocionalidade. Ela [a Nise] me contou que foi a maior emoção da vida dela ver que aquela mulher tinha reconhecido que uma palavra estava errada. Havia inteligência ali.”

    Vilma Arêas

    em entrevista ao Nexo

    Em 1936, durante o governo de Getúlio Vargas, Nise foi aprovada no concurso público para trabalhar no Hospital da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Uma enfermeira do local onde Nise da Silveira trabalhava notou a presença de livros sobre marxismo sobre a mesa e a denunciou por comunismo. Nise foi presa em 26 de março de 1936 e posta em liberdade mais de 1 ano depois, em 21 de junho de 1937.

    “Perdi o emprego e fiquei afastada do serviço público, obtido por concurso, durante oito anos, sob a alegação de pertencer a um círculo de ideais incompatíveis com a democracia. Eu tinha contato com o Partido Comunista, mas não era uma militante política ativa.”

    Trecho do livro Nise da Silveira – caminhos de uma psiquiatria rebelde, de Luiz Carlos Mello

    Nise voltou a trabalhar no serviço público em 1944. Foi no Centro Psiquiátrico Pedro II, posteriormente conhecido como Engenho de Dentro, o primeiro hospício do Brasil, que ela teve acesso ao tratamento psiquiátrico adotado nesses lugares. Nos manicômios da época, lobotomia, eletrochoque e choque insulínico eram comuns.

     

    Em 1946, Nise fundou uma ala no hospital chamada Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (Stor), além de um ateliê de pintura, um espaço onde seus “clientes”, termo usado por ela, poderiam, por meio da arte, mostrar seus sentimentos e percepções.

    Quatro meses depois, Nise expôs a primeira leva de trabalhos de seus clientes. A presença das cores e as mandalas começaram a chamar a atenção de estudiosos da psiquiatria. Em 1949, a exposição “Nove Artistas de Engenho de Dentro” foi inaugurada no Salão Nobre da Câmara Municipal no Rio de Janeiro. Com o reconhecimento de seu trabalho, Nise consegue expor o trabalho de seus clientes anualmente. 

     

    Nise e a análise junguiana

    Durante seu trabalho no hospital psiquiátrico Engenho de Dentro, Nise da Silveira buscou teóricos que pudessem explicar o fenômeno artístico que observava com seus clientes. Um dos autores que mais a impactaram foi o psiquiatra Carl Jung (1875-1961).

    Em 1954, Nise escreveu uma carta para Jung, onde fala dos desenhos que recebia durante as sessões terapêuticas. Nise ressalta a liberdade artística de seus clientes: “Nenhuma sugestão lhes é dada, nenhum modelo lhes é proposto. E, assim, imagens primordiais emergem nessas pinturas, trazendo uma empírica e convincente demonstração da psicologia analítica”, escreveu.

    “Com minhas mais respeitosas homenagens, eu lhe envio algumas fotografias de pinturas que me parecem mandalas. Elas foram pintadas por esquizofrênicos, espontaneamente. Qualquer possibilidade de influência cultural está descartada.”

    Trecho da carta escrita por Nise da Silveira para Jung, em 12 de novembro de 1954

    As formas presentes nos desenhos e pinturas dos clientes de Nise chamavam atenção por sua forma. As mandalas, formas perfeitas e retas, contrastavam com o caos que muitos clientes portadores de esquizofrenia de Nise apresentavam. Eram formas também presentes no estudo de Jung.

    Jung respondeu a carta de Nise com várias perguntas: “O que esses desenhos disseram aos doentes, no que se refere aos seus sentimentos? O que eles queriam expressar por essas mandalas? Será que os desenhos têm alguma influência sobre eles?”

    A partir da troca de cartas, Nise foi convidada por Jung em 1957 para o Congresso Internacional de Psiquiatria em Zurique, na Suíça. No encontro, novamente as mandalas encontradas nas pinturas dos clientes de Nise chamaram a atenção do psiquiatra suíço.

    Para Paula Perroni, analista junguiana e diretora do Instituto Junguiano de São Paulo, Nise conseguiu materializar alguns conceitos junguianos com as telas pintadas de seus clientes. Ela explica que as mandalas já tinham aparecido para Jung nos desenhos de seus pacientes. “Ele pesquisou e percebeu que a mandala é uma imagem atemporal e antiga, presente no inconsciente coletivo”, disse, em entrevista ao Nexo.

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