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O ano de 2017 para as mulheres, no Brasil e no mundo

Denúncias de assédio sexual na TV Globo e em Hollywood, PEC 181, mulheres dirigindo na Arábia Saudita. Relembramos os fatos do ano

Há dois anos, em 2015, um movimento chamado de “Primavera Feminista”, formado principalmente por mulheres, tomou as ruas de várias cidades brasileiras para protestar contra a figura do então presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e um projeto de lei que faria retroceder o direito ao aborto no país.

Essa “primavera” pode não ter garantido que outros projetos de lei como esse surgissem desde então. Mas manifestações semelhantes, em âmbito nacional e internacional, com hashtags, denúncias de assédio e abuso nas redes sociais, têm continuado a alimentar as discussões sobre feminismo, gênero e outras lutas identitárias, e ampliado seu alcance.

O ano de 2017 foi o ano da campanha #MeToo (Eu também), que teve início nos EUA, com o compartilhamento de relatos de assédio sofrido por mulheres de Hollywood; dos protestos contra a PEC 181 no Brasil; da permissão para mulheres tirarem carteira de motorista na Arábia Saudita. O Nexo recapitula abaixo, cronologicamente, 15 fatos marcantes do ano.

JANEIRO

A Globeleza vestida na televisão

A TV Globo exibe anualmente, no período que antecede o Carnaval, uma vinheta temática que tem como protagonista a “mulata Globeleza”. Ao longo de 26 anos, várias mulheres negras interpretaram a personagem em um papel até então constante: o de dançar como uma passista ao som da música da emissora, com o corpo praticamente nu, coberto de pinturas coloridas. Aspectos como a sexualização do corpo da dançarina e o uso da palavra “mulata” vinham sendo muito criticados por ativistas negras. Em 2017, a vinheta foi modificada: ilustrou os carnavais do Brasil, exibiu outros personagens além da passista, como mulheres de diferentes etnias e bailarinos homens, e trouxe a Globeleza vestida.
 

O protesto das mulheres americanas contra Trump

Milhões de mulheres marcharam em cidades americanas no final de janeiro, no dia seguinte à posse do presidente Donald Trump. A mobilização se tornou a maior de um único dia na história dos Estados Unidos. As manifestantes mostraram resistência antecipada aos ataques a direitos sexuais e reprodutivos, como o direito ao aborto, previsto na legislação de alguns estados americanos, e à própria figura de Trump, alvo de múltiplas denúncias de assédio sexual contra mulheres.

 

FEVEREIRO

A descriminalização da violência doméstica na Rússia

Um projeto de lei que descriminalizou a violência doméstica na Rússia, nos casos em que a agressão não cause danos à saúde da vítima e em que não haja repetição do ato, foi sancionado pelo presidente Vladimir Putin no início de fevereiro. Até 2016, a lei russa não fazia distinção entre a violência doméstica e outras formas de agressão. A lei que criminaliza especificamente a violência contra familiares foi aprovada em junho daquele ano. Não chegou, portanto, a completar um ano em vigor.

MARÇO

O discurso do presidente Michel Temer no 8 de março

Em discurso no Palácio do Planalto pelo Dia Internacional da Mulher, Temer restringiu o papel das mulheres à criação dos filhos e administração do lar. "Na economia também a mulher tem grande participação. Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes de preços no supermercado do que a mulher", disse o presidente. Essa e outras frases do discurso geraram intensos protestos nas redes sociais.

A denúncia de assédio contra o ator global José Mayer

Uma denúncia de assédio sexual feita no dia 31 de março contra o ator José Mayer levou, nos dias que se seguiram, à mobilização de atrizes e outras profissionais da área a favor da colega assediada, ao posicionamento da TV Globo, que o afastou de produções futuras por tempo indeterminado, e à retratação do ator. Victor Chaves, da dupla Victor e Léo, já havia sido afastado pela TV Globo do programa The Voice Brasil, do qual participava semanalmente, devido a uma denúncia de agressão pela esposa em fevereiro.

 

ABRIL

 O caso de violência contra a mulher no Big Brother Brasil

Na reta final da disputa pelo prêmio do Big Brother Brasil 17, reality show da TV Globo, o participante Marcos Harter foi expulso do programa por ter agredido Emilly Araújo, com quem mantinha um relacionamento desde o início do programa. As imagens de intimidação, agressão psicológica e física cometidas por Harter serviram para que um inquérito fosse aberto pela delegada titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) de Jacarepaguá, no Rio, Viviane da Costa. Na noite do dia 10 de abril, quando a TV Globo anunciou a saída de Harter, menções de apoio a ele estavam nos trending topics do Twitter. No dia seguinte, os relatos de relacionamentos abusivos vividos por mulheres ganharam força com a hashtag #EuViviUmRelacionamentoAbusivo.

AGOSTO

As denúncias de assédio contra motoristas de aplicativos

Depois de ter sofrido violência sexual por um motorista do Uber (que foi desconectado da empresa), a escritora Clara Averbuck lançou, com o apoio de outras mulheres, as hashtags #MeuMotoristaAssediador e #MeuMotoristaAbusador. Mulheres se solidarizaram com a escritora e compartilharam nas redes sociais seus próprios relatos de abuso e assédio cometido por motoristas.

O avanço do aborto no Chile

O Congresso chileno aprovou, durante a segunda administração da presidente Michelle Bachelet (2014-2018), a descriminalização do aborto em caso de risco de vida da mulher, inviabilidade fetal e estupro. São os mesmos casos que valem para o Brasil. Antes, o aborto era totalmente proibido no país, um dos últimos legados da ditadura de Augusto Pinochet, que chegou ao fim em 1989.

 

SETEMBRO

Raquel Dodge na Procuradoria-Geral da República

Raquel Dodge substituiu o ex-Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, e se tornou a primeira mulher a chegar ao cargo no Brasil. Trata-se da posição de maior importância do Ministério Público, órgão responsável pelas acusações no Brasil, que ganhou ainda mais destaque com a Operação Lava Jato - o procurador em exercício é responsável por resguardar a constituição e apresentar denúncias contra quem comete crimes no âmbito federal.

Mulheres sauditas no volante (agora legalmente)

Em 2011, mulheres sauditas organizaram uma ação em que postaram imagens e vídeos delas próprias dirigindo carros. O protesto afrontava o regime conservador do país, que, até agora, não permitia que mulheres adquirissem carteiras de motorista. A mudança veio apenas em 2017, quando um decreto tornou lícita a direção das mulheres, medida que é significativa no contexto de um regime extremamente restritivo quanto à atuação das mulheres no espaço público.

OUTUBRO

O encontro Mulherio das Letras em João Pessoa

O 1º Encontro do Mulherio das Letras reuniu mais de 500 mulheres de todas as idades e lugares do país em João Pessoa, capital da Paraíba. O encontro literário foi uma iniciativa da escritora Maria Valéria Rezende.  Rezende se indignou com a falta de mulheres entre os ganhadores do Prêmio Jabuti 2016, e, numa conversa com outras escritoras, resolveu criar um grupo no Facebook, que em outubro  promoveu seu primeiro encontro presencial. 

O caso Harvey Weinstein e a campanha #MeToo

A partir, inicialmente, de investigações feitas por veículos de mídia americanos, como o jornal The New York Times e a revista New Yorker, denúncias de assédio sexual contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein feitas por profissionais do meio vieram a público. As acusações se multiplicaram sob a hashtag #MeToo (Eu também), alastrando-se inclusive para outros meios, como a política e gastronomia. O caso já é visto como um ponto de inflexão na forma como a sociedade trata assédios e abusos sexuais. As mulheres do #MeToo foram nomeadas “pessoa do ano” pela revista Time.

 

NOVEMBRO

Os protestos contra a PEC 181

No dia 8 de novembro, uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados aprovou a PEC 181/15, proposta de emenda constitucional que pode suspender o direito ao aborto em todas as circunstâncias no Brasil.

O texto original, de autoria do senador Aécio Neves (PSDB-MG), visava a ampliar o direito à licença-maternidade da mãe, caso o bebê nasça prematuro. Porém, com duas substituições, o texto passou a interferir nos artigos da Constituição que tratam do direito à vida, impossibilitando legalmente o aborto mesmo em casos de estupro.  Por essa razão, está sendo chamada de “Cavalo de Troia” e levou feministas às ruas.

 

A primeira mulher a pedir ao STF para abortar

Por meio de uma ação apresentada pelo PSOL e pela Anis – Instituto Bioética, a estudante de Direito e mãe de dois filhos Rebeca Mendes apresentou ao Supremo Tribunal Federal uma liminar para interromper uma gravidez indesejada de algumas semanas. Em solidariedade à Rebeca, mulheres se manifestaram nas redes sociais e compartilharam suas experiências de aborto. A ministra do Supremo Rosa Weber negou o pedido e Rebeca conseguiu realizar o procedimento na Colômbia. 

DEZEMBRO

Feminismo é a palavra do ano

O dicionário americano Merriam-Webster elegeu “feminismo” como palavra do ano. Segundo o site da editora, o termo esteve entre os mais buscados online durante o ano todo, com vários picos correspondentes a eventos e notícias do momento, como durante a Women’s March, em janeiro, e mais recentemente, durante a onda de denúncias de assédio provocadas pelo #MeToo.

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