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5 formas como depressão e ansiedade se manifestam, segundo esta pesquisa

Trabalho tem como objetivo “desfazer o emaranhado” de sintomas que se sobrepõem em diagnósticos

 

Muitos transtornos de humor, ansiedade e trauma compartilham sintomas entre si. Por exemplo: muitas pessoas sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático têm pensamentos assustadores e dificuldade de dormir, assim como muitos daqueles que sofrem de depressão. Mas pessoas sofrendo do mesmo transtorno podem apresentar sintomas bastante diferentes.

Com isso em mente, pesquisadores da Universidade de Stanford e parceiros de outras instituições dos Estados Unidos e da Austrália analisaram, com a ajuda de um computador, os dados de 420 pessoas com depressão grave, estresse pós-traumático e síndrome do pânico. Os três transtornos têm uma série de sintomas em comum, como sentimento de desesperança, baixa autoestima e irritabilidade.

Os pesquisadores identificaram a existência de ao menos cinco grupos de pessoas com características similares de comportamento, problemas cotidianos e alterações cerebrais, mesmo em casos em que elas sofriam de doenças diferentes.

Esses subgrupos receberam nomes de acordo com o estado emocional geral que apresentavam: tensão, excitação ansiosa, anedonia (apatia generalizada), ansiedade generalizada e melancolia.

Os resultados foram publicados em dezembro de 2017, no periódico científico Journal of the American Association of Psychiatry, em um artigo intitulado “Agrupamentos de sintomas transdiagnósticos e associações com cérebro, comportamento, e função cotidiana em transtornos de humor, ansiedade e trauma”.

O estudo destaca que ansiedade e depressão são as duas doenças que mais impossibilitam pessoas de levar suas vidas normalmente, e as que mais levam à perda de produtividade no trabalho no mundo. Os pesquisadores afirmam que as subdivisões que apresentaram podem ser úteis para intervir de forma mais precisa sobre os pacientes.

“Nós estamos tentando desfazer o emaranhado de sintomas que se sobrepõem nos diagnósticos atualmente, o que pode vir a ajudar a criar opções de tratamento feitas para cada indivíduo”

Trabalho ‘Agrupamentos de sintomas transdiagnósticos e associações’, publicado em dezembro de 2017 no Journal of the American Association of Psychiatry

Como a pesquisa foi feita

Os 420 pacientes com depressão grave, estresse pós-traumático e síndrome do pânico, além de pessoas sem nenhum transtorno, foram recrutados por meio de propagandas em áreas próximas das universidades de Sydney e Adelaide, na Austrália.

Eles preencheram um formulário informando quais sintomas apresentavam, e um outro sobre como lidavam com suas atividades do dia a dia, o que inclui suas habilidades de interação social e poder de adaptação a situações estressantes.

Em seguida, realizaram testes para medir sua capacidade cognitiva em quesitos como memória, habilidade motora, capacidade de alternar a atenção de um problema para outro, e de pensar em palavras começando com determinadas letras.

Testes de eletroencefalograma colheram informações sobre quais áreas do cérebro eram ativadas quando os participantes olhavam para imagens de rostos com expressões de raiva, medo e felicidade.

Os mesmos testes e questionários foram realizados em um segundo grupo, de 381 pessoas. Os mesmos cinco subgrupos foram identificados, o que a pesquisa encarou como uma confirmação de que eles identificam de forma consistente traços de comportamento e alterações cerebrais que se relacionam entre si.

As características de cada subgrupo

Tensão (19% do total)

Muitas das pessoas que não se enquadram em nenhum diagnóstico das doenças pesquisadas se encaixaram nessa categoria. Ela é caracterizada por irritabilidade e sensibilidade. Apesar disso, a capacidade de interação social e resiliência a situações estressantes eram próximas do normal. O grupo apresentou controle cognitivo um pouco abaixo do normal - ele é medido pela capacidade de alternar a atenção entre uma atividade e outra e realizar testes de labirinto, entre outros pontos.

Excitação ansiosa (13% do total)

Foi, ao lado dos melancólicos, o grupo com o maior número de alterações comportamentais. É aquele com a capacidade de interação social mais abaixo do normal, além de pouca resiliência a situações estressantes. A memória de trabalho e o controle cognitivo também foram prejudicados, o que inclui dificuldade de se concentrar e controlar os próprios pensamentos.

Anedonia (7% do total)

É um tipo de depressão caracterizada pela incapacidade de sentir prazer, e que frequentemente não é detectada. Esse grupo apresentou controle cognitivo e memória de trabalho próximos ao normal, mas perda de capacidade de interação social e perda de resiliência a situações estressantes prejudicadas. Em entrevista ao setor de divulgação científica da própria Universidade de Stanford, uma das autoras do estudo, Leanne Williams, afirmou que as vítimas fazem grande esforço para contornar essa depressão, “mas em dado momento ficam bastante anestesiadas”.

Ansiedade generalizada (9% do total)

Os pacientes são caracterizados por preocupação e ansiedade. Eles eram capazes de manter as atividades cotidianas intactas, mas tendiam a ter a chamada “memória de trabalho” prejudicada. Não é o tipo de memória acessada para se lembrar de histórias antigas, por exemplo, mas sim para efetuar tarefas cotidianas, como compreender a linguagem e realizar operações matemáticas.

Melancolia (9% do total)

Ao lado de excitação ansiosa, foi a categoria com a maior dificuldade de lidar com atividades cotidianas, em especial interações sociais, o que está em linha com pesquisas anteriores. Foi o grupo que apresentou a menor resiliência a situações estressantes, além de controle cognitivo e memória de trabalho prejudicados.

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