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Como poesias de 5 centavos mostram a precarização do trabalho virtual

Projeto se propõe a pagar mal poetas anônimos para abordar a realidade de quem é pouco remunerado na era da economia digital

     

    A área de inteligência artificial cresce exponencialmente, em todo o mundo. Atrai atenção de algumas das principais empresas do planeta. Ainda assim, existem alguns tipos de trabalho que são mais bem executados por seres humanos.

    Jogar xadrez, por exemplo, é uma atividade humana superada há tempos pelas máquinas. Em reconhecer padrões e contextos, por outro lado, as pessoas ainda são mais confiáveis que softwares.

    É com base nessa lógica que opera o site Mechanical Turk (mtuk.com), da Amazon. Desde novembro de 2005, a plataforma permite que qualquer pessoa se torne uma contratante e disponibilize tarefas para internautas de qualquer lugar do mundo executarem e serem pagos por isso. Basicamente, oferecendo trabalhos “freelance”.

    O nome, Mechanical Turk, é inspirado em uma suposta máquina de jogar xadrez do século 18 que, na verdade, abrigava em seu interior um expert no jogo. Ou seja, um humano fazendo o trabalho que se supunha ser de uma máquina.

    Desde ter um arquivo de áudio transformado em texto, até consultar se uma receita é boa ou não. Por alguns centavos de dólar, certos tipos de trabalho remoto que quase poderiam ser feitos por uma inteligência artificial, mas ainda são melhor executados por um humano, são oferecidos no mturk.com.

    Daí o apelido de “inteligência artificial artificial”, dado pela própria Amazon à época do lançamento e reforçado pela total ausência de contato entre contratante e contratado: o trabalho é postado em uma lista de tarefas oferecidas, um usuário qualquer aceita, executa o trabalho e é automaticamente recompensado por isso – seja em dinheiro ou em créditos em sua conta na Amazon.

    Poemas por cinco centavos de dólar

    Desde janeiro de 2016, a página Mechanical Turk Poems posta, tanto no Twitter quanto no Instagram, poemas curtos feitos por anônimos na plataforma MTurk, recompensados com US$ 0,05 (cerca de R$ 0,15) pelos seus versos.

    A proposta gera um certo estranhamento. Usuários da plataforma se questionavam por que alguém estaria disposto a pagar centavos por poemas anônimos em uma plataforma construída basicamente para a resolução de tarefas mecânicas e pouco criativas.

    Com o tempo, os poemas se transformaram em uma espécie de desabafo dos trabalhadores do MTurk, ao abordar, em sua maioria, a penúria de trabalhar com as tarefas mal-remuneradas oferecidas no site. Os textos questionam o que seus autores entendem ser uma lógica de precarização do trabalho na atualidade pelas grandes empresas, como a Amazon de Jeff Bezos.

    “Trabalhando há horas / mãos doloridas, fiz centenas de hits / mal ganhei um dólar”

    Poeta anônimo

    para o Mechanical Turk Poems

    Os “hits”, citados no poema, são as “human intelligence tasks” (tarefas para a inteligência humana, em tradução livre), e é como o site denomina os trabalhos oferecidos em sua plataforma.

    “Desperdício de tempo e vida / Trabalhadores mal pagos hoje / Devem fazer ou morrer”

    Poeta anônimo

    para o Mechanical Turk Poems

    O Mechanical Turk Poems se aproveita dos termos e condições da plataforma da Amazon, que estabelece que qualquer conteúdo produzido sob o “contrato” do MTurk é de propriedade integral de quem pagou pelo serviço, e não de quem o produziu. Ao enviar um poema e receber cinco centavos de volta, o usuário do site está cedendo todos os direitos de seu texto ao contratante.

    ‘Precarização’ do trabalho

    Ao site The Outline, o idealizador do projeto Mechanical Turk Poems disse que se trata de uma “espécie de experiência antropológica”. Segundo ele, que permaneceu anônimo, a precarização do trabalho “é cada vez mais uma condição sentida por quase todo mundo, desde trabalhadores qualificados e com salários altos até trabalhadores sem qualificação e salários mais baixos”.

    A revista britânica The Economist já falava, em artigo de 2006, sobre a possibilidade de que trabalhos caros no mercado convencional fossem repassados para plataformas online, como a MTurk, por preços bem mais baixos.

    À época, a revista relatou que uma start-up de tecnologia utilizou a plataforma da Amazon para perguntar aos usuários como resolver um problema de programação de um software específico. O trabalho, que custaria cerca de US$ 1.000 se feito por uma consultoria, segundo a representante da start-up ouvida pela Economist, saiu por US$ 5 no mturk.

    A Amazon estabelece que a precificação é responsabilidade dos contratantes – a empresa ganha dinheiro ao cobrar uma taxa de quem utiliza sua plataforma.

    Nessa lógica, tarefas mal remuneradas ou desinteressantes tenderiam a não receber interessados em executá-las, mas não é isso que se vê no MTurk. Dificilmente há tarefas que paguem mais de US$ 0,10, e alguns dos pedidos estranhos incluem o pedido para mulheres acima de 18 anos enviarem suas roupas íntimas pelo correio.

    Nesse contexto, os relatos dados pelos poetas anônimos apontam em sua maioria para o que alguns autores chamam de “cybertariado”, ou seja, a criação de um novo modelo de trabalho precarizado e natural da economia digital.

    Em 2014, trabalhadores do MTurk organizaram um protesto contra Bezos, dono da Amazon, exigindo um sistema melhor de pagamento e representatividade. Um estudo do Banco Mundial apontou que metade desses trabalhadores têm nível superior completo, e de acordo com o instituto de pesquisa americano Pew Research, ganham em média menos de US$ 5 por hora.

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