Ir direto ao conteúdo

O que é ‘selfite’, a obsessão em tirar selfies. E as críticas ao termo

Pesquisadores desenvolvem escala para medir nível de ‘selfite’; para outros especialistas, há tentativa de rotular comportamento mais complexo

     

    Em 2014, uma reportagem ganhou repercussão ao dizer que “selfite”, a obsessão em tirar selfies, seria reconhecida como doença psiquiátrica pela Associação de Psiquiatria Americana. Descobriu-se depois que a notícia era falsa, mas o termo acabou pegando. Agora, um artigo publicado em 29 de novembro no International Journal of Mental Health and Addiction argumenta que a condição é real.

    Esse não é o primeiro transtorno de saúde mental relacionado à tecnologia que é proposto. Pesquisadores já cunharam o termo “nomofobia” para falar do medo de não ter um celular por perto, e “tecnoreferência” para caracterizar a forma como a tecnologia aparece constantemente na vida cotidiana e em relacionamentos. Além disso, “cibercondria” seria o aparecimento de sintomas após a pessoa pesquisar sobre uma doença na internet.

    Como foi feita a pesquisa

    O psicólogo Mark D. Griffiths, da universidade de Nottingham Trent, e Janarthanan Balakrishnan, da escola de administração de Thiagarajar, na Índia, fizeram um estudo com 200 participantes, divididos em grupos, para primeiramente estudar os fatores que levavam pessoas a tirar selfies. A partir dessa pesquisa inicial, criaram uma escala com diferentes níveis da condição. Depois, essa escala foi testada com 400 pessoas.

    De acordo com os pesquisadores, a condição de selfite pode ter diferentes níveis. Há os casos que estão “no limite”, quando uma pessoa tira selfie pelo menos três vezes por dia, mas não posta nas redes sociais. Depois, há o nível agudo, em que a pessoa posta essas selfies, e, por último, a selfite crônica, um estágio em que a pessoa não consegue controlar a vontade de tirar selfies o tempo todo, postando até seis fotos por dia.

    Para fazer a classificação, a equipe usou 20 frases e mediu o nível de concordância dos participantes com cada uma delas. O participante tinha de dizer o quanto concordava com afirmações como, por exemplo, “me sinto mais popular quando posto selfies nas redes sociais”, ou “quando não posto selfies, me sinto desconectado do meu grupo de amigos”.

    A pesquisa foi feita com estudantes indianos. O país foi escolhido por ter o maior número de usuários no Facebook no mundo, assim como o maior número de mortes resultantes de tentativas de tirar selfies em locais perigosos - segundo pesquisa citada no artigo, das 127 pessoas que morreram assim, entre 2014 e 2016, 76 viviam na Índia. A polícia de Mumbai já declarou 16 zonas da cidade como “áreas livres de selfie”, onde as pessoas não podem tirar selfies devido ao perigo.

    Conclusões da pesquisa

    Segundo os autores do estudo, no grupo pesquisado, 34% tinham selfite “no limite”, 40% sofriam de selfite aguda e 25% apresentavam selfite crônica.

    Os pesquisadores afirmam que pessoas que sofrem de selfite estão em busca de atenção e, normalmente, são afetadas pela falta de autoconfiança. As postagem de selfie seria, então, uma tentativa de aumentar seu status social e fazer parte de um grupo.

    “Agora que a existência da condição parece ter sido confirmada, espera-se que outras pesquisas sejam feitas para entender mais sobre como e por que as pessoas desenvolvem esse comportamento potencialmente obsessivo, e o que pode ser feito para ajudar os mais afetados”, disse Balakrishnan ao site Business Insider.

    Críticas ao trabalho

    O argumento dos pesquisadores de que a selfite é uma condição real enfrenta críticas. O professor de medicina psicossocial Simon Wessely, do King’s College de Londres, disse ao jornal The Telegraph que a pesquisa busca chamar atenção.

    “A pesquisa sugere que as pessoas tiram selfies para melhorar seu humor, chamar atenção para si mesmas, aumentar a autoconfiança e se conectar com o ambiente ao redor. Se isso for verdade, o próprio artigo é uma ‘selfie’ acadêmica.”

    O porta-voz do The Royal College of Psychiatrists, Mark Salter, disse ao mesmo jornal que a “selfite não existe e não deveria existir”. “Há uma tendência a tentar rotular uma série de comportamentos humanos complicados e complexos com uma só palavra. Mas isso é perigoso, porque pode dar aparência de realidade a uma coisa que não existe.”

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!