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O conto 'Cat person' viralizou. Por que tanta gente está falando dele

Narrativa publicada pela The New Yorker trata da dinâmica do romance contemporâneo, consentimento, expectativas e papéis de gênero

    “Cat person”, caracterização aplicada a pessoas que têm e/ou gostam de gatos (em oposição a “dog person”, dito dos amantes de cães), é o título de uma narrativa ficcional curta publicada na primeira semana de dezembro na revista americana The New Yorker.

    Trata-se do primeiro conto da escritora Kristen Roupenian publicado pela revista, que é um espaço tradicional para a ficção contemporânea de língua inglesa. Nele, uma universitária de 20 anos chamada Margot se envolve brevemente com um rapaz de 34 anos, Robert. A história é narrada em 3ª pessoa, do ponto de vista da jovem.

    Aparentemente banal, a trama ganhou projeção inesperada para um texto literário. Alcançou enorme popularidade no site, tornando-se um dos textos da revista mais lidos do ano, segundo a diretora de comunicação, Natalie Raabe. Vem sendo intensamente discutido nas redes sociais, como Twitter e Reddit, e suscitou diversas interpretações e reações acaloradas, tanto positivas quanto negativas.

    “Ao longo das semanas que se seguiram, eles desenvolveram uma elaborada estrutura de piadas por mensagens de texto, tiradas que se desdobravam e mudavam tão rápido que ela às vezes tinha dificuldade de acompanhar. (...) Ela logo notou que, quando enviava uma mensagem, ele normalmente respondia na mesma hora, mas, se demorasse mais do que algumas horas para responder, a próxima mensagem dele seria sempre curta e não incluiria nenhuma pergunta, de modo que dependia dela retomar a conversa, o que ela sempre fazia. Algumas vezes, ela se perguntava se era ali que o diálogo ia morrer de vez, mas então pensava em algo engraçado para dizer ou via uma foto na internet que fosse relevante para a conversa, e eles recomeçavam.”

    Trecho do conto ‘Cat Person’

    Traduzido pelo Nexo

    Os dois personagens se conhecem no cinema de arte onde Margot trabalha como balconista, trocam mensagens e, quando decidem sair, a sintonia não funciona tão bem quanto nas trocas virtuais. Na casa dele, ao fim do encontro, a atração dela desaparece, mas Margot vai adiante mesmo assim – ela própria havia sugerido querer transar e não encontra uma maneira de dizer não após ter implicado o sim.

    “Olhando para ele daquele jeito, curvado tão desajeitadamente, a barriga maciça, mole e coberta de pelos, Margot recuou. Mas a ideia do que seria necessário para frear o que ela havia colocado em marcha era esmagadora; exigiria uma quantidade de tato e gentileza que ela sentiu ser impossível reunir. Não é que ela estivesse com medo de que ele fosse tentar forçá-la a fazer algo contra sua vontade, mas insistir que eles parassem agora, depois de tudo que ela havia feito para fazer aquilo avançar, a faria parecer mimada e caprichosa, como se tivesse feito um pedido em um restaurante e então, assim que a comida chegasse, ela mudasse de ideia e pedisse para levarem o prato de volta”

    Trecho do conto ‘Cat Person’

    Traduzido pelo Nexo

    Ao fim, após ser rejeitado, Robert mostra seu lado ruim, ainda que, para Margot, ele parecesse o arquétipo do “cara legal”. O título remete a um detalhe: à desconfiança de que Robert teria inventado ter gatos, já que, embora os tivesse mencionado várias vezes, nenhum gato foi visto por ela na casa.

    O debate assumiu a polarização característica das redes. Como descreve uma reportagem do site americano Vox, alguns dizem que o conto é bom. Outros, que é ruim e que, além disso, quem achou bom não leu contos o suficiente na vida. Para algumas pessoas, quem não gostou da história é sexista. Já o monólogo interno da personagem seria gordofóbico. Outros ainda acreditam que Margot é propositalmente a protagonista “chata”, que desafia a identificação do leitor. Abaixo, o Nexo resume a discussão em torno do conto.

    A controvérsia em 3 pontos

    Ambiguidade de Margot

    Parte do desconforto gerado pela história é atribuído ao privilégio e simultânea vulnerabilidade da personagem feminina. Margot é uma universitária heterossexual, de classe média, que, a julgar pela auto-imagem corporal citada no conto, é também magra.

    Apesar do perfil privilegiado, a personagem ainda lida com questões impostas pelo seu gênero, como o medo que surge, sutil mas incontrolável, ao se ver sozinha em um carro ou na casa de um homem desconhecido: “ocorreu a ela que ele poderia levá-la para algum lugar, estuprá-la e matá-la; ela não sabia quase nada sobre ele”, Margot pensa, enquanto Robert dirige até o cinema.

    Por isso, para muitos leitores, o conto captura com maestria a experiência de sair com homens, da perspectiva de uma mulher de 20 anos. Tem, além disso, o mérito de retratar a subjetividade de uma mulher nessa circunstância, que tenta adivinhar os pensamentos do homem em questão e, acima de tudo, fazer de tudo para ser legal, agradável, “boazinha”.

    Gordofobia

    Muitas das reações negativas ao conto, por parte de homens e mulheres, se devem aos pensamentos de Margot a respeito do corpo do homem com quem sai. A associação entre um homem que se revela ruim ou desagradável e um corpo gordo foi considerada problemática por muitos.

    Mas há quem defenda que, com isso, Margot ganha a complexidade de um ser humano real, com defeitos. “Ela está repleta dos preconceitos inconscientes que nossa cultura ensina às jovens mulheres: que garotas legais são educadas, que rejeitar sexo depois de já ter começado é falta de educação e que pessoas gordas são nojentas”, escreveu a jornalista Constancy Grady para a Vox.

    O ponto de vista feminino sobre o corpo masculino também pode ser visto como um traço que foge à regra de obras ficcionais canônicas.

    “O olhar feminino e sua avaliação sobre os corpos masculinos é um território estrangeiro em boa parte da ficção contemporânea.”

    Rhiannon Lucy Cosslett

    Colunista do jornal The Guardian

    As respostas de homens nas redes, ofendidas com a repulsa de Margot com relação a Robert ou confusas sobre por que tantas mulheres estão elogiando o conto, foram compiladas em um perfil no Twitter chamado “Men React to Cat Person” (Homens reagem a “Cat Person”).

    A vida e a subjetividade de uma jovem mulher são matéria literária?

    Em uma reportagem para o site Huffington Post, a jornalista Claire Fallon classifica como “chocante”, de um jeito positivo, que esse tipo de atenção cuidadosa e detalhada esteja sendo aplicada na ficção às experiências sexuais e afetivas de uma jovem mulher.

    “Nossa cultura tende a considerar envolvente, universal, merecedor de atenção literária o que acontece aos homens, e considera trivial, sem interesse e insignificante aquilo que acontece às mulheres”, escreveu Fallon.

    Embora publicado na seção de ficção da revista, muitos leitores confundiram o texto como um ensaio, um texto confessional de não ficção.

    O momento #MeToo

    A publicação e recepção do conto de Kristen Roupenian estão inscritas em um contexto específico: desde que as dezenas de acusações de assédio sexual contra o produtor americano Harvey Weinstein se tornaram públicas, em outubro, uma avalanche de mulheres dentro e fora de Hollywood passaram a compartilhar suas histórias de assédio e abuso com a hashtag #MeToo (Eu também). 

    Para a colunista do Guardian, Rhiannon Lucy Cosslett, o conto sintetiza o debate levantado pela hashtag e vai ao encontro desse momento, no qual experiências e vozes de mulheres estão sendo ouvidas, principalmente sobre temas como assédio, estupro, consentimento e sexo.

    “É uma ironia das relações heterossexuais que você esteja procurando alguém que experimentou o mundo de maneira tão diferente da sua, e cujo histórico sexual e romântico é tão diferente do seu. Esta é uma dor que muitas mulheres que conheço sentem de forma aguda, especialmente nesse ano que passou, em que todas essas experiências terríveis compartilhadas [pelas mulheres] estão se tornando parte do debate público.”

    Kristen Roupenian

    Em entrevista ao The New York Times

    Alguns leitores reivindicaram que essa dor também é sentida por homens. “Em alguns aspectos, ‘Cat Person’ pode ser resumida na frase [da escritora canadense] Margaret Atwood: ‘Homens têm medo de que as mulheres riam deles. Mulheres têm medo de que os homens as matem’”, escreve Cosslett, colunista do The Guardian.

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