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Como a Atari ressurgiu após crises sucessivas e pedido de falência

Consoles que rodam clássicos da marca voltam a fazer sucesso; nos anos 1980, empresa chegou a enterrar cartuchos não vendidos

     

    A Atari anunciou que começa nesta quinta-feira (14) a pré-venda de seu novo console, o Ataribox, que rodará jogos clássicos e games novos. Mas esse não é o único videogame que se aproveita do saudosismo dos antigos usuários do Atari. Outro console que roda os mesmos jogos, Flashback, esteve na lista dos mais vendidos de uma das maiores lojas de departamento americana, em novembro de 2017.

    O ressurgimento do Atari ocorre após a empresa, pioneira no mercado de games, ser vendida repetidas vezes, enterrar diversos cartuchos do “pior jogo do mundo” no deserto para tentar sair de uma crise e finalmente, em 2013, entrar com um pedido de falência nos EUA. A companhia conseguiu sobreviver com uma reformulação e hoje tem 18 funcionários.

    Fase de crescimento

    A Atari Inc. surgiu em 1972 e desde o início, segundo seu co-fundador, enfrentou problemas financeiros. Em entrevista ao site G1 em 2013, Nolan Bushnell, em visita ao Brasil, afirmou que teve problemas para pagar seus funcionários, nos primórdios da empresa. “Cheguei a ter sete contracheques na minha gaveta e não tinha como pagá-los. Pedia para meus funcionários, que reclamavam, que olhassem sua conta na semana seguinte, pois eu tinha a esperança de poder pagá-los. Felizmente, deu tudo certo.”

    A empresa cresceu na década de 1970, com jogos como o Pong, que simulava tênis de mesa. Nos anos 1970, Steve Jobs foi funcionário da Atari. Chegava a passar o fim de semana inteiro trabalhando, sem ir para casa. “Não existem muitos empregados que você vai encontrar embaixo da mesa dormindo, em uma segunda-feira pela manhã, depois de passar o fim de semana trabalhando. Ele cheirava mal? Sim, mas só porque o escritório não tinha chuveiros, e isso é o que acontece depois de três dias sem tomar banho”, disse Bushnell ao site Techtudo.

    Em 1977, com o lançamento do Atari 2600, ícone de uma geração, a empresa se consolidou e se tornou, na década seguinte, a maior produtora de videogames do mundo, de acordo com o The New York Times. Em 1982, controlava 80% do mercado, segundo a revista The New Yorker. O Atari 2600 era vendido, nos EUA, por preços entre US$ 199 e US$ 229. Vinha com dois joysticks e capacidade de 128 bytes de memória. Chegou ao Brasil nos anos 1980 e também se tornou um sucesso.

    Um ano antes do lançamento do 2600, em 1976, Bushnell vendeu sua parte da Atari para a Warner Communications (hoje Time Warner) por US$ 28 milhões, mas continuou trabalhando para a empresa. Investiu em diversas outras frentes, como cadeias de restaurantes com fliperamas (a rede americana Chuck E. Cheese surgiu como parte da Atari) e robôs, entre outras tecnologias. A Warner ficou insatisfeita e acabou removendo Bushnell do cargo. Em 1984, em meio a uma crise no mundo dos videogames, a Warner vendeu a Atari.

     

    Cemitério de Atari

    Os problemas mais sérios da Atari começaram em 1982, quando ela passou a produzir games em excesso e viu seus cartuchos parados nas prateleiras. Foi nessa época que circulou um boato, confirmado apenas em 2014, mais de 30 anos depois. Os rumores davam conta que a Atari havia enterrado parte dos cartuchos do jogo ET - O Extraterrestre, no deserto de Alamogordo, no Novo México, nos EUA.

    O jogo ET foi considerado o pior da história. Feito em apenas cinco semanas - normalmente, levava-se seis meses para desenvolver um game - para ser vendido durante a temporada de Natal de 1982, ano em que o filme homônimo de Steven Spielberg foi lançado, o jogo foi considerado bobo e mal feito pelos consumidores. O ET caía constantemente em um buraco, e por isso era difícil avançar no jogo. Culpado pelo fracasso, o criador do game, Howard Scott Warshaw, então estrela da empresa e responsável por alguns sucessos da companhia, teve que mudar de carreira e foi até corretor de imóveis. Os consumidores começaram a devolver o jogo e, segundo reportagem do jornal britânico The Independent, a companhia produziu mais cartuchos do que a quantidade de Ataris que existia no mundo na época. Entre 2,5 milhões e 3,5 milhões de cópias encalharam.

     

    Mais de 30 anos depois, a equipe de produção do documentário Atari: Game Over (disponível na Netflix) encontrou 1,3 milhão de cartuchos enterrados no deserto. Cerca de 10% dos cartuchos encontrados eram de ET, mas havia outros jogos, como PacMan, no “cemitério do Atari”. Segundo o documentário, a presença de outros cartuchos mostra que a crise da Atari não foi culpa do “pior jogo do mundo”. Na verdade, a empresa já estava em crise. À época, uma porta-voz da Atari, Kristen Keller, disse: “Ninguém tem a menor ideia do que seja isso. Estamos assistindo como todo mundo”.

    Segundo a rede americana NBC, a cidade de Alamogordo vendeu 881 cartuchos encontrados, deu cem à equipe do documentário, doou 223 a museus e arquivou 297. A maior parte dos games foi comercializada pelo site e-Bay, por U$108 mil no total.

    Crise e renascimento

    A empresa foi dividida em pequenos grupos, ao ser vendida pela Warner. A divisão de jogos domésticos, Atari Corporation, foi vendida novamente no meio da década de 1990 e, mais uma vez, em 1998. Segundo Danny Hakim, do The Upshot, a Hasbro Interactive comprou a empresa por apenas US$ 5 milhões.

    Nos anos 2000, a Atari foi comprada pela empresa francesa Infogrames e, em 2013, houve um pedido de falência da Atari nos EUA. Mesmo assim, a companhia conseguiu sobreviver devido a um processo de reestruturação. Hoje, está registrada na França e também tem escritório em Nova York, onde fica a maioria de seus 18 funcionários, segundo o UpShot. Nos últimos anos, a empresa se dedicou a games para o mercado mobile e, além disso, faz uso do saudosismo para sobreviver, com versões retrô do Atari.

    O Flashback, por exemplo, é produto licenciado pela Atari, mas hoje sua produção é terceirizada para a AtGames, que produz os consoles na China. O Flashback 7, uma versão do Atari 2600 com aparência semelhante e diversos jogos originais, foi lançado no Brasil pela Tectoy com preço médio de R$ 500. O jogo está agora em sua 8ª versão, que traz alguns dos principais joguinhos do Atari 2600, como River Raid, Kaboom!, Centipede e Millipede. Em 2016, mais de 300 mil Flashbacks foram vendidos nos EUA.

    O Ataribox será lançado como uma tentativa de retorno da própria Atari. A empresa não esclareceu se a pré-venda é mundial ou restrita aos EUA. O console vai ter aparência retrô e deve custar entre US$ 250 e US$ 300. Irá funcionar com sistema operacional Linux e, além de rodar os jogos do Atari, clássicos e novos, terá suporte para softwares, streaming de vídeos, navegação na internet e música.

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