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A relação entre a contracepção hormonal e o câncer de mama, segundo este estudo

Pesquisa analisou dados de 1,8 milhões de dinamarquesas e mostrou risco aumentado da doença entre as que fizeram uso de hormônios

     

    Um estudo realizado com a participação de 1,8 milhão de mulheres dinamarquesas, ao longo de quase 11 anos, mostrou um aumento de cerca de 20% no risco de câncer de mama entre as que haviam sido ou ainda eram adeptas de contracepção hormonal, em relação às que nunca tinham usado contraceptivos à base de hormônios. Quanto maior o período de uso, maior o risco.

    Intitulado “Contemporary Hormonal Contraception and the Risk of Breast Cancer” (Contracepção hormonal contemporânea e o risco de câncer de mama), o estudo foi realizado por um grupo de pesquisadores das universidades de Copenhague, na Dinamarca, e de Aberdeen, na Escócia, e publicado no dia 7 de dezembro pelo The New England Journal of Medicine.

    Atualmente, há métodos de contracepção hormonais e não hormonais para mulheres. Entre os hormonais, estão a pílula, a injeção, o anel vaginal, o implante, os adesivos e o DIU Mirena. Camisinha feminina, diafragma e DIU de cobre, por sua vez, são métodos não hormonais.

    Os riscos trazidos pela contracepção que faz uso de hormônios, entre eles o de câncer, já são conhecidos. Havia, porém, a expectativa de que os métodos contemporâneos, com menor dosagem hormonal, fossem menos nocivos.

    Uma das descobertas do estudo é que métodos de menor dosagem hormonal disponíveis hoje no mercado também resultam em maior probabilidade desse tipo de câncer.

    Além disso, a pesquisa não acompanhou somente os efeitos da pílula. Também contabilizou o impacto do anel, dos implantes, adesivos e DIU Mirena, mostrando haver pouca diferença entre eles em termos de risco de câncer de mama, e mesmo entre diferentes tipos de pílulas contraceptivas orais combinadas (as que contêm estrógeno e progesterona).

    O significado dos resultados

    Um aumento estatisticamente significativo, embora não muito alto, foi verificado no risco de câncer de mama de usuárias recentes ou atuais da contracepção hormonal, em relação a mulheres que nunca fizeram uso desse tipo de contracepção.

    Mesmo depois de abandonarem a contracepção hormonal, o risco de câncer de mama entre as mulheres que foram adeptas durante cinco anos ou mais continuava maior do que entre as que nunca foram adeptas.

    O aumento absoluto de casos de câncer de mama diagnosticados entre usuárias recentes e atuais de qualquer tipo de contracepção hormonal foi de aproximadamente 13 em cada 100.000 mulheres que usaram qualquer um dos métodos durante um ano.

    Essa proporção, porém, cai para apenas 2 a cada 100.000 para as que têm menos de 35 anos de idade - a maioria dos casos surgidos durante a análise ocorreram entre mulheres acima de 40 anos.

    Em números absolutos, a pesquisadora da Universidade de Copenhague, Lina Morch, que liderou o estudo, considera pequeno o incremento no risco. Mas ele existe. “Anticoncepcionais têm riscos e benefícios que devem ser levados em conta. Mas também é preciso reconhecer que não são livres de risco”, disse a pesquisadora em entrevista ao Nexo.

    Em artigo que acompanhou a publicação da pesquisa na The New England Journal of Medicine, o pesquisador David Hunter, da Universidade de Oxford, afirma ainda que o aumento de aproximadamente 20% no risco deve ser avaliado à luz da baixa incidência de câncer de mama entre mulheres jovens. O número adicional de casos associado ao uso de contracepção hormonal cresce rapidamente com a idade.

    Hunter também menciona os benefícios que anticoncepcionais hormonais podem trazer para a prevenção de outros tipos de câncer, como de endométrio, ovário ou colorretal. Segundo ele, cálculos sugerem que o uso de contracepção oral por cinco anos ou mais na verdade reduz o risco total de câncer.

    “[Esse benefício] não foi documentado para tipos mais novos de anticoncepcional”, argumenta Lina Morch. A pesquisadora diz que se espera verificar que fórmulas atuais de contracepção hormonal também previnem câncer de ovário, mas lembra que é um tipo de câncer menos comum que o de mama, e que esse benefício ainda precisaria ser contrabalanceado com outros riscos de saúde trazidos pelos anticoncepcionais hormonais, como depressão e doenças cardiovasculares.

    Como o estudo foi feito

    A pesquisa analisou dados de cerca de 1,8 milhões de mulheres residentes da Dinamarca, que tivessem entre 15 e 49 anos ao longo do processo.

    Foi desenvolvida entre janeiro de 1995 e dezembro de 2012 com intervalos, acessando os dados de um estudo nacional criado para medir o impacto do uso de hormônios sobre o risco de doenças cardiovasculares e câncer, chamado “The Danish Sex Hormone Register Study”.

    As informações foram cruzadas com outros bancos de dados nacionais a partir do registro civil dos indivíduos - dados como idade, uso de contracepção hormonal, status desse uso (recente: se usava até seis meses antes; prévio: se já havia usado em algum momento; ou atual), escolaridade, histórico familiar de câncer de mama e ovário, e índice de massa corporal foram levados em consideração.

    Importância e o que traz de novo

    Cerca de 13% da população feminina mundial entre 15 e 49 anos usa contracepção hormonal, de acordo com um estudo de 2013 da ONU. No total, são 140 milhões de mulheres no mundo inteiro.

    Estudos anteriores, dedicados geralmente à análise de um grupo de indivíduos portadores da doença, já mostravam resultado positivo para a associação entre o contraceptivo oral e câncer de mama.

    Mas poucos, até o momento, haviam examinado os contraceptivos orais combinados, mais novos e com dosagens menores de estrógeno, o hormônio que causa o desenvolvimento do câncer de mama, de acordo com o estudo.

    Pouco se sabia, além disso, do risco ofertado pelos métodos contraceptivos hormonais não orais (todos os já citados, exceto a pílula) ou à base somente de progestina, a progesterona sintética.

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