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A árvore gigante recém-catalogada no Espírito Santo

Jueirana-facão chega a 40 metros e já era conhecida pela população local, mas não pela ciência. A espécie guarda parentesco com uma árvore amazônica

     

    Distribuída por 17 estados, do Ceará ao Rio Grande do Sul, a Mata Atlântica é o bioma mais devastado do Brasil - biomas são ecossistemas que possuem vegetação, solo, clima, fauna e flora relativamente homogêneos. Atualmente, restam apenas 12% da cobertura original, o que contribui para que ela seja também o bioma com o maior número de espécies extintas catalogadas.

    Mesmo com a devastação, a Mata Atlântica continua rica em seres vivos ainda não descritos. Em outubro, um trio de pesquisadores do Canadá, Reino Unido e Brasil publicou um artigo catalogando um gigante que havia até então passado batido pela comunidade científica: uma árvore de 40 metros de altura e 62 toneladas, encontrada em uma reserva de mata no Espírito Santo.

    A planta já era conhecida pela população da região, onde é chamada de jueirana-facão, por causa de seus grandes frutos achatados e compridos, dentro dos quais se alojam fileiras de sementes - o nome popular da árvore batiza uma estrada local

    A árvore recebeu o nome científico de Dinizia jueirana-facao, em referência a seu nome popular. Um dos pesquisadores responsáveis pelo achado, Gwilym Lewis, acredita que a árvore é o maior e mais pesado ser vivo descoberto em 2017.

    O processo até identificar a árvore

    Lewis escreveu um relato sobre o processo de catalogação da jueirana-facão no blog da Kew, uma rede internacional dedicada ao ensino e à pesquisa de botânica e financiada pelo governo britânico. Ele conta que flores de Dinizia jueirana-facao foram coletadas pela primeira vez nos anos 2000 por Renato Jesus, que trabalhava na época como gerente de biodiversidade da Reserva Natural Vale. Trata-se de uma área de preservação de 22.000 hectares no norte do Espírito Santo, criada na década de 1950 e mantida pela mineradora Vale.

    Jesus enviou os espécimes a Lewis, sugerindo que eles poderiam integrar o gênero de leguminosas Parkia. Ele afirmava que não tinha informações sobre a árvore ter florescido nos 27 anos em que trabalhou na reserva, o que poderia indicar que ela estava atingindo a maturidade apenas naquele momento, ou que o florescimento ocorria em períodos irregulares.

    Após um estudo detalhado, ficou claro que a flor não era do gênero Parkia, e tampouco estava claro a qual outro ela poderia pertencer. No ano seguinte, frutos da árvore, achatados, grandes e com as sementes dispostas em fileiras, foram enviados do Brasil para o Reino Unido para análise.

    Folhas foram enviadas para o Canadá, onde a pesquisadora Anne Bruneau, do Instituto de Pesquisas em Biologia Vegetal da Universidade de Montreal, realizou uma análise de DNA que indicou um parentesco próximo à Dinizia excelsa Ducke (o angelim-vermelho), uma árvore que pode atingir 60 metros, descoberta na Amazônia em 1922.

    A espécie do Espírito Santo produzia, no entanto, um pólen macio e com grãos isolados entre si, diferentemente da variedade amazônica, que produz um pólen com protuberâncias, cujos grãos se agregam em grupos de quatro. Um pesquisador brasileiro, Geovane Siqueira, visitou a árvore no Espírito Santo, e enviou à Kew fotografias e observações que coletou.

    Os dados indicavam que se tratava de uma nova espécie de Dinizia, “apesar de estar geograficamente separada de sua irmã amazônica, descrita quase 100 anos antes”, escreveu Lewis no blog da Kew.

    Segundo o pesquisador, um dos motivos pelos quais a descrição de uma árvore desse porte demorou tanto para ocorrer pode ser o fato de que restam poucos exemplares dela. Até o momento, sabe-se de apenas 25, no mundo inteiro. “Se espécies tão gigantes estão sendo descritas como novas para a ciência no século 21, imagine quantos organismos menores ainda estão esperando para ser descobertos”, escreveu.

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