Ir direto ao conteúdo

Quais os desafios e restrições da única vacina contra a dengue

Fabricante da Dengvaxia comunicou à Anvisa e outros órgãos de saúde pelo mundo a possibilidade de alguém que nunca teve a doença ser vacinado e desenvolver sua variante mais grave se picado por mosquito transmissor

     

    Uma vacina contra a dengue, disponível principalmente na rede particular, pode fazer com que indivíduos desenvolvam uma variante mais grave da doença no caso de nunca terem tido contato com o vírus antes.

    O laboratório Sanofi-Pasteur, fabricante da Dengvaxia, única vacina contra a doença disponível no mundo, comunicou a possibilidade para órgãos reguladores de vários países, em caráter preliminar.

    Em 29 de novembro de 2017, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgou que irá alterar a bula da vacina no Brasil para incluir a informação. O órgão ainda espera dados completos do fabricante para prosseguir com a avaliação.

    No comunicado, o órgão recomenda que a vacina não seja tomada por pessoas que nunca tiveram o vírus da dengue.

    Segundo a Anvisa, a possibilidade surge se o indivíduo vacinado e que nunca teve dengue for posteriormente picado por um mosquito transmissor do Aedes aegypti. Este é um ponto importante: a vacina em si não leva à doença ou à versão mais grave dela, mas sim a sua combinação com a infecção via mosquito.

    "É uma medida de cautela. Enquanto isso não se esclarece completamente, não podemos expor uma pessoa a ter um risco aumentado para dengue. É uma medida de proteção à saúde da população com base no que temos hoje", declarou o diretor-presidente da Anvisa à Folha.

    A Dengvaxia foi aprovada no Brasil em 28 de dezembro de 2015. A vacina não faz parte do Programa Nacional de Imunizações (PNI). De acordo com o laboratório, antes de seu registro, a vacina foi estudada em mais de 40 mil pessoas em todo o mundo.

    O ano de 2017 registrou queda significativa em todos os índices de dengue no país. Até início de setembro, segundo o Ministério da Saúde, houve uma diminuição de 84,8% nos casos em todo o país e de 87% no número de mortes pela doença.

    O Nexo conversou com o doutor Renato Kfouri, vice-presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), entidade profissional, e membro do Comitê Técnico Assessor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde.

    Quais as dificuldades de se produzir uma vacina preventiva contra a dengue?

    RENATO KFOURI São vários obstáculos. Primeiro: o vírus da dengue tem quatro tipos. Qualquer vacina precisa demonstrar eficácia contra todos eles. A vacina também tem uma particularidade: os casos mais graves acontecem numa segunda infecção. Então, se você oferece uma vacina que protege contra um ou dois tipos, pode induzir a uma doença mais grave quando o indivíduo adquirir um tipo pelo qual não foi vacinado, para o qual não funcionou a primeira vacina. Essa particularidade é um desafio que qualquer vacina candidata terá que enfrentar. Além disso, outros fatores complicam: um é a ampla faixa etária que a doença acomete. Não é como quando se fala em meningite, mais comum em crianças, ou poliomielite, que é a paralisia infantil. Você tem dengue em todas as faixas etárias, então a vacina tem de demonstrar eficácia em idosos, crianças, adultos. Estudos de licenciamento, que envolvem 30 ou 40 mil indivíduos, não são feitos em toda a população porque isso encareceria muito o custo do estudo. A eficácia vacinal também vai depender muito da imunidade natural que a população de uma região já tem pelos tipos de vírus que circularam.

    “Mas, entre as vacinas licenciadas, a da dengue é, sem dúvida, a que tem maiores obstáculos para seu desenvolvimento”

    Se busca uma há três décadas. [A Dengvaxia] é a primeira licenciada no mundo contra a dengue.

    Qual o processo para uma vacina ser incluída no Programa Nacional de Imunizações (PNI)? O que significa ela não ser incluída?

    RENATO KFOURI A Dengvaxia foi disponibilizada gratuitamente no estado do Paraná, para 30 municípios. Não estar no PNI não significa nada em termos de avaliação da vacina. Critérios são inúmeros: a disponibilidade da vacina, a quantidade de doses que o laboratório consegue produzir, capacidade produtiva, de armazenagem, custo da vacina, eficácia, duração da proteção, tudo isso entra na avaliação se uma vacina será produzida para um programa público. Nem que o Brasil queira, não existe vacina de dengue para toda a população. Teria de eleger grupos, regiões, idades prioritárias. E, obviamente, tem as doenças que são prioridade: uma época pode ser a coqueluche, depois a meningite; o cobertor é finito, nenhum país do mundo dá todas as vacinas para toda a população, e o elencar de prioridades faz parte do contexto. A informação que a gente tinha até a primeira reunião do Comitê Técnico Assessor [do Programa Nacional de Imunizações] sobre a inclusão de dengue, em 2016, era que no momento os dados não suportavam ainda a indicação de introdução da vacina. Continuamos avaliando. Naquele momento a opção foi não introduzir, mas isso é algo que é conversado constantemente.

    Quais recomendações as pessoas devem seguir na hora de procurar tratamentos de imunização? Muita gente se apavora com a possibilidade da doença.

    RENATO KFOURI A procura por vacina acaba sendo muito baseada em noticiários, infelizmente. Se há muita meningite, todo mundo vai atrás da vacina, ou um aumento de internações por influenza. Isso motiva muito a prevenção, e não ações conscientes pensando no longo prazo. A gente ainda luta contra essa cultura de que vacina é para apagar incêndio, ligada a um momento dramático. O que houve no caso da alteração da bula recente dessa vacina contra dengue é o que pode haver com qualquer vacina. É o acompanhamento, os chamados estudos de fase 4, de pós-licenciamento, A vacina é licenciada com um estudo menor e, depois, o impacto, a produção em larga escala, vai trazendo outras informações, como duração de proteção, em cinco, dez anos, as reações adversas a longo prazo. O que se notou nessa de dengue é uma tendência de aumento de gravidade quando se vacinou aqueles que nunca tinham sido expostos à doença. Só essa tendência já justificou o alerta do fabricante para todos os orgãos mundiais e agências regulatórias. A Anvisa decidiu alterar a bula e colocar essa precaução, não contra-indicação, para indivíduos que nunca desenvolveram a dengue.

    Quais os cuidados na hora de procurar vacinas que não estão disponíveis na rede pública?

    RENATO KFOURI  Não é porque o ministério entendeu que aquele grupo não é uma prioridade, ou que aquele grupo etário não é uma prioridade, que você não pode buscar a proteção individualmente, fora da saúde pública, que tem uma visão de controle de doenças. A vacina da gripe é dada para criança, idoso e grávida. O jovem não tem direito à vacina gratuita porque não é o principal grupo, mas nada impede que eu queira me vacinar porque não quero pegar a doença, transmitir para minha família ou faltar no meu trabalho. Vale para todas as vacinas. Se você tem condições, quer se beneficiar e existe indicação para minha faixa etária, é um direito de todos terem acesso. Idealmente, as vacinas são feitas em centros de vacinação, regulamentados, com portaria, registro, prestação de contas, médico responsável, alvará da Vigilância Sanitária, ou seja, toda uma normatização para funcionamento legal desses serviços privados. É claro que existem serviços à margem da lei, sem registro, sem notificação, o cara põe uma geladeira no consultório e aplica vacinas, mas isso já tem diminuído bastante.

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: