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O que é uma bolha. E como ela se forma na economia

Preço do bitcoin, moeda digital mais famosa do mundo, aumenta 1794% em um ano e alimenta rumores sobre processo especulativo

 

Na economia de mercado, os preços são definidos pela oferta e pela demanda. De um lado, o vendedor tenta conseguir o maior preço possível por seu produto. Do outro, quem compra quer pagar o menos possível. Quando mais gente quer um produto, o preço dele tende a aumentar - principalmente se ele for escasso.

A bola da vez no mercado financeiro é o bitcoin, primeira e mais famosa moeda digital do mundo. O grande número de pessoas interessadas em ter pelo menos 1 dos cerca de 16,7 milhões de Bitcoins existentes no mundo fez o preço da criptomoeda disparar nos últimos meses.

Na segunda-feira (11), um único bitcoin chegou a valer mais de US$ 17,2 mil (algo em torno de R$ 56 mil), recorde histórico até o momento. Quem vê esse valor em dezembro de 2017 não imagina que, em 2010, uma das primeiras empresas a aceitar o pagamento na criptomoeda cobrou 10 mil bitcoins por duas pizzas.

Na época, a moeda era bem menos conhecida e não valia praticamente nada - já que praticamente não havia demanda por bitcoins. A preços de hoje, cada uma das pizzas teria saído por R$ 286 milhões. O caso, que demonstra a grande valorização da criptomoeda, é tão folclórico que há uma conta no Twitter que informa diariamente o valor daquelas pizzas.

Somente em 2017, o preço do bitcoin aumentou 1.794%. A unidade da moeda, que vale US$ 17,2 mil, valia apenas US$ 908 no primeiro pregão de janeiro.

Rápida valorização

 

A moeda digital não tem lastro e tem como principal trunfo o fato de poder ser transacionada sem qualquer mediação. A tecnologia que é a base do Bitcoin, o blockchain, dispensa o uso de bancos. As transações são realizadas e registradas por uma gigantesca rede de computadores, cujos donos são pagos em bitcoins.

A rápida valorização aumentou as desconfianças de que há uma bolha. O aumento exagerado de preços estaria sendo impulsionado por especuladores interessados em vender os bitcoins por um preço ainda maior que o pago.

No entanto, até que a bolha estoure, é difícil dizer se o bitcoin está valorizado graças a uma grande onda de especulação ou se quem vê esse valor na tecnologia da criptomoeda será realmente recompensado no futuro.

Mas afinal, o que é uma bolha?

A bolha é formada quando o preço de um ativo qualquer se descola de seu valor real. Isso acontece geralmente graças a uma demanda muito alta.

Quando uma ação, uma moeda, imóveis ou qualquer outro bem se valoriza, ganha fama de ser um bom negócio. Quando a notícia se espalha, muita gente pode se interessar. Quando muita gente faz isso por um tempo, a demanda faz o preço subir ainda mais, se descolando completamente do valor real do produto.

Identificar uma bolha não é uma tarefa simples. Até porque se fosse fácil definir o verdadeiro valor de um ativo, bolhas não existiriam.

Processos assim atraem pessoas que não estão interessadas no ativo em si, mas em ganhar dinheiro em cima da valorização. O raciocínio de quem entra na bolha, sem perceber, é a tentação de pensar que o ativo vai repetir no futuro a valorização que teve no passado recente. Ou seja: a pessoa aceita pagar caro acreditando que daqui um tempo outra pessoa vai aceitar pagar mais caro. E assim sucessivamente.

Uma bolha só existe se ela estoura. E ela estoura quando deixam de existir interessados no bem. Quando essas pessoas que compraram um ativo apenas esperando a valorização percebem que podem não conseguir vender tão caro, começam a tentar se desfazer dele. Quando todo mundo faz isso junto, o preço despenca.

O momento da explosão é quando se percebe que o verdadeiro valor dos ativos é muito menor do que a cotação do momento. Assim se tem uma rápida desvalorização, mais rápida até do que o processo de valorização.

A bolha das tulipas

Uma das primeiras bolhas de que se tem notícia aconteceu na Holanda, no século 17, e envolveu tulipas. As flores eram raras e só decoravam as casas dos mais ricos. Então, ter tulipas em casa era um sinal de status.

Mas as flores só eram fornecidas pelos produtores em determinadas épocas do ano, o que aumentou a disputa por novos botões. Os comerciantes passaram a vender então uma espécie de vale tulipas, nada mais que um título que dava direito à flor na época da colheita. Como era um pedaço de papel - e não uma flor que perece e morre - os títulos eram muito comercializados durante a entressafra.

A constante valorização que os papéis acumularam durante um tempo atraiu para o mercado gente que não estava minimamente interessado em tulipas - queria apenas comprar papéis e vendê-los por um preço muito mais alto.

Em um determinado momento os vales atingiram um valor tão alto que o número de compradores foi diminuindo. Quando começou a ficar mais difícil vender os papéis, os donos começam a querer sair do negócio. Quando todo mundo passou a querer trocar os papéis por dinheiro, o preço despencou. No caso da Holanda, isso aconteceu em 1637.

Bolhas anteriores não servem de lição

Desde a mania das tulipas, quase 400 anos atrás, o mundo já teve inúmeras bolhas especulativas. Mas as lições deixadas por cada uma delas não impediu a formação de novos processos especulativos.

Em um estudo, o economista Charles Holt, da Universidade de Virgínia, fez um experimento em que pessoas compravam e vendiam falsos ativos e tinham como objetivo ter máximo lucro.

Depois de alguns testes em que o comportamento das pessoas se assemelhava à formação de uma bolha, em uma das sessões um dos participantes conseguiu calcular o valor de um dos ativos e disse isso em voz alta. O professor achou que aquilo seria o fim da bolha e que os falsos ativos passariam a ser vendidos pelo preço correto, mas isso não aconteceu.

Em pouco tempo, os preços começaram a subir novamente. Até o participante que tinha descoberto o real valor do ativo estava comprando e vendendo com base no valor determinado pelos outros.

Há uma série de estudos que apontam para resultados parecidos, apesar de a economia ainda ter dificuldade de explicar porque as pessoas agem assim em um mercado. O que pesquisadores como o Nobel de Economia Vernon Smith conseguiram identificar foram alguns traços no comportamento dos indivíduos: confiança excessiva em si mesmos, inveja dos outros participantes do jogo e a crença de que os ativos repetiriam, no futuro, o desempenho do passado recente.

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