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As críticas de um ex-executivo do Facebook à rede social

Em uma palestra para alunos de Stanford, nos EUA, Chamath Palihapitiya recomendou que jovens rompessem com as redes sociais

     

    Fundado em 2004 em Menlo Park, nos Estados Unidos, o Facebook rapidamente se tornou a maior rede social do mundo. Em 2017, a empresa tem mais de 2 bilhões de usuários mensais, e um valor de mercado de mais de US$ 500 bilhões. Entre outros impactos, a empresa alterou a forma como esse público se comunica entre si, como grupos se formam dentro e fora da internet, como notícias — verdadeiras e falsas — circulam, como eventos são marcados e como empresas cativam consumidores.

    Oficialmente, o Facebook afirma que seu objetivo é “dar às pessoas o poder de constituir comunidades e tornar o mundo mais unido”, e que o público o usa para “descobrir o que está acontecendo no mundo e compartilhar e expressar o que é importante” para ele. Mas a concentração de poder nas mãos da gigante de mídia e a forma como esse poder é gerido são alvos de críticos — entre eles, alguns dos que atuaram para transformar a empresa no que ela é.

    Em uma palestra na Stanford Graduate School of Business, o ex-vice-presidente do Facebook para aumento do número de usuários Chamath Palihapitiya afirmou que sente “uma culpa tremenda” pelo seu papel junto à empresa e recomendou ao público que rompesse com as redes sociais em geral. As falas foram veiculadas inicialmente pelo site de tecnologia The Verge.

    No mês anterior, o bilionário Sean Parker, que fez fortuna no setor de tecnologia e foi o primeiro presidente do Facebook, em 2004, afirmou que a empresa, assim como outras redes sociais, têm sucesso ao “explorar uma vulnerabilidade da psicologia humana”.

    Autor do livro “Chaos Monkeys” (Macacos do caos, em tradução livre), em que relata sua experiência em corporações do Vale do Silício, o ex-gerente de produtos do Facebook, Antonio Garcia-Martinez, afirmou, em um artigo de maio de 2017 no jornal britânico The Guardian, que o poder de influenciar eleições era reconhecido e tratado como uma piada interna da empresa em 2012.

    Veja abaixo as críticas de Palihapitiya em Stanford e a que ele se refere.

    “Eu sinto uma tremenda culpa. Eu acho que todos nós sabíamos no fundo, apesar de mantermos um discurso de que provavelmente não haveria consequências muito ruins (...) Nós sabíamos que alguma coisa ruim poderia acontecer. Nós estamos criando as ferramentas que estão rasgando o tecido social de como a sociedade funciona (..) A falta de um discurso cívico, a falta de cooperação, a desinformação, a falta de confiança. E não é um problema americano. Isso não diz respeito apenas a anúncios russos, isso é um problema global”

    O Facebook é frequentemente utilizado para a divulgação de notícias falsas com títulos espetaculares, que contribuem para afastar o debate público da realidade. As críticas à forma como a empresa lida com esse problema se intensificaram durante e após as eleições americanas, marcadas pela desinformação.

    Entre os boatos, a informação de que o Papa Francisco apoiava a candidatura de Trump e a de que o casal Clinton estava por trás de uma rede de pedofilia. No Brasil, um levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da USP apontou que três das cinco notícias mais divulgadas na semana do impeachment de Dilma Rousseff eram falsas. Entre elas, uma com o título “Presidente regional do PDT ordena que militância pró-Dilma vá armada no domingo: 'Atirar para matar'”.

    Após a eleição de Donald Trump, em 2016, a empresa respondeu às críticas anunciando um sistema de checagem de notícias falsas que poderia retirá-las de circulação.

    Parte da desinformação é promovida por sites que buscam tráfego a qualquer custo e não têm um objetivo político articulado. Mas há também desinformação direcionada, como a promovida pela Rússia, a que Palihapitiya se refere. Em outubro de 2017, o Facebook admitiu que o governo russo pagou milhares de dólares em anúncios durante as eleições americanas.

    “Se você alimenta a besta, a besta vai te destruir. Se você a afasta, você tem a possibilidade de controlá-la. E [este] é um momento no tempo em que as pessoas têm que romper com algumas dessas ferramentas e as coisas com as quais estão acostumadas. Os ciclos de feedback de curto prazo focados em dopamina que nós criamos estão destruindo a forma como a sociedade funciona (...) Nós somos recompensados com esses sinais de curto prazo: corações, curtidas e joias. E misturamos aquilo com valor e com verdade. E, na verdade, aquilo é uma popularidade falsa e frágil”

    A dopamina é uma substância química que age sobre o cérebro e está associada ao prazer. Ela é liberada em situações como um encontro de amigos ou ao assistir a um filme de comédia, e também é associada ao consumo de substâncias como açúcar ou álcool.

    Em seu livro “Irresistível: a Ascensão de Tecnologias Viciantes e a Indústria de nos Deixar Presos”, o professor da Universidade de Nova York Adam Alter afirma que o feedback que as pessoas recebem após realizar um post de sucesso também libera a dopamina, em um processo similar ao de usar drogas. Essa é uma comparação utilizada por muitos críticos ao falarem sobre a atração exercida pelas redes sociais que faz com que os usuários as acessem frequentemente.

    Alter é um dos defensores da ideia de que as redes sociais capturam a atenção de seus usuários por meio desse sistema de interação por curtidas. Ele avalia que os usuários se ligam a essas plataformas em busca dessas pequenas interações e validações que se revertem em prazer imediato. Para obter mais curtidas, as pessoas “colorem” as próprias vidas e publicam apenas imagens e fatos editados delas, o que tem o efeito colateral de fazer com que todos pensem que a vida dos outros é mais interessante do que a sua própria.

    “E eu não tenho uma boa solução para isso. A minha solução é que eu não uso mais essas ferramentas, eu não as uso há anos. Elas criaram enormes tensões em relação a meus amigos, enormes tensões em meus círculos sociais (...) Eu foco nas mudanças estruturais que eu posso controlar. Eu não uso aquela merda. Eu posso controlar as decisões dos meus filhos, o que significa que eles não têm permissão de usar aquela merda”

    Apesar de não se saber exatamente como os algoritmos do Facebook e de outras redes sociais funcionam, sabe-se que eles buscam, em essência, compreender que tipo de conteúdo interessa a cada usuário e alimentar sua linha do tempo com base nisso. A linha do tempo (feed) de cada indivíduo é, portanto, única e composta de forma agradá-lo.

    Para muitos críticos, isso cria “bolhas” em que as pessoas são isoladas de opiniões desagradáveis por serem diferentes das suas, o que poderia contribuir para que enrijecessem seus pontos de vista. Segundo essa tese, aparentemente endossada por Palihapitiya, as redes sociais contribuem para a polarização política, para a tensão social e discussões raivosas na internet, entre liberais e conservadores, ou “petralhas” e “coxinhas”.

    Há, no entanto, questionamentos a essa tese. Um trabalho de março de 2017 feito por pesquisadores da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, afirma que o crescimento recente da polarização política no país é maior em grupos demográficos que usam menos internet e redes sociais. Isso poderia ser um indício de que as redes não são as únicas culpadas pela polarização.

    “Houve uma informação falsa no Whatsapp de que, em algum vilarejo na Índia, as pessoas tinham medo de que seus filhos seriam sequestrados. E houve linchamentos como resultado disso, as pessoas atentas, correndo de um lado para o outro. É com isso que estamos lidando”

    Palihapitiya se refere a um caso de maio de 2017. Segundo informações do jornal Indian Express, informações falsas divulgadas no Whatsapp denunciando uma suposta gangue de sequestradores de crianças, armada com sedativos, fez com que a população local se armasse com paus e arcos, atenta a estranhos. O resultado foi o linchamento de sete pessoas até a morte.

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