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O que é recall. E como ele é importante para ler as pesquisas atuais

O ‘Nexo’ entrevistou dois especialistas na área para entender esse fenômeno. E saber o que ele diz sobre o cenário para 2018

     

    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nome central da política brasileira nas últimas décadas, lidera as pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial de 2018. Em segundo lugar está o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC, que mudará de partido para o PEN, futuro Patriota), em seu sétimo mandato consecutivo na Câmara e há anos uma figura recorrente nos meios de comunicação e redes sociais. Em terceiro lugar nas pesquisas, está Marina Silva (Rede), senadora por mais de 15 anos, ministra de um governo com aprovação recorde e candidata presidencial em duas oportunidades.

    Apesar das diferenças na trajetória política e no programa de governo de cada um, os pré-candidatos presidenciais mais bem-colocados nas pesquisas atuais têm algo em comum: são figuras conhecidas dos brasileiros.

    O mesmo acontece em São Paulo, onde o líder das pesquisas para a disputa do governo do estado é o deputado Celso Russomanno (PRB), seguido pelo prefeito da capital, João Doria (PSDB), e pelo presidente da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), Paulo Skaf (PMDB). Todos eles disputaram eleições recentes.

    À vantagem que as pessoas já conhecidas do público têm nas pesquisas eleitorais se dá o nome de recall. Ter disputado eleições anteriores e aparecer publicamente com frequência são fatores que favorecem quem pretende disputar um cargo eletivo, sobretudo majoritário, como presidente ou governador. Ao menos antes de a campanha eleitoral começar, como é o caso atual.

    Para entender como o recall acontece e quais os efeitos que possui na disputa eleitoral, o Nexo entrevistou dois especialistas no assunto, a dez meses da próxima eleição presidencial:

    • Márcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência
    • Mauro Paulino, diretor-geral do Instituto Datafolha

    O que é recall?

    Márcia Cavallari Recall é lembrança. Nas pesquisas eleitorais, é ter o conhecimento do candidato. Por exemplo, quando fazemos uma pesquisa espontânea e perguntamos “se a eleição fosse hoje, em quem você votaria?”, as pessoas falam os nomes dos candidatos mesmo sem ter consciência de quem serão de fato os candidatos. Então alguns são lembrados, mas as pessoas não têm certeza se aquele candidato será candidato para valer.

    Mauro Paulino No caso de pesquisas eleitorais, recall é a lembrança que o eleitor tem de características de um candidato. Essas lembranças podem ser motivadas por campanhas anteriores das quais o candidato tenha participado ou de aparições em eventos públicos ou programas de TV, no caso de ser uma celebridade. [Recall] é a imagem que o eleitor tem a partir de lembranças que carrega de um candidato.

    Como ler as pesquisas atuais, tendo em vista o recall?

    Márcia Cavallari Hoje as pesquisas mostram uma preferência inicial, não estão projetando um resultado futuro. Eu diria que a campanha eleitoral tem tr��s momentos: primeiro, este agora, de primeiras impressões e primeiras preferências, sem haver uma definição dos candidatos; segundo, quando os candidatos estão definidos, o processo de escolha [do eleitor] acaba sendo comparativo e começa o programa eleitoral no rádio e TV, quando se homogeneiza o conhecimento [que o eleitor tem] dos candidatos; e terceiro, a reta final, debates, entrevistas que o eleitor leva em conta para de fato decidir o seu voto. As pesquisas de agora, sem a definição de candidatos, devem ser interpretadas como uma pesquisa que mostra as primeiras preferências do eleitorado, não dá para fazer nenhuma projeção de resultado.

    Mauro Paulino O recall é um componente da intenção de voto neste momento, a praticamente um ano da eleição. Mas não basta o recall, não basta que o candidato tenha participado de outras eleições ou seja bastante conhecido se não tiver alguma ligação emocional e programática com o eleitor. Eu dou exemplos: Lula tem hoje em torno de 35% [das intenções de voto para a disputa presidencial de 2018], não apenas porque 99% dos eleitores conheçam Lula ou ele tenha participado de várias eleições anteriores, mas principalmente porque uma parte significativa dos eleitores se lembram de um período em que a vida melhorou e associam isso a Lula. Bolsonaro é a mesma coisa, ele tem uma marca desenvolvida — mais do que um candidato ele é uma marca — relacionada a atributos que agradam uma parte significativa do eleitorado hoje, [e está em segundo lugar nas pesquisas] não só por ser uma marca conhecida, mas porque tem uma identificação com uma parte grande do eleitorado neste momento. Luciano Huck é conhecido quase pela totalidade dos brasileiros, mas não passou de 3% nas pesquisas [do Datafolha] em que colocamos o nome dele. Ele não é identificado como candidato, não tem uma folha de serviços prestados como político, então os eleitores não reconheceram como um candidato uma opção. Alckmin já participou de eleições antes, tem uma imagem fortemente associada a ser um adversário de Lula, o que poderia agradar esse um terço do eleitorado que é anti-Lula, é governador de São Paulo há muitos anos, é conhecido, mas não chega hoje aos 10% [das intenções de voto]. Então não basta o recall, tem que ter uma identificação com o eleitor.

    Quais exemplos de recall que se concretizaram de fato em votos na urna no passado e quais exemplos de recall que não se concretizaram?

    Márcia Cavallari Tem vários exemplos. Lula concorreu em 1989, 1994 e 1998, começou na frente [nas pesquisas] nestas duas últimas e perdeu. Em 2002, Lula começou na frente e ganhou. Subir ou cair não tem a ver com o recall, tem a ver com o candidato, com o contexto da eleição, com a campanha.

    Mauro Paulino [Um exemplo de recall que se concretizou em voto foi] o próprio Lula em 2002, que saiu na frente e se manteve na frente até o final. [Um exemplo que não se concretizou foi] também em 2002, a trajetória de Ciro Gomes [que havia sido candidato em 1998]. Ele chegou a empatar com Lula em primeiro lugar e depois despencou.

    Qual a importância do recall quando a campanha começa?

    Márcia Cavallari Não tem importância. A intenção de voto que você vai medindo tem recall porque se vai lembrando mais de um candidato do que outro, mas na hora que começa a campanha eleitoral, isso desaparece, porque a pessoa está conhecendo e tendo informação de todos os candidatos.

    Mauro Paulino É mínimo, muito pouco. A partir do momento que a campanha começa, as pessoas começam a avaliar as propostas e o desempenho de cada um nos debates e entrevistas. A partir daí, o recall praticamente não conta nada.

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