Como funciona a nova aliança militar que exclui EUA e Reino Unido

França, Alemanha e outros 23 países europeus lançam estrutura de defesa regional sem dois dos principais atores do pós-Guerra

 

Um grupo de 25 países europeus lançou na segunda-feira (11), em Bruxelas, na Bélgica, uma nova instância de cooperação militar, batizada Cooperação Estruturada Permanente. Trata-se da Pesco, na sigla em inglês, ou CSP, na sigla em francês.

A nova estrutura exclui duas das maiores potências ocidentais do pós-Guerra (1945) – os EUA e o Reino Unido – e demonstra uma tentativa dos países-membros da União Europeia, sobretudo da França e da Alemanha, de se adaptarem ao contexto em que americanos e britânicos optam pelo distanciamento.

Em junho de 2016, o Reino Unido decidiu sair da União Europeia, no processo que ficou conhecido como Brexit. Cinco meses depois, os EUA elegeram Donald Trump, que, já na campanha presidencial, dizia esperar que seus aliados europeus assumissem responsabilidade maior por suas próprias defesas, sem esperar tanto dos americanos no futuro.

A Pesco, ou CSP, é, portanto, a tentativa europeia de responder à nova configuração imposta pelos anglo-saxões. O novo grupo foi classificado como “um grande passo na direção da autosuficiência” europeia em matéria de defesa pelo ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, e como “mais um passo na direção de um Exército Europeu”, nas palavras da ministra alemã da Defesa, Ursula von der Leyen.

Ambição é posta em dúvida

 

Entre muitos analistas internacionais de segurança e defesa, entretanto, o clima é de prudência e até desconfiança. Não se espera por ora uma mudança de eixo, mas uma acomodação de estruturas.

A Pesco “é um framework (uma estrutura, uma moldura), mais do que uma política”, disse Ulrike Esther Franke, do Conselho Europeu de Relações Internacionais. “As declarações vagas de intenção ainda precisam ser preenchidas com ações”, afirmou.

Se, por um lado, analistas como Franke desconfiam do ritmo europeu de agir, por outro, líderes que estão envolvidos nos principais dilemas da segurança internacional atual parecem bem mais assertivos.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi pessoalmente encontrar-se com os ministros da Defesa reunidos em Bruxelas, na segunda-feira (11). O evento foi registrado na agenda oficial dos europeus como “um café da manhã informal”.

O encontro com Netanyahu aconteceu menos de uma semana depois de os EUA terem reconhecido Jerusalém como capital de Israel, contrariando posição das Nações Unidas e das potências europeias, especialmente da França, cujo presidente, Emmanuel Macron, advertiu para a inconveniência da medida americana, vista pelos franceses como “uma ameaça à paz”.

A visita de Netanyahu, num momento especialmente tenso da política no Oriente Médio, mostra que os países reunidos em torno da Pesco estão na primeira linha da agenda internacional, ainda que fazendo um contrapeso à política americana na região.

Novo grupo não exclui a Otan

Uma das principais questões em torno da Pesco é como ela convive – ou não convive – com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), maior e mais poderosa aliança militar formada no mundo após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Com exceção do Reino Unido e dos EUA, a composição da Pesco e da Otan é a mesma.

Algumas declarações de autoridades europeias são reveladoras sobre o nível de desconfiança com os americanos. “É importante que nós, particularmente depois da eleição do presidente americano [Donald Trump], nos organizemos independentemente, enquanto europeus. Isso aqui é uma complementação à Otan”, disse a ministra da Defesa alemã.

“Eu penso que isso [a Pesco] pode reforçar a Defesa europeia, o que é bom para a Europa e também para a Otan”, afirmou o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg.

As declarações revelam uma espécie de “pé atrás” com o novo momento que a Otan atravessa, com a eleição de Trump. Nessa perspectiva, a Pesco se assemelha a uma espécie de segunda linha de defesa, sugerindo que a confiança mútua no interior da Otan já não é mais a mesma.

A principal divergência no interior do bloco do pós-Guerra diz respeito aos gastos comuns com defesa. Trump tem dito que os EUA levam a Otan nas costas. De fato, os americanos põem 3,6% de seu próprio PIB em Defesa, enquanto nenhum outro membro aporta mais que 2% do próprio PIB. No caso da Itália e da Espanha, o percentual não passa de 1%.

Um dos principais compromissos da nova Pesco é o com o “aumento regular, em valor real, dos orçamentos de defesa dos seus membros, a fim de atingir os objetivos”. Não há menção a valores ainda.

Integração estava prevista desde 1950

Faz 68 anos que a Europa começou a falar em formar algo semelhante à Pesco. A experiência teve início com a Comunidade Europeia de Defesa, que não decolou. À época o Parlamento francês se opôs aos termos do acordo.

Agora, foi justamente a França quem deu o pontapé inicial para colocar a Pesco de pé. A iniciativa se deu após o atentado terrorista de 13 de novembro de 2015, que deixou mais de cem mortos em Paris.

O Tratado de Lisboa, de 2007 – documento que estabeleceu as bases renovadas de funcionamento da União Europeia –, previa a criação de uma estrutura semelhante. E coube aos franceses, alarmados com o terror, pôr novamente em marcha a medida.

“No início da próxima década, a Europa deverá estar dotada de uma força comum de intervenção, de um orçamento comum de Defesa e de uma doutrina de ação comum”, disse Macron, em setembro, anunciando o horizonte dos resultados esperados para o futuro próximo.

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