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O que une as eleições de 2018 e 1989. E o que as separa

Atual momento tem características que permitem compará-lo à eleição de 28 anos atrás, segundo políticos e analistas. Mas também há contornos que o diferenciam por completo

     

    As eleições presidenciais de 2018 serão marcadas por algumas especificidades. Os candidatos estarão proibidos de receber doações de empresas e pela primeira vez um fundo público exclusivo para campanhas vai ajudar a bancar as despesas, agora com um limite de gastos.

    Para além do campo das regras eleitorais, 2018 também terá contornos marcantes no campo político, resultado das sucessivas crises que pautaram a política nacional depois das eleições de 2014. Na tentativa de traçar cenários, estratégias e de identificar favoritos, cientistas políticos e mesmo candidatos colocam as eleições de 1989 como a que mais se aproxima com o momento atual.

    A primeira eleição presidencial, por voto direto, após o fim da ditadura militar (1964-1985), 1989 foi aquela em que Fernando Collor de Mello, então filiado ao PRN, foi eleito. “[2018] será uma eleição muito semelhante a de 89 em que basicamente as estruturas maiores partem muito desmoralizadas”, afirmou o pré-candidato pelo PDT, ex-governador Ciro Gomes, em entrevista recente.

    O paralelo entre o atual momento e o vivido há 28 anos não é um consenso, quando se consideram os diversos aspectos que influenciam uma campanha presidencial. Abaixo, estão alguns deles que ora aproximam e ora afastam 2018 de 1989.

    As semelhanças entre 2018 e 1989

    Os pontos convergentes entre esses momentos relacionam-se ao contexto político mais amplo e aos efeitos dos sucessivos escândalos de corrupção à imagem dos partidos e candidatos.

    Desgaste e fragmentação

    O eleitor vai escolher o próximo presidente em um momento de intenso desgaste da classe política. Após a eleição de 2014, o brasileiro acompanhou o avanço da Lava Jato (atingindo os principais partidos políticos), o impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff e as acusações criminais contra Michel Temer. Nesse intervalo ocorreram as maiores manifestações populares da história recente.

    Em 2017, Temer tornou-se o presidente da República mais impopular desde José Sarney e a rejeição ao Congresso Nacional também atingiu o índice mais alto desde 1993, quando o Datafolha começou a avaliação.

    Em 1989, também havia um forte desgaste político em razão do fim do regime militar, precedido pelo movimento Diretas Já (pedindo a volta do voto direto para presidente), maior manifestação de rua até então. Sarney também tinha altos índices de impopularidade e na eleição nenhum candidato se mostrava disposto a defender seu governo.

    73%

    dos eleitores consideram o governo Temer ruim ou péssimo, segundo Datafolha de outubro de 2017

    A Lava Jato, além de promover investigações contra centenas de autoridades, atinge dois dos prováveis candidatos ao Planalto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB). O tucano tem um pedido de inquérito em andamento. Já Lula responde a nove processos e já foi condenado por um deles.

    Se confirmada a sentença, ele pode ser proibido de se candidatar em razão da aplicação da Lei da Ficha Limpa. O ex-presidente lidera as pesquisas de intenção de voto e, logo, sua permanência ou sua saída muda completamente o jogo.

    Todo esse cenário, na avaliação de alguns cientistas políticos, torna o quadro eleitoral indefinido e tende a ampliar a fragmentação das candidaturas, a exemplo do que ocorreu em 1989.

    “É uma eleição que, em um certo sentido, se aproxima muito das eleições presidenciais de 1989, em que não havia um concorrente forte apoiado pelo governo. Como era o caso de José Sarney, um presidente que não tinha força para eleger um sucessor. Se anuncia então uma eleição extremamente fragmentada, em que vários políticos têm uma chance de ir para o segundo turno”

    Felipe Borba

    cientista político, professor da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), em entrevista ao Nexo

    Corrupção

    O desgaste da imagem da classe política favorece o discurso de combate à corrupção. Em 1989, Collor explorou nos horários eleitorais a promessa de “caçar marajás”.

    “Pode estar certo, meu amigo servidor, que eu não vou demitir ninguém que trabalha. Agora, marajá, corrupto e boa vida, esses vão para a rua”, dizia o então candidato, que depois de eleito sofreu impeachment, em 1992, acusado de integrar esquema de corrupção criado por seu tesoureiro de campanha Paulo César Farias.

    Para 2018, a os efeitos da Lava Jato tendem a dar mais força a esse discurso na campanha de determinadas candidaturas, como sinaliza o deputado federal Jair Bolsonaro (filiado ao PSC, mas que deve migrar para o PEN).

    “Tem muita gente mais preparada do que eu, mas no Brasil hoje o pessoal está alvejado. Praticamente não tem candidato deles que se apresenta aí que não tenha problemas na Lava Jato ou já tiveram no mensalão”, afirmou o deputado a um grupo de investidores em Nova York, em outubro.

    “Eu não gosto de fazer essas análises um ano antes da eleição. Mas pela primeira vez está sendo possível porque essa pauta [corrupção, moralidade e valores conservadores] vem sendo construída há um longo período e dificilmente vai se escapar dela”

    Marcia Ribeiro Dias

    cientista política e professora da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), em entrevista ao Nexo

    Figura do ‘novo’ na política

     

    Também relacionado ao cenário de desgaste da classe política, alguns professores traçam como paralelo entre as duas eleições a tentativa de partidos buscarem rostos novos como estratégia para vencer a resistência do eleitor. Nas eleições municipais de 2016, essa fórmula já apareceu e favoreceu, por exemplo, a candidatura de João Doria (PSDB) à prefeitura de São Paulo. O empresário, que aliou à figura do novo o discurso de “não sou político”, foi eleito no primeiro turno.

    Recorrendo mais uma vez ao exemplo de Collor, em 1989, o político nascido no Rio e jovem (ele tinha 40 anos), era desconhecido da maioria do eleitorado. O então governador de Alagoas fez no estado, onde sua família tinha influência, sua carreira política. Além de Collor, o apresentador de TV Silvio Santos, do SBT, figurou entre os candidatos, mas a alguns dias da eleição, a candidatura foi impugnada por causa de irregularidades no registro do seu partido, o PMB.

    Em 2017, a busca por novidades vem orientando algumas legendas. O próprio Doria chegou a ser cotado como opção dentro do PSDB, mas o tucano perdeu força. Depois, o apresentador Luciano Huck, da TV Globo, também se movimentou, despertando o interesse do PPS. No fim de novembro ele declarou que não pretende disputar a Presidência.

    As diferenças entre entre 2018 e 1989

    Já entre os elementos que afastam as duas disputas estão questões relacionadas à macroeconomia e à atuação e relevância dos partidos políticos em uma campanha nacional.

    Dinâmica política e partidária

    A eleição de 1989 foi realizada exclusivamente para a escolha do presidente da República. Em 2018, a exemplo das eleições que seguiram a de 1989, além do chefe do Executivo federal serão escolhidos governadores, senadores, deputados estaduais e federais. É diferença relevante numa disputa nacional, já que interfere diretamente na formação de alianças e coligações.

    É comum, por exemplo, partidos abrirem mão de lançar um nome próprio a presidente, se em troca receberem a garantia de que não terão concorrência nas disputas para governos estaduais ou para as vagas do Senado. Composições como essa podem dar mais força a um determinado candidato ao Planalto, se sua legenda conseguir atrair apoiadores o suficiente para espalhar a campanha em capitais e nas principais cidades.

    Na comparação com 1989, a estrutura partidária também mudou. Naquela eleição, 22 legendas lançaram candidatos, mas muitas delas ainda eram recém-criadas ou pouco estruturadas, como o PSDB, fundado um ano antes. Na avaliação do professor Paulo Sérgio Peres, esse contexto também explica o alto número de candidatos. “Os partidos lançaram candidatos para medir seu desempenho”, afirma.

    Concorrência ao Palácio do Planalto

     

    Atualmente há 35 partidos registrados na Justiça Eleitoral, dos quais 25 têm ao menos um deputado federal. Ter representação na Câmara assegura aos partidos direito a receber recursos do fundo partidário e a tempo de TV, ativos que se tornaram essenciais às campanhas, cada vez mais caras com o passar do tempo. Quanto mais deputados um partido tem, maior o tempo de TV e maior a fatia do fundo partidário.

    “Eu vejo os dois momentos com muitas diferenças, do ponto de vista da dinâmica política. Em 89, por exemplo, havia um certo ânimo e esperança com a retomada da democracia. Havia um discurso que não era exatamente antipolítica, era contra a política que lá estava [do regime militar]. 2018 é um cenário de desgaste radical dos políticos, de todos os partidos e não há novidade”

    Paulo Sérgio Peres

    cientista político e professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), em entrevista ao Nexo

    Ao menos dez siglas (incluindo PMDB, PT, PSDB, PP, PSB e DEM) concentram as maiores bancadas, fazendo delas as maiores forças políticas nas últimas eleições. Dinheiro do fundo e tempo no horário eleitoral influenciam as decisões dos partidos na hora de compor alianças, em busca de mais tempo de propaganda eleitoral e de chapas mais competitivas, algo que não ocorreu em 1989.

    Ainda que busquem um rosto novo, partidos políticos têm influência relevante na disputa eleitoral, o que dificulta uma candidatura isolada ou filiada a um partido pequeno (sem palanques estaduais e sem tempo de TV).

    Candidatos já testados

    O número de candidatos à Presidência em 2018 será conhecido somente após 15 de agosto, data-limite para os partidos registrarem seus representantes. Ainda que sejam muitos, os nomes até agora cogitados são em sua maioria conhecidos do eleitorado e que, direta ou indiretamente, estão associados a algum projeto político e partidário.

    Em 1989, até em razão da excepcionalidade daquela eleição, os candidatos não defendiam um projeto de governo já testado, com o qual o eleitor pudesse fazer comparações. Para 2018, com exceção de Bolsonaro (que pela primeira vez vai disputar um cargo para o Executivo), os demais cotados (Lula, Marina, Alckmin e Ciro), além de já terem concorrido ao menos uma vez ao Planalto, representam partidos com uma agenda com a qual o eleitor já tem alguma familiaridade. Nesse quesito, Lula e Alckmin, mais especificamente, carregam a memória das gestões anteriores do PT e do PSDB.

    “Em 1989, nenhum candidato chegava com a possibilidade de defender políticas feitas em outra gestão federal [era a primeira eleição direta após a ditadura militar]. Para 2018, Lula se projeta com a lembrança de políticas que foram implementadas quando ele era presidente [entre 2003 e 2010]”

    Marco Antonio Carvalho Teixeira

    cientista político e professor da FGV, em entrevista ao Nexo

    Situação econômica

    A economia em 2017 ainda reflete a crise provocada pela recessão e a consequente alta do desemprego. Ainda assim, o cenário é de menor gravidade quando comparado a 1989, quando o país ainda tentava controlar a hiperinflação (que foi de 1.764,86% em 1989).

    Naquele ano, o então presidente José Sarney lançava seu quarto plano econômico (Verão) na tentativa de reduzir a alta de preços. No contexto internacional, a atenção estava voltada ao fim da Guerra Fria, que seria simbolizada pela queda do muro de Berlim em novembro de 1989.

    Em 2018, o plano Real, lançado pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, completará 24 anos. Para o futuro próximo, a perspectiva é de retomada do crescimento, ainda que lentamente, e a taxa de desemprego vem caindo.

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