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Por que a ‘capa feminista’ da revista Time é uma exceção

A revista anunciou homenagem de 2017 a ‘pessoas que quebraram silêncio’ e denunciaram assédio sexual, em uma foto de capa com 5 mulheres

     

    A revista americana Time elegeu as “pessoas que quebraram o silêncio” e denunciaram casos de assédio sexual como personalidade do ano de 2017. O prêmio não foi para uma pessoa específica, mas para todos – mulheres e homens –  que denunciaram abusos, em um movimento simbolizado pela hashtag #metoo (#eutambem).

    Desde que a revista começou a eleger a personalidade do ano, em 1927, 4 mulheres foram eleitas. O reconhecimento foi concedido a grupos de mulheres (ou majoritariamente femininos) outras 2 vezes, além do prêmio de 2017. Todas as outras personalidades foram homens, grupos mistos (incluindo casais) ou majoritariamente masculinos e não humanos (o “computador” e “a Terra ameaçada” já foram escolhidos).

    O critério para escolha da “personalidade do ano” da Time, segundo a revista, é “a pessoa ou pessoas que mais impactaram as notícias e nossas vidas, para o bem e para o mal, e representam o que foi mais importante no ano”. A escolha é feita pelos editores da revista. Algumas já foram polêmicas, como Hitler em 1938. O último vencedor havia sido o presidente americano Donald Trump – cuja forma de se referir a mulheres, segundo a reportagem da própria Time, foi um dos desencadeadores do movimento #metoo.

    Foto: Reprodução/Time
    Capa da revista Time
    Capa da revista Time
     

    Mulheres do ano

    A primeira mulher a ser reconhecida como “mulher do ano” pela Time foi a socialite americana Wallis Warfield Simpson, em 1936. Até então, o prêmio não dizia “personalidade do ano”, mas “homem do ano” - a mudança ocorreu em 1999. O relacionamento de Simpson com o rei britânico Eduardo 8º fez com que ele se tornasse o primeiro monarca a abdicar ao trono voluntariamente. Edward queria casar com Simpson, mas ela era divorciada, o que não era permitido. Ele desistiu do trono para ficar com ela, o que fez de Simpson a mulher sobre quem “mais se falou, escreveu, se fez manchetes e a pessoa que mais atraiu interesse no mundo”, segundo a reportagem que a nomeou mulher do ano. Eduardo e Simpson viveram nas Bahamas e na França.

    Com a abdicação, o rei George 6º, irmão de Eduardo, assumiu o trono, abrindo o caminho para que sua filha, Elizabeth 2ª, entrasse na linha de sucessão real (pela linha sucessória original, os herdeiros da Coroa britânica seriam os filhos de Eduardo). Ela acabou sendo a segunda mulher escolhida como personalidade da Time, em 1952, ano em que assumiu a coroa. À época, a revista justificou a escolha afirmando que os britânicos viram na nova rainha “a lembrança de um grande passado… e ousaram esperar que ela possa ser presságio de um futuro grandioso”.

    A escolha de uma mulher como personalidade do ano aconteceu outra vez em 1986. Naquele ano, Corazón Aquino foi homenageada por ter se tornado a primeira mulher presidente nas Filipinas. Aquino liderou a revolta que levou à queda da ditadura de Ferdinand Marcos (1965-1986) no país. Ela era mulher do senador Benigno Aquino Jr., que foi morto em 1983 pelo regime ditatorial. Quando ela foi escolhida, a Time escreveu que “não importa o que aconteça, Aquino já deu a seu país uma memória clara e inviolável. Mais importante, ela ressuscitou seu senso de identidade e orgulho”. Aquino sofreu diversas tentativas de golpe, mas permaneceu no poder por seis anos. Sua administração enfatizou direitos humanos e civis no processo de transição pós-ditadura. Seu filho, Benigno Aquino 3º, presidiu as Filipinas até 2016.

    A última mulher eleita foi a alemã Angela Merkel, em 2015. “Chanceler do mundo livre”, segundo a revista, Merkel foi reconhecida pela liderança na questão da dívida grega e na crise migratória na Europa.

     

    Grupos com mulheres

    Os outros reconhecimentos feitos a mulheres pela Time foram em grupos. Em 1975, “as mulheres americanas” foram escolhidas, em um reconhecimento da mudança do papel das mulheres na sociedade. A revista afirmou que, apesar de ter perfilado várias mulheres individualmente, a mudança reconhecida era “o status das mulheres de todos os dias, normalmente anônimas, que passaram a fazer parte do mainstream de trabalhos, ideias e política pública”.

    Em 2002, três mulheres chamadas pelas revista de “The Wistleblowers” (algo como ‘as delatoras’) foram escolhidas. O grupo era composto por Coleen Rowley, agente do FBI que denunciou falhas de inteligência após o 11 de setembro, e duas executivas que expuseram problemas de corrupção em corporações, Sherron Watkins e Cynthia Cooper. Outra mulher homenageada foi Soong May-ling, mulher do general chinês Chiang Kai-Shek, em 1937, quando o casal foi nomeado “marido e mulher do ano” pela revista. Mulheres também entraram em grupos mistos, como no prêmio dado aos “baby boomers”, em 1966, ou a “você”, em 2006.

    Assédio sexual

    O prêmio de 2017 foi concedido a todas as pessoas que denunciaram assédio sexual , mas foi representado na capa da revista por cinco mulheres: Ashley Judd, atriz que veio a público denunciar o produtor americano Harvey Weisntein; Susan Fowler, ex-funcionária da Uber que denunciou assédio na companhia; Adama Iwu, ativista que iniciou um movimento para expor assédio no governo da Califórnia; a cantora Taylor Swift, que decidiu processar um radialista do Colorado por tê-la tocado, numa sessão de fotos; e uma lavradora com o pseudônimo de Isabel Pascual, que também sofreu assédio.

    “Essas pessoas que romperam o silêncio iniciaram uma revolução de recusa, ganhando força a cada dia, e só nos últimos dois meses sua raiva coletiva provocou resultados imediatos e chocantes: quase todos os dias, CEOs são demitidos, magnatas caem, ícones entram em desgraça. Em alguns casos, acusações criminais foram feitas”, escreve a revista.

    Ao analisar as escolhas de personalidade do ano da Time, Philip Bump, do jornal americano The Washington Post, escreveu que o movimento reflete a concentração de poder em homens, que usam sua posição para assediar mulheres. O próprio histórico de vencedores da Time, escreve, “é uma lembrança de como o poder está concentrado nas mãos de homens”.

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