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Qual a trajetória da Selic até seu ponto mais baixo na história

Queda da inflação permitiu ao Banco Central reduzir os juros básicos a 7% ao ano. Entenda como a economia chegou a esse ponto

    O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, formado pelo presidente e os diretores da instituição, informou no início da noite de quarta-feira (6) a decisão de cortar 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros da economia. Com a mais recente redução, a décima em treze meses, a Selic fica em 7% ao ano - a menor desde que foi implantada em 1999.

    A taxa Selic é a base para o cálculo de juros no país porque é o quanto o Banco Central cobra dos bancos comerciais para empréstimos de curto prazo. A partir do que pagam para esses financiamentos é que as instituições financeiras calculam o que vão cobrar dos clientes - sempre mais que isso. Itaú e Bradesco, os dois maiores bancos privados do país, informaram que vão repassar a redução aos clientes.

    Por outro lado, a taxa básica de juros é o principal mecanismo do Banco Central para combater a inflação. E a redução da Selic só foi possível em um cenário em que os preços pararam de subir rapidamente. Com a diminuição do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de 10,67% em 2015 para algo abaixo de 3% em 2017, o Banco Central pôde fazer cortes sucessivos e colocar a Selic no patamar mais baixo da história.

    Período com metas de inflação

     

    Tentativa frustrada

    Para entender o atual ciclo de queda da taxa de juros básica, é preciso olhar para o passado recente. O governo Dilma Rousseff assumiu em 1º de janeiro de 2011 com a Selic em 10,75% e, depois de algumas altas no primeiro ano, começou a cortar a taxa de juros.

    Até quarta-feira (6), o recorde histórico de menor taxa Selic havia sido os 7,25% ao ano entre outubro de 2012 e abril de 2013. Assim como agora, o Banco Central do governo Dilma baixou os juros por dez reuniões consecutivas, mas naquele momento a inflação estava em trajetória de alta.

    O governo tinha uma política de incentivo à economia e promoção do crescimento econômico. Enquanto o Ministério da Fazenda praticava políticas de incentivo à produção, o Banco Central baixava os juros. Naquela época, com a inflação subindo, o Copom era acusado de sofrer influência política da presidente. Junto com isso, o governo represava preços sobre os quais têm controle, como combustíveis e energia elétrica.

    Os juros ficaram pouco tempo em 7,25% e logo a inflação obrigou o Banco Central a promover novos aumentos.  Entre abril de 2013 e julho de 2015, a Selic aumentou 7 pontos percentuais. O processo teve uma pausa em 2014, quando Dilma disputou a reeleição. Os aumentos foram retomados na primeira reunião após a eleição, três dias após o 2º turno.

    Entre o final de 2014 e o início de 2016, a inflação cresceu rapidamente, principalmente por causa da liberação dos preços que estavam represados pelo governo. Foi o chamado tarifaço. Em 2015, o índice oficial de inflação fechou 2015 em 10,67%. O corte dos juros em um momento errado é apontado por economistas críticos à política econômica de Dilma como um de seus grandes erros.

    A queda da inflação

    Depois de atingir o ápice no início de 2016, o índice de preços ao consumidor começou a cair. Já depois de Dilma Rousseff ser deposta por um impeachment e o então vice Michel Temer assumir, a queda se acentuou. E a rápida redução da inflação a partir daí tem mais de uma explicação.

    Quatro fatores

    Sem tarifaço

    Os preços administrados (combustíveis, energia elétrica), que foram o vilão da inflação de 2015 por causa do tarifaço, começaram a pesar menos em 2016. Os preços represados já haviam sido corrigidos e passaram a aumentar em ritmo normal.

    Crise inibe consumo

    A grave crise econômica que atingiu o Brasil puxou a inflação para baixo. Sem emprego e com menos dinheiro no bolso, o consumo caiu e os preços começaram a subir mais devagar.

    Confiança no BC

    Analistas econômicos ressaltam ainda o papel do Banco Central de Temer no controle das expectativas de inflação. Empresários e economistas confiam mais na gestão de Ilan Goldfajn do que na diretoria anterior, frequentemente acusada de sofrer pressões políticas na definição de juros.

    Ajuda dos alimentos

    O preço dos alimentos é a parte mais imprevisível e menos controlável de um índice de inflação. Mudanças climáticas podem fazer com que os preços disparem, assim como uma boa safra pode reduzir o valor pago nos alimentos. Vilão em outros tempos, os alimentos tiveram contribuição importante na queda da inflação recente. O clima e uma supersafra ajudaram.

    A Selic nos anos recentes

     

    Banco Central indica novos cortes

    As projeções do Relatório Focus - uma consulta periódica do Banco Central com analistas de mercado - mostram o IPCA em 3,03% em 2017 e em 4,01% em 2018. Ambas as projeções estão abaixo do centro da meta de inflação que o Banco Central tem de cumprir, o que abre a possibilidade de novos cortes de juros.

    Em comunicado divulgado após o fim da reunião de quarta-feira (6), os diretores do Banco Central indicam a possibilidade de voltar a reduzir a taxa de juros no início de 2018. Em uma linguagem técnica, o texto informa que, "caso o cenário básico evolua conforme o esperado", o Copom deverá reduzir a velocidade da queda de juros. Ou seja, depois de uma redução de 0,5 ponto percentual, deve ocorrer um corte menor, mas ainda assim a expectativa é de corte.

    O Copom define os juros em múltiplos de 0,25, o que indica a possibilidade de a Selic ficar em 6,75% no início de 2018. A primeira reunião do ano está prevista para fevereiro.

    Um incentivo ao consumo

    O consumo das famílias foi fundamental para os pequenos crescimentos registrados na economia brasileira no segundo e no terceiro trimestres de 2017. Ao lado do recuo do desemprego e da liberação de contas inativas do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) pelo governo, os juros mais baixos contribuíram para os resultados positivos no PIB (Produto Interno Bruto).

    O aumento de juros é usado como remédio contra a inflação justamente por reduzir a demanda por produtos e serviços, esfriando a economia. Quando a taxa é reduzida, a tendência é que fique mais fácil e barato conseguir empréstimos e financiamentos.

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