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Por que Jerusalém é tão importante para a paz no Oriente Médio

Trump reconhece cidade sagrada – e disputada – como capital de Israel, desagradando a líderes laicos, árabes e cristãos de todo o mundo

 

A decisão do presidente americano, Donald Trump, de reconhecer Jerusalém, e não Tel Aviv, como capital de Israel trará consequências negativas imediatas para a paz do Oriente Médio, uma das regiões mais instáveis do mundo.

O alerta, feito por líderes de países árabes da região, foi seguido de advertências de potências europeias e apelos até mesmo da mais alta autoridade do mundo católico romano, o papa Francisco.

O presidente americano também ordenou – no mesmo discurso, feito nesta quarta-feira (6), em Washington – que a embaixada americana em Israel seja transferida de Tel Aviv, onde se encontra hoje, para Jerusalém, onde prometeu fazer do novo edifício “um monumento pela paz”, que levará a “um brilhante futuro para o Oriente Médio”.

Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, até hoje, a história de Jerusalém é marcada pela busca dos israelenses de consolidar sua presença na cidade inteira

A medida, saudada pelo governo israelense, isola os EUA de todos os demais países em relação a um dos temas mais sensíveis da agenda internacional.

As Nações Unidas consideram que Israel ocupa ilegalmente a totalidade de Jerusalém desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e, em respaldo a essa posição da ONU, nenhum país mantém sua embaixada na cidade, que é considerada sagrada pelas três maiores religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, até hoje, a história de Jerusalém é marcada pela busca dos israelenses de consolidar sua presença na cidade inteira, transformando-a, por lei, na capital do país, instalando nela a sede de seu Parlamento e militarizando sua área, a despeito da desaprovação das Nações Unidas e das maiores potências mundiais.

Do lado oposto, os palestinos também consideram Jerusalém a capital de um futuro Estado próprio, a ser criado na região. Nessa disputa, os dois lados mesclam períodos de tolerância e de intransigência, transbordando muitas vezes para conflitos abertos.

Decisão começou a ser tomada em 1995

A medida de Trump tem como base uma decisão tomada 22 anos atrás pelo então presidente dos EUA, Bill Clinton. Em 1995, ele aprovou lei mudando a sede da embaixada americana em Israel.

 

A lei prevê, no entanto, que a conveniência dessa mudança seja avaliada pelo presidente de turno a cada seis meses. E, caso as condições de segurança não permitam, sua aplicação seja postergada.

Isso vinha acontecendo semestralmente desde então, mas Trump prometeu na campanha que, se eleito, cumpriria a lei. “Todos os presidentes se negaram a cumprir essa medida”, disse em seu discurso. “Enquanto meus antecessores fizeram essa promessa na campanha e não a cumpriram, eu estou cumprindo a minha.”

Qual a história da disputa por Jerusalém

As raízes da disputa por Jerusalém vêm dos tempos bíblicos, passam pelo Império Romano e pelas Cruzadas, muito antes de desembocarem no impasse atual, que opõe sobretudo palestinos e israelenses, com ramificações de interesses que chegam a todos os países árabes da região, à Europa e – como a decisão de Trump demonstra – também aos EUA, do outro lado do Atlântico.

Em 1917, o general Edmund Allenby marchou sobre a cidade, fazendo dela a capital do Mandato Britânico, que era, então, a potência colonial que passou a dominar a região com o fim do Império Otomano.

Árabes e judeus que viviam na região sob domínio britânico não cogitavam fazer de Jerusalém a capital de seus futuros Estados. A cidade era reconhecida tão somente por seu caráter sagrado. As três maiores religiões monoteístas veneravam seus locais santos. Justamente por isso, Jerusalém era tida como uma cidade disputada, mas também compartilhada por natureza.

 

O período do Mandato Britânico só terminou em 1947, após a Segunda Guerra Mundial, quando o Estado de Israel foi criado pelas Nações Unidas. A organização determinou que Jerusalém fosse governada num “regime internacional especial”, que tentava contemplar as expectativas de todos os interessados na cidade.

Na época, os judeus estavam mais motivados por ideais nacionalistas e por um secularismo de fundo socialista do que por questões religiosas. A preocupação maior era fugir de perseguições e buscar a autodeterminação enquanto povo. Ainda assim, o governo defendeu a importância de Jerusalém não apenas como local sagrado, mas também como sua capital.

Para parte dos judeus naquela metade do século 20, Jerusalém estava ligada às raízes de um passado religioso e atrasado, enquanto outra cidade, Tel Aviv, já era vista como cosmopolita e renovadora, ligada a um futuro promissor do novo Estado de Israel.

Em 1948, nações árabes, que se opunham à criação do novo país, atacaram Israel, mas foram repelidas militarmente em seguida. Os combates terminam com a divisão de Jerusalém em duas partes: a primeira, ocidental, ficou sob domínio israelense, enquanto a segunda, oriental, ficou sob domínio jordaniano – incluindo os principais sítios sagrados.

Mapa Jerusalém
 

As duas partes, no entanto, estavam à época com os olhos voltados para outras regiões de seus próprios países. Os israelenses estavam mais interessados em fomentar o crescimento de sua zona costeira, onde está Tel Aviv, e outras grandes cidades, enquanto os jordanianos trabalham na construção de Amã como sua capital. Jerusalém não era cobiçada à época como capital de um futuro Estado palestino.

Em respeito à decisão das Nações Unidas de 1947, todos os países-membros da ONU estabelecem suas embaixadas em solo israelense fora de Jerusalém, incluindo os EUA.

A relativa paz perdurou até 1967, quando uma nova guerra entre Israel e os países árabes da região eclodiu. Dessa vez, Israel reagiu ampliando os limites de suas próprias fronteiras originais, incorporando partes da Jordânia, do Egito e da Síria, países vizinhos.

Com a vitória militar, soldados israelenses foram filmados e fotografados rezando em locais sagrados do judaísmo nos quais o acesso vinha sendo negado durante o domínio jordaniano da Cidade Velha de Jerusalém.

A primeira lei israelense que determinou Jerusalém Ocidental como capital do país é de 1949. Em seguida, com a vitória na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e a ampliação do domínio sobre a totalidade de Jerusalém, uma nova lei passa a se referir à cidade como capital. A medida foi reforçada por decisão semelhante de 1980, sempre considerada ilegal pelas Nações Unidas.

Com essa apoteose da vitória de 1967, a cidade teve reforçado aos olhos israelenses seu forte caráter simbólico, identitário e sagrado, ganhando importância nacional renovada, sobretudo por iniciativa de setores mais religiosos e conservadores.

A ocupação israelense de 1967 – que mudou as fronteiras fixadas 20 anos antes – sempre foi condenada pelas Nações Unidas e por seus países-membros individualmente. Manter as embaixadas em Tel Aviv era uma forma de demonstrar essa censura e, ao mesmo tempo, reconhecer a legitimidade da reivindicação que os palestinos também têm sobre a cidade sagrada como capital de seu futuro Estado. Daí a surpresa e a reação que a decisão de Trump provocou em todo o mundo árabe, na Europa e até no Vaticano.

‘Medida responde mais à agenda interna americana’

 

O Nexo fez quatro perguntas sobre a decisão de Trump, suas motivações e possíveis consequências ao professor de história Michel Gherman, que é coordenador do Niej (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes) da Federal do Rio de Janeiro e também colaborador do Instituto Brasil-Israel.

Qual o sr. acredita que tenha sido o cálculo político de Trump para tomar uma decisão tão arriscada do ponto de vista diplomático e de segurança internacional?

Michel Gherman Foi um cálculo absolutamente de política interna. A política externa de Trump é, na verdade, uma extensão de sua política interna. Nada ao redor da política do Oriente Médio hoje justificaria essa decisão. A única coisa que eu posso entender é que haja uma pressão interna que tem a ver com apoiadores de Trump na política doméstica.

É importante notar que essa pressão não vem da comunidade judaica americana – que, em sua grande maioria, não é próxima de Trump – mas dos evangélicos americanos que têm, eles mesmos, uma preocupação com Jerusalém [local sagrado para os cristãos, assim como para os judeus e os muçulmanos]. É esse cálculo que Trump fez: responder ao apoio interno dos evangélicos por meio de uma demanda que tem muito pouco a ver com Oriente Médio agora, mas tem muito a ver com os EUA.

Existem precedentes na história das relações dos EUA com o Oriente Médio de uma decisão que tenha sido tão controvertida e potencialmente conflitiva?

Michel Gherman Imagino que haja. A invasão do Iraque [2003], por exemplo, foi uma decisão tomada de forma pouco cuidadosa e que levou a resultados desastrosos.

Esta decisão, de agora, foi uma decisão de gabinete, interna, e me parece uma decisão fora de série porque é uma decisão que dialoga pouco com o Oriente Médio e muito com os EUA. É uma decisão que, a priori, influencia as relações do mundo árabe com Israel num ano em que havia uma aproximação interessante entre a Arábia Saudita e Israel. Agora, Trump pode colocar tudo a perder.

De fato, é uma decisão que deve estar entre as mais mal pensadas e mal calculadas da história dos EUA. Só se justifica como uma decisão que mira o público interno, os evangélicos americanos, e não o público vinculado à realidade dessa região, os palestinos e israelenses.

Com base na análise do passado político da região, é possível prever a reação que essa decisão pode ter?

Michel Gherman Exercícios de futurologia estão sempre baseados em impressões, e não no futuro efetivamente. Mas mesmo mudanças pouco relevantes em Jerusalém provocaram reações muito poderosas [no passado]. Por exemplo, meses atrás [em julho de 2017], quando houve a tentativa de colocar detectores de metais na Cidade Velha de Jerusalém [para acesso de palestinos], a reação foi muito poderosa e levou a manifestações muito massivas [com 500 feridos e 7 mortos]. Em [28 de setembro de] 2000, a chegada de [Ariel] Sharon [à época parlamentar do conservador Likud e, posteriormente, primeiro-ministro de Israel entre 2001 e 2006 ] ao Monte do Templo [local sagrado tanto para muçulmanos quanto para cristãos e judeus] também foi seguida de uma reação que levou à segunda intifada [levante de palestinos], que levou a milhares de mortes [em setembro de 2000].

Então, as percepções do passado mostram que no futuro – caso essas decisões sejam realmente implementadas – elas podem provocar reações muito fortes e pouco previsíveis.

O Oriente Médio se encontra hoje dividido em várias frentes, com sunitas e xiitas medindo forças em guerras como a do Iêmen. A decisão americana sobre Jerusalém pode ter o poder de unificar esses atores contra um inimigo comum externo à região?

Michel Gherman As divisões internas estavam levando a atritos muito fortes na região, onde Israel não vinha sendo um elemento importante. O que está acontecendo agora é a possibilidade, sim, de uma unificação [de rivais] em nome de um tema comum.

O que Trump pode fazer com essa medida é que os conflitos internos no Oriente Médio sejam impedidos de acontecer até o final, e que haja uma unificação em torno de uma agenda compartida.

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