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A ascensão de Robin Wright em ‘House of Cards’ e sua disputa por igualdade salarial

Atriz vem ganhando espaço desde que a série teve início, e pleiteia um salário equivalente ao de Kevin Spacey desde 2016

     

    Na segunda-feira (4), o diretor de conteúdo da Netflix Ted Sarandos anunciou, em uma conferência em Nova York, mudanças drásticas na sexta e última temporada da série “House of Cards”. Um dos produtos de maior sucesso da rede de streaming, ela mostra a disputa por poder protagonizada por personagens ambiciosos e inescrupulosos em Washington, e é produzida para a companhia pela produtora Media Rights Capital.

    A temporada final terá apenas oito episódios, e não 13 como era previsto anteriormente. O protagonista da série deixa de ser o personagem Frank Underwood, um congressista da Carolina do Sul interpretado por Kevin Spacey, e passa a ser a sua esposa, a igualmente ambiciosa Claire Underwood, interpretada por Robin Wright.

    A mudança é impulsionada pela derrocada de Spacey, que saiu de “House of Cards” após uma série de denúncias de abuso sexual, inclusive de membros da equipe. Em paralelo, a personagem Claire Underwood vinha ganhando projeção e relevância.

    Mesmo antes da derrocada de Spacey, Wright havia criticado a Media Rights Capital por não conceder a ela o mesmo salário concedido a Spacey.

    As mudanças recentes na série se relacionam a três pontos pelos quais a indústria de entretenimento americana vem sendo criticada:

    • A tolerância com abusos cometidos por homens em posições de poder
    • O protagonismo menor geralmente concedido às personagens femininas
    • A desigualdade salarial que favorece atores quando comparados a atrizes
     

    As denúncias contra Spacey

    Em outubro de 2017, o jornal americano The New York Times e a revista The New Yorker publicaram reportagens quase simultâneas que trouxeram à tona uma série de denúncias de abuso sexual e estupro contra o poderoso produtor Harvey Weinstein. Entre as figuras que o acusam estão as atrizes Lupita Nyong’o e Angelina Jolie.

    Elas fizeram com que o empresário fosse demitido do estúdio que fundou, The Weinstein Company, e renunciasse de seu cargo na junta diretora -mesmo assim, ele continua como um dos maiores acionistas da empresa, que ajundou a fundar em 2005. O caso também foi o pontapé para de uma série de denúncias contra outras figuras de poder no mercado de entretenimento americano, entre elas artistas de prestígio como Kevin Spacey que, antes do sucesso em “House of Cards”, já tinha uma carreira sólida no cinema que lhe rendera dois Oscars.

    Mais de 30 pessoas acusaram Spacey de conduta imprópria, assédio e tentativa de estupro. O primeiro foi o ator Anthony Rapp, que alega ter sido vítima de avanços sexuais durante uma festa, quando ele tinha apenas 14 anos. Outras pessoas, a maioria delas homens jovens, mas também mulheres, registraram denúncias sobre casos que teriam ocorrido desde a década de 1980, até mesmo durante a produção de “House of Cards”

    Como consequência, a Netflix suspendeu a série em novembro, e anunciou que não trabalharia mais com Spacey nela. A mesma empresa também cancelou o lançamento de “Gore”, um filme previsto para 2018, que tinha Spacey no papel principal. O astro declarou que sofre de um transtorno compulsivo por sexo e deu entrada em uma clínica de reabilitação no Arizona, assim como o próprio Harvey Weinstein fizera.

    Sem Spacey no elenco, a Netflix anunciou em dezembro que a personagem de Robin Wright, a outra estrela do show, ganharia definitivamente o protagonismo nas gravações que se iniciam em 2018. Ainda não está claro quando a próxima temporada será lançada, e como a trama lidará com a ausência de Spacey.

     

    O embate de Robin Wright com a Netflix

    Ainda em maio de 2016, mais de um ano antes do início das denúncias e da derrocada de Spacey, Wright afirmou em uma conferência com ativistas, filantropos e membros da mídia em Nova York, que exigira da empresa o mesmo salário do ator.

    “Eu pesquisei estatísticas, e vi que a personagem Claire Underwood fora mais popular do que Frank Underwood por um período. Então eu disse, ‘é melhor vocês me pagarem ou eu vou vir a público’, Na entrevista, ela compara a sua situação empregatícia na vida real em relação a Spacey com as posições de poder dos personagens interpretados por cada um dos dois.

    “Era o paradigma perfeito. Há muito poucos filmes ou programas de TV em que o homem, o patriarca, e a matriarca são iguais. E eles são iguais em ‘House of Cards’.”

    Na época, Wright afirmou que havia obtido essa concessão de sua empregadora. Um ano depois, no entanto, em uma entrevista à revista Rhapsody, distribuída em aviões, afirmou que esse benefício nunca havia se concretizado. “Eu não acho que estão me pagando a mesma quantia. Eles me disseram que eu estava recebendo um aumento. Mas… Eu não acho que isso está acontecendo”, disse.

    A produtora responsável por “House of Cards”, Media Rights Capital, justificou a diferença afirmando que Spacey estava entre os produtores que haviam criado o programa. Apesar de ter obtido espaço como produtora executiva e oportunidade de dirigir alguns episódios, Wright não teria o mesmo status do ator na obra -isso ao menos até este momento, em que a atriz assume como protagonista.

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