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Como um planeta mais quente pode diminuir a produtividade industrial

Estudo que analisou o setor chinês por 10 anos aponta que temperaturas mais altas afetam tanto os humanos quanto as máquinas

     

    Que dias mais quentes fazem as pessoas trabalharem menos – e que, quando elas trabalham, são menos produtivas – estudos científicos já sugeriram. Agora, pesquisadores das universidades de Duke e da Califórnia (EUA) e da Politécnica de Hong Kong apontam para um novo impacto do aquecimento global nas indústrias: o maquinário, inclusive computadores, também apresenta sinais de queda no calor.

    Em uma análise que envolveu dados da produtividade industrial de mais de meio milhão de indústrias chinesas distribuídas por todo o país, pesquisadores de universidades dos EUA e da China concluíram que, em média, dias com um calor de 32°C rendem 0,45% menos que as jornadas realizadas em temperaturas de 10°C a 15°C.

    Considerando a média de produtividade das firmas chinesas e a participação do setor de manufatura no PIB do país (32% em 2013), o aquecimento global faria o Produto Interno Bruto chinês encolher cerca de 12%, até a metade do século 21 (as previsões são para o período de 2040 a 2059, levando em conta que a indústria mantenha a mesma importância para a economia chinesa que tem hoje).

    US$ 39,5 bilhões

    seria o tamanho da perda para a economia chinesa com o aumento de temperatura, com o dólar em valores de 2007, segundo o estudo

    O paper, publicado em novembro de 2017 pelo NBER (National Bureau of Economic Research), contou com a participação de quatro pesquisadores de duas universidades americanas e uma chinesa.

    Como o calor diminui a produtividade

    O estudo aponta duas principais formas de as altas temperaturas impactarem negativamente a produtividade industrial: diminuindo o ritmo humano e das máquinas.

    Estudos prévios já identificavam que temperaturas mais altas impactariam a economia global de forma negativa, ao afetar tanto a agropecuária quanto a produtividade humana. Uma destas análises, publicada em 2016 na revista Nature, mostrou ainda que países em desenvolvimento, sobretudo da América do Sul e da África, seriam os mais afetados.

    O novo estudo agora demonstra os efeitos do calor em um setor econômico que impacta diretamente o PIB de países desenvolvidos. Se a agricultura responde por apenas 1% do PIB americano e 10% do chinês, a produção de manufaturas aparece com 12% e 32% no PIB de cada um, respectivamente.

    Além de fazer diminuir a produtividade dos  trabalhadores, temperaturas mais altas “reduzem a capacidade de lubrificantes atenuarem a fricção entre componentes mecânicos; aumentam os índices de falha, ao expandir o volume de materiais; e diminuem a velocidade de processamento de computadores”, escrevem os pesquisadores, citando pesquisas prévias no campo da engenharia.

    Os indícios se aplicam tanto para indústrias consideradas pesadas, como refinarias químicas ou de fundição de metais, quanto indústrias leves, como as de processamento alimentício ou de madeira.

    O que os pesquisadores classificam como “impressionante” no estudo é que empresas que produzem tecnologia de ponta demonstraram capacidade de produção reduzida em dias mais quentes, mesmo que elas tenham a “tendência de operar em ambientes com ar-condicionado”.

    As ponderações do estudo

    Toda a análise foi baseada em dados do setor industrial chinês entre os anos de 1998 e 2007. Os autores escrevem que, por isso, não podem afirmar que todas as indústrias do resto do mundo apresentariam as mesmas respostas ao aumento das temperaturas médias, embora indícios presentes em outros estudos sigam essa mesma linha de raciocínio.

    Eles também detalham alguns pressupostos tomados para viabilizar o estudo. Os pesquisadores basearam seus cálculos medindo como o aquecimento global mudaria “a distribuição [ao longo do ano] de temperatura, precipitação, umidade relativa e velocidade dos ventos”, enquanto mantiveram outras variáveis fixas, como o crescimento médio da produtividade e do desenvolvimento tecnológico chinês.

    Nesse sentido, o estudo surge como um aviso de que, se tudo continuar acontecendo como no período analisado (10 anos), o impacto do aquecimento global pode ser grande para as indústrias.

    Ainda que os cálculos não detalhem os impactos para a indústria global, em uma economia globalizada e interdependente “qualquer deterioração que as mudanças climáticas causem no setor de manufaturas da China deve, provavelmente, afetar os preços globais e, com isso, o bem-estar ao redor do mundo”, ponderam os autores.

    Quais as perspectivas para o aquecimento global

    A China é, atualmente, o país que mais emite os poluentes responsáveis pelo “efeito estufa” que gera o aumento nas temperaturas médias do planeta. Logo em seguida surge os EUA, na segunda posição global. Os dados são do Banco Mundial, em valores absolutos.

    O governo chinês tem o objetivo declarado de reduzir suas emissões e se transformar em um país modelo para a geração de energia limpa (como a eólica e a solar, por exemplo). O país identificou que este é um nicho do mercado que deve render muito dinheiro no futuro e, portanto, merece o investimento.

    Ao mesmo tempo, os EUA, sob a administração de Donald Trump, reduziram os incentivos para o desenvolvimento do setor de energias limpas, além de se retirar, em junho de 2017, do Acordo de Paris – principal tratado internacional sobre o tema.

    O tratado assinado em 2016 busca o comprometimento dos países para que o aumento da temperatura global não ultrapasse os 2°C até o fim do século 21. Estudos apontam que a tendência atual é de que o aumento supere os 2,7°C, no mesmo período.

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