A estratégia do Google para a Índia. E a disputa pelo mercado do país

Empresa lança produtos para celulares de baixa tecnologia e conexão lenta; país tem 900 milhões de pessoas não conectadas

     

    O Google lançou nesta terça-feira (5) um pacote de produtos feitos para uso em aparelhos de tecnologia simples e com conexão de baixa qualidade para conquistar espaço na Índia. A empresa anunciou uma nova versão do sistema operacional Android que virá com versões simplificadas de apps, como YouTube e Maps.

    A Índia passou a receber atenção especial da gigante da tecnologia em 2015, quando o indiano Sundar Pichai se tornou CEO da empresa. A unidade do Google que planejou as mudanças na Índia é a mesma que está responsável pelo desenvolvimento de produtos no Brasil, em uma iniciativa para grandes mercados conhecida como “Next Billion User” (Próximo Bilhão de Usuários).

    Por que a Índia é importante?

    Além de ser a terra natal do CEO do Google, a Índia é importante por ser um mercado gigantesco e relativamente inexplorado. Segundo o Banco Mundial, cerca de 900 milhões de pessoas, ou 70% da população, ainda não estão on-line na Índia, o segundo país mais populoso do mundo. No Brasil, 60% da população tem acesso à internet, segundo o Banco Mundial. No comunicado em que anunciou os novos produtos, o Google afirma que indianos estão usando cada vez mais dados – 4GB em média por mês, que deve crescer para 11GB nos próximos quatro anos.

    O avanço no uso de dados pode ser atribuído, em parte, a uma guerra de preços de operadoras. De acordo com o jornal americano Wall Street Journal, a disputa começou em 2016, quando uma nova empresa de um milionário local, Reliance Jio Infocomm, passou a oferecer internet 4G ilimitada por seis meses – tipicamente, a conexão na Índia tem baixa velocidade. Até hoje, a companhia oferece preços baixos, o que levou outras empresas a reduzir o valor de seus pacotes também. Apesar de mais pessoas terem acesso à internet rápida, seus aparelhos ainda são antigos, o que limita o uso de aplicativos pesados. Além disso, muitos planos de dados têm limites, assim como no Brasil, e a velocidade de conexão cai quando esse limite é atingido.

    Com esse potencial de mercado, as grandes empresas de tecnologia do mundo, como as americanas Google, Facebook e Amazon e as chinesas Alibaba e Tencent, estão competindo para ganhar espaço no país, de acordo com reportagem do jornal americano The New York Times. O artigo também informa que empresas locais, como Reliance, Flipakart e Paytm, estão na disputa.

    Quais os produtos para a Índia

    Entre os produtos anunciados pelo Google com foco na Índia estão:

    1. Android Go: o sistema operativo do Google, o Android, é planejado para aparelhos com alta tecnologia, comum nos mercados de locais desenvolvidos, como os Estados Unidos e a Europa. O recém-lançado Android Go é mais leve e voltado para aparelhos de pouca tecnologia e ambientes com restrição de uso de dados. Alguns aplicativos serão pré-instalados e a loja de vendas de apps sugerirá o que funciona melhor no sistema operacional.
    2. Google Go: um novo aplicativo de busca do Google, que está disponível em versão preview a partir desta terça-feira (5) na Índia e na Indonésia (país incluído na iniciativa Next Billion Users). Segundo o Google, o app foi pensado para quem está começando a usar a internet agora.  Também é um aplicativo mais leve e permite que o usuário escolha facilmente entre línguas, por exemplo entre inglês e hindi.
    3. Files Go: aplicativo que ajuda a liberar espaço em celulares e compartilhar arquivos off-line com pessoas que estão próximas
    4. Assistente Google para Jio Phone: versão especial do assistente digital feito para os telefones da marca local Jio Phone
    5. Maps em duas rodas: O Google incluiu uma opção no Google Maps que mostra rotas para motos. Segundo a empresa, a Índia é o maior mercado mundial de “duas rodas”, e esses motoristas têm necessidades distintas daquelas dos motoristas de carros, que demandam mudanças no tipo de percurso possível e cálculo do tempo de rota.
    6. YouTube Go: versão light do YouTube, que permite o download de vídeos para assistir off-line. Os usuários também podem optar por assistir vídeos com pior qualidade (o que também consome menos dados) ou por assistir pequenas prévias dos vídeos, para não ter de consumir dados apenas para saber sobre o que um vídeo se trata. O aplicativo, que já havia sido lançado em abril, estará incluído no novo sistema Android

    O Google já havia lançado outros produtos específicos para o mercado indiano, como o Tez, um aplicativo para pagamentos on-line, e o Datally, para economizar dados. Além disso, a empresa também está investindo em aumentar o acesso da população à rede wi-fi. Segundo artigo publicado pelo CEO da empresa no jornal indiano The Economic Times,  50 estações de trem do país oferecem conexão wi-fi devido à parceria com o Google.

    Um dos desafios enfrentados pelo Google para expandir sua presença na Índia é o idioma. O país tem dezenas de línguas faladas. Nenhuma delas é a “língua oficial”, mas o governo trabalha com inglês e hindi. A Constituição reconhece 22 línguas. Segundo a rede de TV americana CNN, o Google já incluiu as 22 línguas em seu teclado. Um estudo feito pela empresa com a KPMG, citado na reportagem, afirma que, dos 900 milhões de indianos que ainda não usam a internet, 90% usam uma língua distinta do inglês.

    A polêmica envolvendo o Facebook na Índia

    Na briga pela conquista do emergente mercado consumidor indiano, outras iniciativas já prometeram aumentar o acesso da população à internet. Outro gigante da tecnologia teve problemas com seus planos no país. Em 2014, o Facebook propôs conectar milhões de usuários indianos que ainda não tinham acesso à rede. Mas o serviço não daria acesso a todo o conteúdo da internet, e sim a uma seleção feita pela empresa, que incluía a própria rede social e seus serviços, alguns sites sem fins lucrativos e outras empresas privadas.

    A iniciativa, chamada inicialmente de “internet.org” e depois rebatizada de “free basics” para esclarecer que apenas alguns serviços seriam incluídos, foi rechaçada pelo órgão regulador do país. O modelo, conhecido como “zero rating”, que dá acesso patrocinado a alguns sites ou aplicativos sem cobrança, também é motivo de polêmica no Brasil.

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