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As designers que querem acabar com o desconforto de mulheres nos exames ginecológicos

Instrumento usado em consultas causa incômodo e foi inventado pelo controverso “pai” da ginecologia moderna

 

O exame ginecológico conhecido como papanicolau é um procedimento de rotina feito a partir dos 25 anos, mesmo em pacientes que não apresentem nenhum sintoma. Toda pessoa com vagina  (mulheres cisgênero e homens trans) que se consulte com um médico ginecologista passa por ele.

Sua função é a de detectar algumas doenças, como câncer de colo de útero, e, eventualmente, infecções genitais. Para isso, a médica ou médico examina a vagina, a vulva e o colo do útero com o auxílio de um instrumento chamado espéculo, que afasta as paredes vaginais para tornar esses órgãos visíveis.

Em geral, na sequência também é realizado o exame pélvico (conhecido como toque vaginal), no qual o profissional insere um dedo na vagina da mulher e, com a outra mão, apalpa sua pelve pelo lado de fora.  Atualmente, porém, pesquisas científicas contestam sua realização rotineira em mulheres sem sintomas. 

Para muitas mulheres, o exame especular – que, além da inserção do espéculo no introito vaginal, onde fica o hímen, as obriga a ficarem deitadas, com as pernas abertas – pode ser doloroso, causa um grande desconforto e é até motivo de ansiedade e medo.

“Recebemos muitas queixas de mulheres quanto a ser um exame doloroso e desconfortável. Em geral, é feito na mulher com as pernas elevadas em perneiras, numa situação muitas vezes constrangedora e, em outras ainda, sem o devido cuidado”, disse a médica ginecologista do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, Halana Faria, ao Nexo.

“A mulher fica tensa com a situação, contrai a musculatura e muitas vezes pode sentir dor. Não afirmamos que médicos e enfermeiros propositadamente provoquem dor ao realizar o exame. Mas há uma situação que é sentida pela grande maioria das mulheres como algo desagradável. Muitas chegam a compará-la com situações de abuso”, complementa Faria. 

Esse incômodo tem levado a uma revisão do design e mesmo da história do espéculo. Gera, além disso, questionamentos sobre o transtorno ser parte do exame, sendo assim inevitável, se decorre do formato do instrumento ou da técnica do profissional.

Revisão do design

Três designers e uma engenheira mecânica americanas criaram o Yona, um espéculo redesenhado, centrado no bem-estar das pacientes.

O projeto teve início em 2016, quando as designers e colegas de trabalho Hailer Stewart e Sahana Kumar compartilharam entre si a ansiedade que sentiam ao passar por um exame pélvico.

Elas então conduziram entrevistas com pacientes e médicos sobre suas experiências durante esse tipo de procedimento e constataram que quase todas sentiam a mesma tensão.

A partir desse diagnóstico, juntaram-se a mais uma designer, Rachel Hobart, e à engenheira Fran Wang, para desenvolver o Yona. O novo instrumento ainda é um protótipo, mas já foi testado e avaliado positivamente em clínicas da ONG americana Planned Parenthood.

Alguns aprimoramentos trazidos pelo Yona

  • o aço inoxidável de que são feitos os espéculos é coberto com silicone esterilizável, amenizando dois incômodos relatados pelas mulheres: a temperatura (fria) e a dor ao inserir o objeto metálico
  • design com três folhas e não mais duas, permitindo um campo de visão desobstruído sem precisar afastar a parede vaginal com uma amplitude desconfortável
  • sem parafusos visíveis que possam beliscar os lábios vaginais ou ranger à medida que o instrumento se abre
  • suporte digital: o Yona tem um aplicativo no qual o paciente pode cadastrar suas preferências para o exame, fazer perguntas de maneira privada, entre outros serviços

Esta não foi a primeira iniciativa a tentar substituir o atual modelo do espéculo por um que apresente um design mais conveniente para as mulheres. Na última década, outras empresas americanas, como FemSuite e Doctors Research Group Inc., investiram em redesenhar o espéculo.

Os novos instrumentos, porém, não foram adiante. O motivo apontado é a resistência dos médicos em adotar novas práticas. Muitos não veem nada de errado com o espéculo como ele é hoje.

Revisão da história

O incômodo das pacientes não é a única razão pela qual o uso do espéculo tem sido questionado. A invenção do instrumento data de meados do século 19 e é creditada ao médico americano James Marion Sims. Exceto por alguns aprimoramentos mínimos feitos desde então, o espéculo usado hoje é muito similar ao que foi desenvolvido por Sims.

Por ser o autor de descobertas que moldaram o tratamento do aparelho genital feminino, o médico é considerado o pai da ginecologia moderna.

O custo dessas descobertas, no entanto, foi alto: Sims, que também chegou à cura cirúrgica para uma condição chamada de fístula vesicovaginal, realizou experimentos em mulheres escravizadas, sem o uso de anestesia. Seu legado levanta questões de violência, racismo e consentimento.

Foto: Museu Arqueológico Nacional de Nápoles/Domínio Público
Ilustração de 1847 do espéculo
 

Na segunda onda do feminismo, entre as décadas de 1960 e 1970, o espéculo assumiu o peso de um símbolo dos papéis de gênero e do desequilíbrio de poder entre homens e mulheres.

Para as ativistas dos anos 1970, segundo o livro “Gyn/Ecology”, o instrumento médico se tornou a metáfora exata da sociedade que, sob o domínio masculino, coloca as mulheres em posição de vulnerabilidade e toma decisões sobre seus corpos. Segundo algumas delas, o tratamento ginecológico da época seria comparável à tortura e ao genocídio.

Uma ginecologia humanizada

O espéculo é parte de um problema maior enfrentado por muitas mulheres no cuidado da saúde ginecológica. Esse problema pode estar ligado a tabus, ao desconhecimento da mulher em relação à própria sexualidade e anatomia, à qualidade do atendimento e à normalização da dor e do desconforto no que se refere à saúde ginecológica da mulher.

A proliferação do discurso feminista e a troca de informações pelas redes sociais, porém, têm levado algumas mulheres a buscar esse tipo de atendimento de maneira mais informada e política.

No Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, criado em 1981 e atuante hoje em São Paulo e Florianópolis, as profissionais seguem uma maneira de realizar o exame com espéculo que foi construída historicamente por grupos feministas.

“Não usamos perneiras. A maca é larga e confortável. Antes do exame fazemos uma longa anamnese que deixa a mulher à vontade. A sala não é intimidadora. A mulher é convidada a participar do exame inserindo o espéculo e depois observando sua própria vagina, colo, secreções com um espelho. Algo que ela aprende e pode reproduzir em casa”, descreve Halana Faria.

Segundo a médica, a reação da maioria das mulheres é de “deslumbramento pela oportunidade de serem guiadas, elas próprias, ao seu próprio corpo, um local que em geral é inacessível”. “O que proporcionamos é autonomia, para que diante de alterações uma mulher tenha condições de se auto-examinar e poder identificar problemas cotidianos, entender quando deve procurar ajuda para uma avaliação.”

ESTAVA ERRADO: A primeira versão do texto não incluía os homens transsexuais entre as pessoas submetidas ao exame com espéculo. A informação foi corrigida às 20h27 do dia 4 de dezembro de 2017.

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