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O que são think tanks. E como eles influenciam a política

Número de entidades dedicadas a explorar questões importantes para a sociedade cresce

     

    A Universidade da Pensilvânia publica, anualmente, a lista de think tanks com atuação mais relevante no mundo. Em 2008, apenas 7 instituições brasileiras estavam na lista. Na edição de 2016, 23 think tanks brasileiros apareceram nela.

    Think tanks são instituições que se dedicam a produzir e difundir informações sobre temas específicos. Seus objetivos são influenciar ideias na sociedade e decisões na política.

    Em um mundo cujos problemas políticos e sociais são complexos e os cidadãos muitas vezes não têm tempo para se aprofundar nas discussões, os think tanks se apresentam como defensores de alguma solução.

    A expressão, do inglês, geralmente é traduzida para o português como “laboratório de ideias”.

    O conceito de think tank

    O relatório publicado anualmente pela Universidade da Pensilvânia sobre a qualidade dos think tanks no mundo os classifica como organizações de pesquisas sobre políticas públicas capazes de apresentar recomendações a atores políticos.

    O papel das think tanks, segundo o mesmo relatório, é preencher lacunas de conhecimento para aprimorar as políticas públicas em áreas importantes para o bem-estar coletivo, como meio ambiente, imigração, pobreza, economia e saúde pública.

    É diferente de ONG e lobby?

    O conceito que define think tank não exclui a possibilidade de que a instituição também seja enquadrada na definição de ONG, entidades não governamentais e sem fins lucrativos que atuam de forma concreta em favor de alguma causa.

    Uma ONG que, além de atuar de maneira concreta, produza conhecimento e tente difundi-los na sociedade, também se enquadra no conceito de think tank.

    A diferença entre lobby e think tank, por sua vez, é que empresas de lobby são contratadas por atores privados – como empresas – para pressionar políticos a adotarem ações de seu interesse.

    A iniciativa de think tanks, via de regra, não é motivada por pagamento de empresas. O financiamento privado de think tanks pode ocorrer, mas ele não é a razão de existência da entidade – ao contrário de agências de lobby.

    Os críticos ao modelo, porém, apontam que muitos think tanks são voltados para dar roupagem “técnica” a projetos de interesse corporativo das empresas.

    Como surgiram os think tanks

    Os think tanks existem desde o século 19, mas ganharam força nos Estados Unidos, com o fim da Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria.

    Na época, temas como segurança internacional e política externa foram pesquisados por think tanks americanos. Um dos mais importantes foi o Rand Corporation, criado em 1948 pelo governo americano para realizar projetos no campo militar.

    Durante a década de 1980, a integração global entre países e o fim da Guerra Fria contribuíram para que o modelo think tank se espalhasse pelo mundo.

    Como atuam os think tanks

    Para influenciar decisões políticas e a opinião pública, think tanks reúnem especialistas que elaboram estudos sobre determinados temas e publicam os resultados.

    Sua atuação pode tanto ser mais técnica, buscando isenção nas recomendações, como assumir pressupostos religiosos ou ideológicos – sejam eles liberais, conservadores ou social-democratas.

    A expansão do acesso à internet possibilitou que think tanks criassem sites e passassem a disseminar suas ideias para o público geral com mais facilidade.

    Tipos de think tanks

    A iniciativa de difundir ideias pode surgir de atores diferentes, o que também afeta sua forma de atuação. A maior parte dos 6.000 think tanks espalhados pelo mundo são de três tipos.

    Governamental

    Criados por governos com o objetivo de produzir conhecimento sobre determinado tema considerado estratégico para o país. São exemplos: desigualdade social, defesa nacional, desenvolvimento econômico

    Ideológico/causa

    São think tanks voltados a produzir ideias de apoio a determinada visão de mundo. Grupos que advogam pela implementação de políticas liberais – como menor intervenção do Estado na economia – com base em argumentos de eficiência do mercado são um exemplo.

    Científico

    Centros de pesquisa, geralmente criados por universidades, que se debruçam em teorias e análise de dados para encontrar evidências a favor de uma ou outra explicação para a ocorrência de determinados fenômenos. Atuam nesse tema institutos que publicam estudos sobre aquecimento global ou causas da violência doméstica.

    Como os think tanks são financiados

    Cada tipo de think tank possui uma fonte principal de investimento. Aqueles criados pelo governo são financiados com recursos públicos. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no Brasil, é um exemplo.

    A utilização de recursos públicos para custear think tanks não é uma exclusividade do Brasil. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, possui think tanks que cuidam de assuntos de grande importância nacional, como planejamento militar e política externa.

    Think tanks da área científica conseguem recursos, além de universidades, com a prestação de serviços de consultorias. No Brasil, a Fundação Getúlio Vargas é um exemplo.

    Outros think tanks, organizados e geridos por grupos da sociedade civil, se financiam com doações.

    Think tanks brasileiros

    O relatório da Universidade da Pensilvânia, que apresenta as think tanks com atuação mais relevante no mundo, cita 15 instituições brasileiras. O índice é obtido a partir de critérios como reputação da instituição, capacidade de fazer pesquisas independentes – sem que os resultados sejam influenciados por partidos ou empresas – e o impacto entre acadêmicos e políticos.

    No campo científico, a Fundação Getúlio Vargas, o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e o NEV (Núcleo de Estudos da Violência) foram classificados como think tanks de excelência.

    O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), criado pelo governo brasileiro para realizar estudos sobre desenvolvimento, desigualdade e renda, também está na lista da Universidade da Pensilvânia.

    Entre os think tanks de iniciativa da sociedade civil, foram listados o Instituto Millenium e o Fórum da Liberdade, por exemplo. Ambos produzem conteúdo para disseminar o que defendem ser as qualidades do liberalismo.

    Atuação contestada: indústria do tabaco ‘injustiçada’

    Um dos casos mais emblemáticos de atuação inadequada de think tanks ocorreu com The Heartland Institute, que trabalha com diversos temas em defesa do livre mercado.

    Em 1998, o Heartland Institute publicou um documento no qual alegava que o fumo passivo não causava risco de câncer. Na época, uma lei que aumentava impostos sobre cigarros e restringia propaganda do produto estava em discussão.

    Um ano depois, documentos nos quais a Heartland pedia dinheiro à empresa de tabaco Philip Morris em troca da “ajuda” que a think tank havia lhe dado vieram a público.

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